A vida nos propõe exercícios diários daquilo que nos é mais difícil. Pra mim, isso está no perder. Talvez por isso, como aconselha aquele poema de Elisabeth Bishop, eu perca tanto e um pouquinho a cada dia. Nunca sei onde guardei aquele papel, e a sacola do presente que eu esqueci pendurada na cadeira do bar, e o compromisso que ficou perdido em alguma anotação perdida como ele. Esqueço coisas pelos cantos e se elas também me esquecerem, podemos vir a nunca mais nos encontrar. E nessas perdas cotidianas fui inventando jeitos de lidar com isso, fui me desprendendo. As coisas que me são essenciais, refaço caminhos, reencontro; mas as que de fato se foram me conformo antes de virarem uma chateação maior. Perco um pouco todos os dias. Mas a arte de perder é um grande mistério. Ainda não aprendi a me desfazer das relações que foram caras, e isso traz um sofrimento tão doído quanto cansado, por pedir de mim um tempo que me excede. Aprendi a perder as coisas, mas ainda não sei perder as pessoas. Talvez eu nunca aprenda, mas a cada vez saio mais convencida de que o que importa é cuidar do tempo que estamos na vida de alguém. Fazer desse tempo o melhor, cuidar de trocar o melhor de nós, ser gratos pelos tantos ganhos. Porque no fim estamos mesmo e sempre de passagem, em tempos breves ou mais descansados.
Os motivos da rosa
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Dilaceramento
Eu nunca vivi uma situação de tortura, não posso imaginar como seja. Não digo que seja condição passarmos por uma experiência para compartilhar algo dela, mas os relatos e filmes que me aproximaram disso deixaram aqui um tamanho dilaceramento que me escapa pensar o que seria vivê-la. Recentemente, li alguns depoimentos de mulheres que sofreram tortura no período da ditadura militar brasileira e de novo terminei o texto em pedaços. O que mais me tocou dessa vez foram as crueldades que eram exercidas sobre o feminino. Lembro de uma delas dizer que uma das maiores humilhações era se despir diante dos olhares perversos dos torturadores. Os filhos eram usados em chantagens, expostos à visão do corpo machucado de suas mães ou eles mesmos sofreram violências. Partos sem assistência, bebês afastados logo depois de nascidos, abortos provocados por choques elétricos. E no corpo que era tomado, violentado, submetido, avaliado, xingado, chantageado ficaram as marcas desse momento sombrio da nossa história, que por tanto tempo foi calado. Eu nunca vivi uma situação de tortura, não posso imaginar como seja. Mas compartilho a dor dessas mulheres. Quem hoje pode contar essa história conseguiu escapar com vida, mas penso que foi no depois que a vida precisou ser cotidianamente refeita. Me surpreendo e assusto quando penso nas crueldades que o humano ainda é capaz de fazer. Me surpreendo e aprendo com a força que o humano ainda é capaz de criar. Me surpreendo e preocupo ao dar conta que a tortura não é prática apenas de ditaduras passadas.
domingo, 17 de novembro de 2013
A essa hora?
Andei nesses dias fazendo umas visitas aqui. É engraçado voltar aos textos depois de algum tempo: eles me parecem tão familiares quanto estranhos. Termino a leitura com um meio sorriso, acreditando que a grande maioria são bobagens e que é surpreendente que alguém ainda me leia. Mas também é gostoso voltar às memórias escritas, que dão um par de raízes às histórias, porque elas flutuam como balões de ar quando viram palavras, como contei à minha sobrinha. Desde que soube que inauguraria o título de tia, passei a contar essa e outras bobaginhas pra moça de olhos vivos e rostinho miúdo num blog que inventei praelaquechega. Outras narrativas, que num trabalho delicado de costura se tornaram minha dissertação de mestrado, ocuparam todas mais as extras ideias que poderiam espirrar nesse blog - dedicação que foi e continua sendo recompensada pelos bons efeitos que tenho ouvido desse trabalho. Por esses e talvez alguns outros motivos, 2013 quase ficou esquecido nosmotivosdarosa. Bom ter voltado a tempo de reerguer da escorregada. Mas mesmo que a gente escute muito por aí - e diga também - que o ano já acabou, ainda tem estrada antes de virar a curva. Então é melhor adiar as reflexões dos acontecidos pra quando for a hora e deixar esse tempo pra ir vivendo, como tem que ser. E sempre há tempo para o primeiro post do ano.
domingo, 2 de dezembro de 2012
As marcas
Ainda está nas paredes a marca que a água foi deixando
quando encontrou uma brecha pra escapar. Dos antigos problemas da nova casa,
que me pediram uma calma desleal e resignada (que a pouco me abandonou a
companhia), essa marca ainda está aqui, com seus rastros indiscretos. Mas logo acima está outra marca, dessa vez de
minha autoria, de um pedaço da tinta que se soltou quando desprendi o vinil
que fazia a decoração. Fui eu mesma quem o colocou lá, mas achei que ele
merecia outro lugar. Aí tive que dar um novo uso à estante: depois de guardadora
de livro e lembranças, agora também tapadora de machucado de parede. E além
dessas que são mais permanentes, a casa ganha outras marcas cada vez que recebe
uma visita. É muito curioso como esse mesmo espaço funciona diferente pra cada
um que vem aqui. Da janela eu lembro quando meu pai está; é ali que ele passa
boa parte do tempo. E é também quando ele está que assopro a poeira dos DVDs pra
assistirmos mais uma vez aquele filme bom. A pilha de títulos cresce pensando
nisso – no Gil dizendo que não aguenta mais Fátima e William, e a TV só fica
tendo serventia com as exibições cinematográficas. Minha mãe, ao contrário, gosta é
de ficar na cozinha ouvindo o jornal. Desconfio seriamente que ela nem dê atenção ao
que dizem os repórteres, mas fica lá o barulhinho das notícias chegando. Então eu
lembro que tenho cozinha, e que naquela miudeza amontoada de fogão, pia,
geladeira dá pra fazer uns almoços de rei, que ficam pra semana. E quando
chegam os irmãos, é revisitando a prateleira de CDs doados (por eles) ou
encontrando algum cantinho decente pra se acomodar. Foi daí que veio a ideia de
ter um sofá incrível de três lugares e a prática de ter um sofá humilde de um lugar
e meio, mas que os acolhe com os braços abertos e meio tortos. É ali que a minha
vizinha de cima senta pra conversar sobre a vida e os rastros indiscretos na
parede (que estamos prestes a resolver), e me dá um orgulho danado de hoje ter um
sofá para receber as visitas. Humilde e com os braços meio tortos, mas
acomodável. Os amigos gostam de se esparrapachar no colchão, e parece que a casa só precisa disso. Até desmontei a cama e comprei mais dois, que ficam
servindo para abrigar os pernoites. Meu primo costuma passar só pra me dar um
beijinho e um recado, e é pelo corredor mesmo que ele fica. Então se o corredor
está arrumado, a casa toda fica estando – achei melhor tirar os entulhos de
lá. As visitas foram deixando suas marcas nessa casa. E a casa reinventando
seus jeitos para receber os encontros. Porque é assim sempre: a gente deixa
uma marca nas coisas, e as coisas, uma marca na gente. Andam marcando de vir aqui em casa, fico à espera. Vai ser bom receber visitas.
sábado, 13 de outubro de 2012
Escuta
Desde muito cedo
entendi que histórias precisavam ser ouvidas. E me prontificava a escutá-las
mais por gosto que por entendimento, porque achava bom o jeito que cada um
contava. O jeito que se conta uma história é assim: único e intransferível. E
mesmo que se conte a mesma, não é mais a mesma por narradores diferentes. Nunca foi.
Porque o viver também é único e intransferível. E era pelas histórias o
meu fascínio, pois elas me contavam que as pessoas já tinham vivido de um tudo
e eu nem imaginava que esse tudo existia. A escuta me levava a outros mundos. Tenho amigos que pelos quais sou consentidamente seduzida, pela
habilidade que têm de transformar as coisas em acontecimentos. Aquelas coisas
que de tão corriqueiras nem chegam a ser anunciadas? Pois dessas saem histórias incríveis. O gosto pela escuta também virou trabalho, que lhe exigiu muitos estudos e afinações. Se tornou uma
escuta-intervenção, nas suas sutilezas, aberturas, responsabilidades. Ouviam-se
também outros enredos, pinçados dos emaranhados do contar. De vez em quando
paro pra pensar sobre as tantas histórias que já me partilharam. Algumas de se
duvidar a crença, não por desconfiança, mas pelo grau de surpreendimento que a
gente fica depois de testemunhar a vida. Uma autora chamada
Jeanne Marie Ganegbin disse algo muito interessante sobre resgatar essas
histórias do passado, de um jeito onde haja espaço para que sejam contadas
pelos suspiros longos, pelos silêncios, pelas hesitações e solavancos. Ouvir as histórias sem apertá-las prontamente num sentido ou julgamento é algo que dificilmente fazemos, mas é aí que elas aparecem em toda a sua grandeza. Nos ensinam.
sábado, 1 de setembro de 2012
A Casa
Por duas semanas, nos papos corriqueiros ou extraordinários, meus assuntos foram enxugados a um só. Se tornou uma espécie de chatice insistente,
uma queixa já cansada dela mesma. E um cansaço de fato, das idas e vindas
eternas a despejar todas as coisas no novo lar. É isso que vos conto: estou
desfrutando as alegrias e desassossegos do mudar. Mas até que viessem as alegrias,
foram muitos os desassossegos: infiltrações, instalações mal feitas, medidas
erradas, trocas, improvisos, rearranjos. Aí fiquei lá, parada nesse assunto:
chata e reclamante. Cansei disso também. Entendi que uma casa não recebe a gente
sem esforço: é preciso conquistá-la aos poucos. Ir chegando manso, respeitando a história
das tantas gentes que passaram por ali e pras quais a casa foi muito além de um
teto: foi uma vida. E quando entendi isso, fui pedindo licença. Cheguei com uma
coisa ou outra, fui escolhendo os cantos, e a casa foi ganhando outro contorno. Aí avisei que tinha uns potes de tinta a
caminho – pra não assustar. Disse que eu gostava era assim, com cores, e que de
vez em quando enjoava e pintava tudo de novo – pra já ir prevenindo. Então apresentei os amigos, a família, e nesse
dia a casa ficou transbordante de alegria. E quando eles foram embora,
emburrou. Que não se preocupasse, eu disse, voltariam outras vezes, aqueles e
outros. Os problemas foram sumindo, pendurei ontem o último quadro. E
confesso, mas só entre nós, que sinto falta daquelas duas semanas, em que todo
dia aparecia uma coisa nova pra compor a casa ou o alívio do que foi resolvido. Essa casa, agora, também irá ajudar a compor
minhas histórias - e vamos seguindo, até o dia de uma próxima mudança.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Madrugada
Imagino que a madrugada não seja gentil aos insones. Imagino porque, se foram duas ou três as vezes em que perdi o sono nessa vida, foram mais que de fato se deram. As horas que reservamos ao descanso é, das necessidades que nos obriga a natureza, uma das que tenho maior satisfação em obedecer. Esticar o corpo, encontrar seu lugar, fechar os olhos e deixar os pensamentos, devagarinho, escorregando em devaneios é quase um pecado de tão bom. E tão bom que virou pecado mesmo, por certo incluído na lista por algum desperto invejoso. Mas a preguiça é para os que podem, não para os que acordam às 6. Para estes, lá se vão as madrugadas, longe da boemia na Lapa, mas, no máximo, com uma ou outra realização desejo, como já se interpretou sobre os sonhos. E elas guardam esse outro lado que tanto quanto despertam minha simpatia, pelas ousadias que permitem, mas principalmente pelo silêncio de um barulho só. Um único barulho de um carro passando, que encontra tanto silêncio no caminho que podemos dizer o exato momento em que se aproxima, passa por nós e segue adiante. Uma conversa, que faz ouvir cada palavra do que se fala. Ou o silêncio que nos deixa contar quantas gotas caíram da torneira. Esse silêncio faz da madrugada o melhor momento para escrever. Tudo fica tão quase quieto que, de repente, parece que o pensamento fala em voz alta. E, se eu pudesse, deixaria o relógio correr à disposição da escrita, como bem me conviria. Mas faltam 10 minutos para bater a primeira hora do dia e só me restam outras 5 para o descanso, nem precisando dizer que já faz um tempo que meus olhos mal se sustentam abertos. Me despeço então, hora de dormir.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Pela janela
Há alguns anos, tive a alegria (quando já começava a exigir um mínimo de decência por parte do destino, depois de completar quase uma peregrinação jesuíta pelas ruas do Rio de Janeiro) de encontrar um cantinho bom à beça pra morar. Nele cabiam meus quatro móveis, um violino frustrado, uma dúzia de livros e outra de cds adquiridos em pequenos e consentidos furtos. Como se não bastasse (e, para mim, bastava), ganhei uma vista espetacular (e por ela sou eternamente grata). Só não digo mais pra não deixar escapar que na minha casa venta de despregar as fotos do mural e acabar matando de inveja todos os meus três leitores. A janela, como ouço dizer meu pai todas as vezes que me visita, é sem dúvida a melhor parte da casa. Mas confesso que nos últimos tempos ela tem sido mais é uma porta de entrada, um convite a participar da agitada pulsação da cidade – a qual, antes que vocês esperem das próximas linhas um poema de Drummond, é perturbadora. Nunca ouvi tanta moça de salto alto perder a pose por causa de namorado ciumento, que arruma confusão e só a desfaz aos berros da dama e à sirene da polícia. Ou outros berros que servem para escapar dos assaltos. Ou as conversas que aumentam de volume conforme as latas de cerveja, os caminhões que passam por aqui buzinado às 6 da manhã, umas bombinhas que eu ainda não entendi nem da onde vem, nem quem joga e, principalmente, por que motivo, o asfalto sendo picotado para recapeamento, a obra que não termina há dois anos, a placa de ferro que cobre o buraco da obra e supera os decibéis da britadeira toda vez que um carro passa sobre ela. Eu participo da pulsação da cidade, da pulsação barulhenta da cidade, que por uma intrigante e infeliz propagação acústica vem parar do lado na minha cama, no meio do meu quarto. Ou sala. Sala-quarto. Conjugado, assumamos. Eu, que sou uma adoradora de Morfeu, devota e congregada, participo da pulsação da cidade. Que, como já diziam, não pára, só cresce. Tem uns momentinhos que a gente precisa é de silêncio, só disso. Mas quando eu tiver que deixar essa janela, quer dizer, esse apartamento, certamente será com o coração partido. Há também tanta coisa bonita que a gente vê aqui de cima, que um dia eu separo um post só pra dizer delas. E tem ainda as vizinhas queridas, os porteiros inigualáveis e a toda a pulsação que vem daqui de dentro. Esse dia será de silêncio, mas de um silêncio um tanto triste.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Desocupados
Uma vez ouvi de uma amiga, depois de perguntar-lhe como haviam sido as tão almejadas férias, que ela não via a hora de voltar ao trabalho. Não que trabalhar fosse um prazer vital ou inevitável – a essa amiga certamente agradaria uns bons dias de acordar às 09:30 para pegar o finalzinho do programa da Ana Maria Braga e pensar nas receitas que poderia fazer. Ou não. E depois pensar o que fazer no resto do dia. Ou não. Mas o fato é que toda vez que saia à rua sentia-se quase culpada pelos 30 dias corridos que lhe asseguravam as leis trabalhistas. O olhar da moça de salto alto e terninho, com quem dividia o banco do ônibus e para quem desculpava-se pelo transtorno de passar com uma cadeira de praia e um guarda-sol, era quase uma arma branca a matar-lhe silenciosamente. Deixou de passar o protetor solar porque seu cheiro inconfundível atraía de longe olhares ainda mais inquisidores. Não se irritava mais com as moças do caixa que não respondiam ao “boa tarde”, afinal, estavam ali trabalhando desde sei lá que horas, enquanto ela acordava às 09:30 pra pegar o finalzinho do programa da Ana Maria. Quando percebeu um sorrisinho irônico no jornaleiro, jurou que jamais passaria novamente por ele com roupa de ginástica ao meio dia de uma terça-feira. Chegou a perder alguns sábados, na confusão que as férias fazem no nosso calendário, se permitindo sair apenas depois das seis da tarde. E quando finalmente voltou a programar o relógio para despertar às seis da manhã é que, pela primeira vez em 30 dias, pôde descansar. Sustentar o estar de férias num cotidiano de trabalhadores por todos os lados é praticamente um trabalho de análise. Essa semana o risinho foi do meu porteiro, que por mais dois dias não me perguntava quando é que o raio dessas férias iriam acabar. Risinho com satisfação e um breve companheirismo, do “bem-vinda de volta à população que tem todos os dias os sonhos interrompidos pelo barulho do despertador”. Difícil foi sentir o cheiro de protetor solar no ônibus até chegar ao trabalho – que vinha de algum desocupado, certamente.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Tapa
Uma criança de 6 anos acorda com o peso de um coturno na cabeça, de um policial que a espanta da frente de uma loja a pedido do dono. Essa criança cresce na rua, já conhece todo o sistema de assistência, que inventa possibilidades de acompanhamento dispondo de pouquíssimos recursos. A família talvez já tenha sido contatada, mas vive em situação de extrema pobreza. Essa criança, outro dia, deixou as marcas das unhas e do cordão arrebentado no pescoço de uma senhora. Nervosa, a senhora encontra o policial na guarita e exige maior fiscalização na praça. É ameaçada de ser presa por desacatado. O policial é formado por uma instituição extremamente violenta e corrupta. O menino é preso num outro furto, vai para o sistema socioeducativo e socialmente educado pelos agentes com tapas na cara. Vira um número, mãos atrás e cabeça baixa. Com pouca ou nenhuma escolaridade, pobre, volta pras ruas, faz 18 anos, é preso novamente e agora é ex-presidiário. Foi preso colocando um revólver no ouvido de uma moça, que, por medo, vai ficar os próximos dias sem sair de casa e os próximos anos achando que todos são assaltantes em potencial. Quando a violência chega até nós é porque muitos direitos já foram desrespeitados. E de muitos.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Uma boa visita
Foi um susto – olhei o sofá e lá estava ela, de repente. Já recebi noutros tempos e a uns posts abaixo visitas que não foram tão amenas e que causaram neste lar um certo rebuliço embaraçoso. Mas ela estava lá, tranqüila, descansando verde entre o colorido das almofadas. Fiquei a admirá-la, talvez mais pelo nome que pela beleza. É possível que se tivessem lhe batizado de desespero ou aflição, não me demoraria tanto no admirar. Mas chamava pelo nome próprio um nome que há tempos já não é comum. Era magrinha, magrinha, quase que não se via se olhada de frente. Cheguei bem perto, não tive medo dessa vez. E ela paradinha como se testasse até quão perto eu iria chegar. Fui cuidar os afazeres, panelas, vassouras, trabalho com data de entrega, e de vez em quando olhava, só pra me certificar de que ela estava ali. Foi quando resolveu se mexer – meu Deus, que lentidão desajeitada. Pedia paciência. Até que bateu as asas, subiu com ligeireza e foi descansar numa foto. Dizem que onde ela pousa traz a sorte. Era mesmo uma foto de boa sorte. A noite crescendo e talvez fosse hora de ajudá-la a encontrar a janela de novo. Mas pensei que até fosse pecado despachar uma visita dessas. Fiquei meio sem saber o que fazer e, enquanto eu pensava, ela sumiu. Vai ver que é assim mesmo: esperança aparece quando a gente precisa dela. Depois, vai pousar em outras janelas.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O vento
É pela frestinha que ele entra. O vento. E quando a gente esquece de respirar, ele traz o sopro. O vento traz é um punhado de ar. Aí a gente respira. Respira fundo. Respira novo. Não aquele ar abafado, que ficou indo e vindo e acabou por ali mesmo. O que chega pela fresta é um cheiro novo, cheiro de vento. Que fica assoprando o nariz. É gostoso deixar o nariz descansar um pouco do trabalho puxar e assoprar - e então é ele o assoprado. Os fios do cabelo balançam e a pele arrepia toda. Trabalho do vento. Vento é anúncio de coisa nova - novos ares estão por vir.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Meio
Tem época que tudo fica assim, meio nada. A gente insiste em afinar tom, apertar o parafuso, acertar o ponto, mas o negócio desanda. Aí fica lá, meio frouxo, meio torto, meio assim. Meio nada. Ou meio tudo. Enfim, fica tudo pelo meio. E quando a gente maisoumeniza na vida, ela rapidim dá um jeito de fazer espertar. Não sabe se vai ou se fica? Ah, meu rapaz, se descuidar, perde o bonde. Pois eu tampouco escapo disso: é falsear no passo que vem um tropeço. Só pra acordar. Depois disso, toma-se um tombo ou cata-se um cavaco, que além de ser mais hilário, é uma lição de vida. Catar cavaco é pura clínica, para os que me acompanham. É a beleza de rearranjar-se. É o momento onde algo desarruma tudo e o corpo vai correr atrás de um novo equilíbrio. Aí, quem tava lá, meio assim, se não toma rumo, toma o tombo. E vamos encerrando esse papo, deixa eu me espertar, afinal, gostar de ficar no meio do caminho, só a pedra.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Genealogias
Eu acho. Extremamente cansativas são aquelas centenárias ‘árvores genealógicas’, que resgatam os tantos nomes que nos antecederam na vinda a este mundo. Muito mais interessante seria se relatassem aquelas inconfundíveis miudezas que foram passadas de geração a geração, como um calinho no indicador do pé direito, como o da sua mãe; a covinha que veio de um lado só, que você encontra também num primo; ou a pontinha redonda do nariz, exatamente como a pontinha arredondada do nariz da sua avó. Ou ainda uma mania incorrigível de toda hora trocar tudo de lugar, como fazia aquela tia das histórias engraçadas; a organização funcionário público com livro de ponto expediente protocolo, que você acha nas pastas organizadas por título e subtítulo no armário do seu pai; ou aquela formigante vontade de dar uma implicadinha, que alguém jura de pés juntos que era igual a do seu bisavô. E se nesse molde inovador eu fosse fazer minha árvore, teria tantas heranças curiosas para incluir no inventário que daria para escrever um livro. Mas vou aqui me dedicar a uma delas, que dessa vez escorregou na horizontalidade.
Para que um dia eu consiga chegar perto de ter um coração generoso como o dele, ainda me falta uma longa jornada. Mas se há algo que muito nos aproxima é uma ligeira e característica distração. Aquela coisa boba, de que você tá lá, aí se distrai e, quando vê, esqueceu alguma coisa. Esqueceu, trocou, fez a mesma coisa duas vezes, perdeu, foi procurar, esqueceu o que tava procurando, e, classicamente, precisou voltar em casa pra pegar... o que mesmo? Ah é! Isso! Como podia esquecer... Esse jeito ligeiramente distraído já nos rendeu histórias quase inacreditáveis. Seriam, se não fôssemos nós que estivéssemos contando. É claro que é sempre ao toque de cada um, afinal, na igualdade, temos lá nossas diferenças – talvez ele se distraia porque é muito acelerado e eu, porque preciso de um tempo maior. Mas algo valioso que aprendi com esse irmão foi dar boas risadas disso que, nos dias de tempo ruim, poderia chatear. Eu adoro quando, no almoço de domingo com a família reunida, meu irmão conta uma dessas peripécias do esquecimento, começando assim: “Tenho uma história sensacional pra contar”. E ele conta, rindo de seus próprios tropeços, histórias sensacionais. Sem elas, não, o almoço não teria tanta graça. Um beijo para meu querido irmão Bruno, que além de ser esse irmão sensacional, ainda lê meu blog e reclama quando não tem texto novo! Amo você!
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Morangos
Não digo que nunca saio sem ela porque sou mais distraída que minhas obsessões. Mas sempre que lembro – nunca saio sem ela. A câmera fotográfica se tornou uma grande companheira pela vida afora, a me fazer descobrir morangos entre o leão e o penhasco. Certa vez, uma amiga contou uma história escrita por Rubem Alves de um homem que andava pela floresta quando começou a ser perseguido por um leão. Com medo e fugindo depressa, acabou caindo num precipício. Conseguiu agarra-se numa raiz que brotara ali, e ali ficou pendurado sobre o abismo. Foi quando viu que também ali crescia um pé de morango, onde havia uma única frutinha, a qual comeu e se deliciou. E então pensou que na vida deveria haver morangos à beira do abismo. Vejo a mim mesma e a tantos outros andando depressa pelas ruas, acelerando os passos e os pedais, fugindo do leão que gira os ponteiros e nos come as horas sagradas de todos os dias. Não vejo mais por onde passo, apenas aonde devo chegar. Preocupações de toda ordem vagueiam no pensamento e tomam de mim a presença no mundo. Mas aí, nas ruas de todos os dias, nos carros de todos os dias, nos rostos de todos os dias, reparo uma cor. E uma bicicleta enferrujada atrás de um poste onde se lê uma declaração de amor, escrito à liquipaper. E um dentinho torto de criança que aparece num sorriso tímido, tímido. E outro fusca, para entrar no álbum dedicado a eles. Fotografar, na mais simples definição do verbo (já que estou longe de dominar as técnicas que a palavra convoca), tem sido uma ótima ferramenta para desligar dos automatismos e redescobrir as pequenas alegrias. E o mais curioso é que faz aparecer a curiosidade de quem passa por perto, que fica a olhar e a se perguntar o que é tem demais na bicicleta enferrujada. O que é que as coisas tem demais é sempre uma boa pergunta a se fazer, não para dar de ombros, mas pra de fato encontrar esse tal algo demais. Todos nós precisamos um pé de morangos; sem eles, o penhasco e o leão acabam engolindo toda a vida.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Receita
Caminhar depressa para diluir a raiva. Banho quente para ter boas idéias. Reunião com os amigos para dar alegria. Um bom motivo para acordar cedo. Saudade não sei pra quê. Livro para andar de metrô. Cansaço para o prazer de deitar. Foto para recortar o dia. Unhas feitas para ficar bonita. Conversas para desacostumar da rotina.Crítica para assistir jornal. Espera para o encontro. Segunda-feira para começar dieta. Início de mês para entrar num curso. Pressa para chegar na hora. Cinco minutos para não pensar em nada. De vez em quando pra se dar um luxo. Trilha sonora para andar de ônibus. Praia para o fim de semana. Livraria para passar o tempo. Pileque pra afrouxar o riso. Tristeza para ficar só. Um doce para qualquer motivo. Família para dar um colo. Estudos para dar presença. Silêncio para dar espaços. Sonhos para amaciar a vida. Telefonema para aproximar as gentes. Escrita para amarrar os acontecidos. Viagem para voltar diferente. Frio para dormir de coberta. Calor para usar short. Oração para crer nos caminhos.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Aos meus queridos amigos
Ontem estava voltando da casa de uma amiga, quando pensei, por um segundo, como seria a vida sem amigos. Não seria; a vida não poderia ser. Sem eles, eu desconheceria mundos - e esses mundos são a matéria de que sou feita. Sou feita, em grande parte do que sou, de amigos. Pois cada um é responsável por me apresentar um universo de coisas, palavras, gestos, pensamentos que me fazem e refazem todos os dias. É isso o que mais tenho a agradecer aos meus amigos: a gentileza de me trazerem mundos novos. Talvez mais que isso - a gentileza de me deixarem participar das pequenas coisas que lhes fazem o amor pela vida. E esse é o tipo de presente que deixa a gente sem graça por saber que não poderá retribuir à altura. É o minuto onde o mundo pára para mostrar aquela moda de viola; é um jeito de ensinar a fazer perguntas interessantes ao mundo; é um pedaço de torta de chocolate, uma mensagem de texto escrita dentro do ônibus, um filme que precisa ser visto junto. É a paixão pelos trabalhos difíceis, de cuidar de quem passou por muito descuidado. É a mochila nas costas, as pessoas reunidas, a cerveja no samba e o amplificador no rock´n´roll. É um trecho de livro, o poema numa música, uma história a ser contada. A risada dos outros, a simples presença, um amor. O abraço, uma planta que tem nome, uma lembrança. Tenho uma infinita lista de momentos a agradecer. Aos amigos-de-todas-as-horas, aos amigos-de-perto-e-de-longe, aos velhos-amigos, aos amigos-que-chegam, aos amigos-que-se-transformam, aos irmãos-amigos, aos amigos-irmãos. E hoje, em especial, ao meu querido irmão Thiago, que não por acaso aniversaria no dia dos amigos. Fico feliz por você compartilhar comigo tantos dos seus mundos e das andanças por eles. "Às Lilys, Rosemarys and the Jacks of Hearts! Cheers! Feliz aniversário!!! Um beijo da irmã que te ama muito, Lucy"
domingo, 3 de julho de 2011
Dedicatória
Assisti, no fim do ano passado, um documentário que acompanhou a vida do escritor José Saramago e de sua mulher, Pilar del Rio, recolhendo cenas cotidianas ao longo de quatro anos. Numa delas, Saramago aparece lendo a dedicatória de várias de suas obras, todas oferecidas à Pilar, aquela que “ainda não tinha nascido e tardou a chegar”, que o “agarrou pela gola do casaco e não [o] deixou cair ao poço”, “os dias todos”, a “[sua] casa”, o [seu] pilar, “até o último instante”. Mario Quintana disse certa vez que o mais difícil da arte de escrever é quando se tem que redigir essas linhas. Talvez por isso alguns autores prefiram suprimi-las, quem sabe para isentar-se do dilema de escolher um homenageado ou porque este já se sabe e torna desnecessária uma declaração escrita. Mas o fato é que elas costumam ficar esquecidas de atenções, desaparecendo na rapidez com que pulamos as primeiras folhas para chegar ao início da história. O que os apressados acabam perdendo é a página onde o autor mais fala de si - é o que penso sobre a dedicatória. É provável que os nomes que lá apareçam sejam completamente estranhos para nós. Mas eu imagino que a timidez daquele trecho, recolhido no canto do largo espaço em branco, esconde tantas histórias que poderia render o próprio livro. Também gosto de ler a dedicatória que amigos, familiares, companheiros, amantes deixam nas contacapas. Não foram eles os autores da obra, mas os que pensaram em alguém e por isso oferecem-na como presente. Algumas são verdadeiras cartas, declarações apaixonadas, desejos de vida nova, de feliz aniversário, notas de esperança, palavras de despedida. O sebo é premiado dessas pequenas confidências, desses segredos sussurados que não se preocuparam se alguém podia ouvir. Eu já fui capaz de pegar um livro de volta da estante de uma amiga, do qual nunca passei da dedicatória, apenas porque esta havia sido escrita para mim. É ainda melhor guardar essas linhas quando sabemos das tantas histórias.
"Hoje ganhei o meu dia. Porque uma menina me perguntou: 'O senhor pode botar uma dedicação nesse livro?' Escrevi, então, sinceramente: ´Para a Heloisa Maria, com toda a minha dedicação'."
Mario Quintana
sábado, 18 de junho de 2011
Marcações
Já faz um tempo que deixou de ser um hábito para se tornar uma necessidade. Ler sem ter um lápis à mão é suportar do início ao fim do texto aquela incômoda sensação de que está faltando alguma coisa. E é claro: isso atrapalha a leitura, do início ao fim do texto. O curioso é que o lápis é uma espécie de enganação minha comigo mesma: sem ele e suas possibilidades demarcar frases ou trechos, a impressão que fica é a de que nada foi lido. Mentira – mas talvez nem tanto. Eu lembro de quando era criança e ficava doente, minha mãe me jurava que se eu segurasse uma chave bem forte, se a deixasse ali, escondidinha nos meus dedos, o mal estar passaria. Talvez o lápis funcione como as chaves, mas dessa vez para não deixar que algo passe, ou pelo menos que não passe desapercebido. E assim no canto das páginas vão ficando traços, chaves, setas que dizem que um dia eu estive ali. E li a história daquele jeito. E se um dia ler de outro, borracha e lápis para remarcar o que de diferente achar importante. Ou bonito, ou triste, ou simplesmente digno de ser marcado. Vai ver que cada um tem lá um jeito de marcar a sua história, de fazer de certos trechos mais memoráveis que outros. É gostoso quando a gente volta ao início e descobre algum que ficou esquecido e tão bom é de se lembrar. Mas também acontece de retornar a um já destacado e não encontrar ali sentido algum. Acho que é por isso eu escolho o lápis, porque eu sei que as memórias se modificam. Essas aqui, vez ou outra ganham novas edições, quase sempre quando as leio de novo.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Gula
De tempos em tempos, a gula passa à frente na fila dos pecados. Não é que os outros tenham se redimido – estão todos ali, cultivando soberbamente suas mesas fartas, maldizendo os chocólatras que não aumentam de peso, exibindo as belas tortas no balcão, na preguiça de depois do almoço, no pedaço que não se divide com ninguém, nas outras vontades do corpo. De um jeito ou de outro, estão todos ali, mas consumidos pela gula. E nesses tempos não há muito o que fazer além de se render aos desejos do paladar, recorrendo ao rodízio de pizzas mais próximo ou aproveitando a promoção do sorvete caro de Dulce de Leche que só se come em ocasiões extra especiais. Nesses tempos, em que tudo o que se pronuncia parece gostoso, aproveitem para experimentar. Comer, e comer bem, é sem dúvida um dos maiores prazeres que podemos desfrutar. Mas infelizmente chega um dia, um triste, pálido e abatido dia, em que a balança e o colesterol sinalizam que já é hora de trocar de pecado. E de fato é preciso: ninguém sai imune dos exageros. Mas os dias passam, os tempos em tempos voltam, e sem perceber lá está ela de novo, à espreita, querendo furar a fila. Como não nos agrada causar constrangimentos, às vezes o melhor é ceder o lugar. Afinal, a gula também costuma ser muito solidária. Toda comida fica mais gostosa quando pode ser compartilhada ou apreciada em boas companhias, e a cozinha é curiosamente o lugar onde as pessoas mais se reúnem para trocar e conversar. Há mais coisas entre as comidas e as bocas do que supõe nossa vã filosofia.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Conformadas
texto construído com a preciosa contribuição da Laurinha
- Sei lá... A vida é assim mesmo...
- Fazer o quê?
- Mas vamos levando...
- Tem que ser, né?
- Pois é...
- Quando a gente acha que era isso, não era.
- Tudo tem seu tempo.
- É nisso que eu acredito.
- É que tem hora que... Só Jesus!
- Mas as coisas vêm, as coisas vão...
- Não tem jeito mesmo...
- Mas ó, fica tranqüila, tudo passa.
- Ah sim... é isso aí...
- É isso então, né?
- É isso sim.
- Sei lá... A vida é assim mesmo...
- Fazer o quê?
- Mas vamos levando...
- Tem que ser, né?
- Pois é...
- Quando a gente acha que era isso, não era.
- Tudo tem seu tempo.
- É nisso que eu acredito.
- É que tem hora que... Só Jesus!
- Mas as coisas vêm, as coisas vão...
- Não tem jeito mesmo...
- Mas ó, fica tranqüila, tudo passa.
- Ah sim... é isso aí...
- É isso então, né?
- É isso sim.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Cinéfilos
Uma das coisas boas que aprendi com meu pai (e sobre isso poderia fazer uma vasta lista, mas atenhamo-nos aqui ao assunto do texto) foi gostar de cinema. E quando digo isto não me refiro apenas à apreciação de um enredo bem construído e encenado – e de preferência sem tiroteios -, mas ao fato de cultivar o saudável hábito de visitar as telonas. Lamentavelmente nossa singela Friburgo ficou por anos privada das grandes projeções, tendo a única sala transformada em um bingo, e só muito mais tarde pudemos ter de volta um cinema na cidade. E desse dia em diante apenas crescia meu bloquinho com as entradas das sessões, que eram vistas com a seriedade que ocasião pedia quando em companhia do meu honorável mentor. Fora isso eu fazia parte de um grupo que pouco respeitava a sacralidade daquela sala – o dos adolescentes. Mas a isso voltaremos mais adiante. O ritual de chegada começava cedo, tão cedo que precisei autenticar com a moça da bilheteria a informação de que nada adiantava chegar mais cedo que 20 minutos, pois não seria permitida a entrada. Mas logo que fosse possível, já munidos de um pacote de jujuba, nos dirigíamos à última fileira, nem muito na ponta, nem muito no centro, achando o lugar ideal para observar a chegada dos nossos companheiros de filme. E quando a experiência se repete, acabamos por formular hipóteses. Meu pai, ao longo de tantos anos de cinema, acabou por formular uma consistente teoria, traçando diferentes perfis (com diferentes efeitos) de expectadores. Há aquele grupo (que mencionei anteriormente e do qual não me orgulho de ter feito parte) de jovens entre 13 e 17 anos, que acabaram de sair da escola e que deveriam estar na praça de alimentação do shopping, onde as pessoas vão para comer e conversar. Pois o que fazem durante toda a exibição é isso: abrir pacotes barulhentos de bala e tentar impressionar a(o) gatinha(o) da série acima fazendo piadas e dando gargalhadas escandalosas. Mais de três jovens, portanto, é sinal de perigo. Mais de seis, mude de sala. Há também os casais, e com esses não há muitas preocupações As conversas correm baixinho até o apagar das luzes e, depois disso, já não nos cabe cuidar da vida alheia. O tipo que mais nos agrada é o verdadeiro cinéfilo, que não se importa de ir ao cinema sozinho, ou, quando acompanhado, é por um outro da mesma espécie, com quem partilha aquele entendimento e prazer. É o que chega antes, mantém o silêncio preciso e assiste os créditos finais para dar o tempo de sair de fato do filme, carregando aquelas impressões para muito além dali. E por aí se vão inúmeros perfis, que sem dúvida seriam melhores explicados por aquele que assina a autoria das observações. Deixo então esse trabalho como uma tarefa para uma próxima crônica, que irá reavivar o blog que tem tantas histórias interessantes já registradas e ainda muitas a receber. Depois da campanha “Taí, entre na natação”, começamos hoje a “Gil, volte a escrever no blog”, porque certamente há muito o que contar.
Visite: prolegomenosdosalfarrabios.blogspot.com
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Percepções
À espera do cinema, procurei algum lugar pra sentar. Havia um banco no centro da sala de exposições e foi ali que decidi gastar os minutos que estavam sobrando. Olhei as projeções que ocupavam as paredes, mas antes de assim percebê-las, me pareceram imagens congeladas, como uma fotografia. Da moça de vestido longo, posando de costas com as mãos cruzadas, víamos uma sombra imóvel. E somente se gastássemos ali uns minutos, percebíamos um piscar de olhos e um dedo levemente escorregar sobre a palma da outra mão. Mais adiante, um homem de rosto muito branco, cujo paletó servia de amparo a inúmeras borboletas. Ele mantinha-se estático. E talvez por causa de sua respiração, ainda que discretíssima, ou pela simples necessidade de mudar de lugar, uma borboleta voava e depois tornava a pousar. Aqueles vídeos-fotografia, para quem se deixasse levar, induzia a uma certa hipnose. Como por uma convocação da obra, os micromovimentos, que numa passagem mais rápida não seriam perceptíveis, ficavam por demais evidentes, e foi então que comecei a reparar no imenso trabalho a que o corpo daqueles artistas se submetia. Sustentar a imobilidade é um ato desafiador. E talvez mais que isso: está fadado ao fracasso. O interessante da arte é justamente poder brincar com o que parece impossível – ali, a vida parar. Mas quando se começava a acreditar nisso, um movimento acontecia. O corpo reclamava dormências, expandia e comprimia os pulmões, lubrificava os olhos, desequilibrava as pernas. E no limite da estagnação, vinha o movimento; quando tudo parecia estar congelado, reproduzindo o mesmo, alguma coisa acontecia, mesmo que imperceptível aos mais apressados.
exposição: Robert Wilson
sábado, 7 de maio de 2011
Para minha mãe
"Quando você for mãe, você vai entender". E todas as vezes em que eu defendia meus primos, irmãos ou a mim mesma dos tentáculos das nossas tias e mães, lá vinha de novo a frase mais enunciada de todo o misterioso reino da maternidade. E minha resposta a essa profecia quase cármica era a de, quando eu fosse mãe, esperava ter também uma sobrinha ou filha que me lembrasse que já era hora de deixar os bacuris viajarem sozinhos, sem ficar controlando-os pelo celular, ou de bater na porta do quarto antes de entrar, ou de que com 20 anos de idade fica feio ser chamado a atenção por estar pisando descalço no chão frio. Ter alguém que diga às mães que elas não podem tudo é saudável e estritamente necessário, mas taí uma coisa que mãe nenhuma gosta. Mãe sempre acha que pode tudo. E o mais engraçado é que nesse devaneio que por gerações foi passado adiante, as mães tanto acreditaram que desenvolveram técnicas suprahumanas. O Instituto de Meterologia foi criado em 1946 por uma mãe que em certos dias não deixava seu filho sair de casa sem o guarda-chuva, mesmo com o sol escaldante, porque o tempo iria virar - e virava. Em 1975, cientistas e psicólogos fizeram estudos com 5.584 mães, de diferentes partes do mundo, sobre a leitura de fisionomias e a detecção de mentiras. Mães conseguiam descobrir pra onde seus filhos realmente tinham ido naquele dia em que disseram ter dormido no Marquinhos, e desvendaram quadrilhas de jovens de 16 anos que falsificavam identidades para entrar em shows de rock - apenas pelas expressões faciais exibidas em slides. A bina, dispositivo que identifica o número de quem está ligando, foi sugerido pelas mães, que sabiam que eram seus filhos ao telefone antes de atendê-lo. E o Mc Donald´s está processando o Horti Fruti por ter subornado milhares de mães para fazerem excessivas perguntas e orientações sobre uma boa alimentação, acusando-o de propaganda com mensagem subliminar. Minha mãe certamente daria grandes contribuições a esses estudos. E as qualificações não terminam por aqui. Na horta da minha casa há remédio para tudo quanto é ziquizira - e isso não é exagero de mãe. Pode falar de que mal você sofre que ela vai tirar de lá exatamente o que você precisa. Às vezes o que cura mesmo é chamego de mãe, um colo para os momentos de gripe ou de tristeza, para quando a vida fica difícil e a gente quer mesmo é voltar pra perto de quem deixava ela mais simples. Joelho aberto, primeiro dia na escola nova, feijão entupido no nariz, moeda dentro da barriga, queixo aberto, filho querendo fugir de casa, testa aberta, bola na janela do vizinho, e uma infinidade de problemas que mães sabem resolver - isso é mesmo trabalho pra gente grande. E então a gente cresce e começa a querer resolver as coisas sozinho. Taí outra coisa que mãe não gosta. Mas elas até disfarçam, dão uma força pra gente seguir adiante, pra ir pro Rio de Janeiro, pra São Paulo, pros Estados Unidos. E depois confessam que fizeram isso com o coração na mão, querendo, no fundo, que todos ficassem juntos e sob seus cuidados. É por isso tenho tanto orgulho da minha mãe - porque ela, com coração doendo e, no fundo, querendo ter todo mundo perto pra continuar mandando escovar o dente e calçar o chinelo, sempre nos deu força para seguir adiante, pra que inventássemos nossos próprios caminhos. É a você, mãe, que dedico esse texto e declaro todo o meu amor, por ter sido sempre essa mãe tão incrível, que a cada dia me supreende mais. Você é meu exemplo quando quero alcançar objetivos, quando preciso de força pra enfrentar as adversidades, quando procuro ser uma pessoa melhor. Agora só falta entrar na natação. E pode ficar tranquila: um dia vou entender sim.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
De todos os jeitos
Naquele exato momento, tinha certeza, dessas que a raiva não deixa hesitar. Dirigiu-se imediatamente ao computador, debruçou-lhe as mãos e redigiu a frase, sem qualquer esforço ou demora: "não me escreva mais". A frase já estava lá há tempos e agora finalmente poderia ser dita. Não queria mais aquilo - estava com olheiras de reticência. Encerrou a última palavra com um ponto final.
Já não sabia há quanto tempo arrastava-se em dúvidas. Dirigiu-se hesitante à escrivaninha e precipitou-se às palavras. Seus dedos estavam tomados de receio. Não conseguiam escolher uma só frase, e as letras sumiam e voltavam a surgir em tentativas e fracassos - eram reticências. E se não fosse isso? E se não conseguisse? E se ele obedecesse? Deixou a frase pela metade. Talvez não quisesse dizê-la.
"Me escreva sim. Todos os dias espero encontrar seu nome entre os emails e me alegra saber que lembra de mim. Guardo uma imensa saudade dos tempos em que tínhamos certeza. Foram bons aqueles tempos, não queria que tivessem um ponto final. Vamos criar retiências nas frases que foram ditas, não se demore mais..."
Não tinha palavra. Sentou-se diante do computador e insistiu a escrita, mas só encontrava silêncio. Há tempos vivia num intervalo - diante da incerteza, nada tinha a dizer. Ela era isso: uma espécie de vão entre um momento e o próximo, uma ausência de sentimentos, se isso pudesse existir. Esperava o dia em que finalmente conseguiria terminar a frase. Agora, vivia em demoradas reticências..........
Não lhe parecia tanto. Era apenas mais um nome compondo a fileira de emails. Lá estava ele, entre tantos. Olhou-o com uma certa compaixão e podia até jurar que sentia uma saudade. Mas não, não era isso. Ele não estava mais no agora.
"Hoje escrevo para dizer ainda sinto saudades, não tenha dúvidas. Não pudemos dar um outro final, mas guardo para nós as melhores frases que puderam ser ditas. Agora é hora de outras tentativas e talvez por isso precisaremos de um intervalo. Mas um dia voltaremos às conversas alegres e reticentes, sem insistir naquilo que insiste em fracassar".
sexta-feira, 15 de abril de 2011
De repente
Se me fosse pedido para localizar onde tudo isso começou, não saberia dizer. Mas o que lembro era de repente estarmos agendando um rodízio de sopas para o sábado à noite. E depois vieram umas desculpas nunca antes apresentadas para justificar a recusa do forrozinho de quarta: no dia seguinte, o relógio despertaria cedo. Trabalhos. Ao invés do samba, o estudo pro concurso; ao invés das multidões dos shows de graça, uma prainha de manhã - porque de tarde o sol fica forte demais e faz a pele envelhecer e dar manchas. E de repente trocávamos indicações de uma boa dermatologista. E de uma boa ginecologista, endocrinologista, gastroenterologista, homeopata, das clínicas que melhor atendiam, das soluções pras dores e ziquiziras que cismam em continuar aparecendo. E de repente surgiram cinco casamentos e dois ajuntamentos (que, no fim, seguem os mesmos propósitos) para serem comemorados num mesmo ano. E nas conversas, a vontade de um dia também juntar as escovas de dente com alguém que se combinasse os jeitos. E aí, de onde menos se esperava, foi ouvido: "eu quero ter um filho". E outras vozes fizeram eco. Os passeios no fim de semana nas Lojas Americanas foram o que faltava para constatar o que os aniversários sempre nos lembravam: estávamos ficando velhos. E é claro que eu também tenho lá minhas queixas quanto à passagem apressada do tempo - só não as tem que ainda não chegou aos 18. É bom lembrar de épocas em que as preocupações eram outras, bem menores que as que hoje nos tiram o sono. Mas há sempre um saudosismo por tempos mais tranquilos, que nunca são os de agora, quando se conversa com alguém que está se achando velho. Ou por tempos mais agitados, como os que meus pais relembram com uma certa tristeza pelo que já passou, de crianças dando os primeiros passos, ficando doentes todas de uma vez, indo para o colégio e, de repente, resolvendo sair de casa. Calma - digo a eles - daqui a pouco chegam os netos e tudo outra vez, com o plus de passar a criança pra mãe quando ela começar a chorar. Então acho que é isso: toda época tem lá suas dores e delícias. E as delícias de agora estão sendo arrumar a casa e curtir os móveis novos a sós ou em companhia de bons amigos. E pegar o encarte da Casa e Vídeo pra ver a promoção de edredons e dvd´s. É, estamos ficando velhos. E agora me deixe encerrar esse texto porque amanhã o relógio também desperta cedo.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Intimidade
Ainda não descobri que coisa tem minha casa. Talvez o calor do Rio de Janeiro, combinado a um apartamento pequeno com a vaga aspiração de um dia ter um ar condicionado; quem sabe o clima acolhedor dos móveis coloridos, ou até a oportunidade de, no fechar da porta, desatar algumas amarras da nossa encarcerante civilização. Somos inegavelmente todos descendentes de índios. Mas por esses motivos, ou outros que não alcancei, o que ocorre é que as pessoas adoram despir-se em meu lar. Falo aos leitores com grande respeito e longe estaria eu de querer ofender às carolas que venham a passar os olhos por aqui. Mas o fato é esse e sou obrigada à constatá-lo apesar dos pudores. Nesse democrático e desavergonhado conjugado há espaço para todos os jeitos: os mais tímidos, que apenas depois de muito conversar tiram os sapatinhos e os reservam num canto; os semi-libertários, que já penduram as camisas na cadeira ou lhe abrem os botões ; e os já de casa, para os quais preciso sempre alertar que há janelas na frente da minha e, lá, trabalhadores que não cansam de edificar-se. Estes, como manda o regulamento e as baias pequenas, ainda se concentram nos computadores e papéis a assinar. Mas há o vigia do prédio, que vigia o prédio e vez ou outra os prédios alheios. E quando digo alheios, digo o meu. E quando digo vez ou outra, digo algumas. Curiosidades compreensíveis - ainda mais com um público tão despreendido quanto o que me visita por aqui. Mas também reconheço os desconfortos das espiadinhas. Roupas de andar em casa geralmente são as mais velhas, cortadas e encurtadas, as menores ou em menor número - como for mais confortável. Ou mesmo no arrumar-se para sair, metade do guarda-roupas é experimentado, trocado, vestido novamente para que uma peça seja a sortuda do dia. Há momentos em que um público não é bem-vindo, a não ser que seja convidado. E num dia desses me veio a solução para pôr fim ao Big Brother sem consentimento. Acordei com o espírito da arrumação que vez ou outra me inspira (e quando digo vez ou outra, digo muitas) e mudei tudo de lugar. O arrastar de móveis me custou a estante de tantos anos, que agora se assemelha a uma perigosa torre de babel, mas com o guarda-roupas inventei uma parede no meio do cômodo que me devolveu a privacidade dos dias de esquecimento da toalha depois do chuveiro ligado. É claro que todo menino tem lá a sua história pra contar da vizinha que fazia as alegrias do verão quando trocava de roupa na janela. Mas às intimidades, dispenso expectadores. A não ser ao que se quer mostrar. Aqui, por exemplo, você pode olhar.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Preciosidades
Outro dia escrevi um texto onde destinava a amigos e familiares os poucos bens que acumulei até hoje. A página solta sobre a mesa causou certo espanto em quem passou por ali com olhos curiosos – “o que tem essa menina para já estar deixando testamento em papéis limpos?”. Tranquilizei os aflitos – eu nada tinha. Apenas um violino desafinado, um arco de cupido do carnaval, alguns livros e cds antigos, mas de qualidade, uma seleta videoteca (que em breve chegará ao trigésimo volume!), anotações de viagem, um baú de vime cheio de recordações, este computador no qual vos escrevo e outros itens de minha primeira necessidade. Distribuí essas singelas aquisições de acordo com as afinidades e merecimentos e creio ter sido justa. E nesse mapeamento do que aqui eu deixaria me lembrei de algo de inestimável valor, e que nesses últimos tempos esteve recolhido à quietude da prateleira. Cuidei de me redimir limpando a poeira que se acumulou com o tempo e passando à limpo uns escritos soltos que se escondiam na contra-capa. Era um caderno de linhas compridas e folhas espessas, as únicas que souberam apreender o traço das canetas tinteiras de que tanto gosto. Por essas qualidades foi escolhido para guardar alguns de meus mais preciosos tesouros, que valem ser admirados quantas vezes for preciso e necessário. São trechos de diversos livros e autores, que recheiam as páginas com aquelas coisas que seria difícil a gente dizer sozinho. E toda vez que eu percebo que minhas palavras estão falhando, que as frases começam a emperrar, recorro a essas fontes que movimentam idéias e pensamentos ou simplesmente que entregam ao desassossego aquilo de que precisava para sossegar. Às vezes precisamos das palavras de outros para encontrar as nossas. Esse caderno é cheio desses bons encontros.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Caminhando
Um copo quebra na mesa do bar. O garçom serve o último chopp. Duas amigas se despedem equilibrando o guarda-chuva entre os abraços. Um homem fala alto no celular e o filho afasta-se com vergonha. A menina que espera alguém confere o relógio. Alguém está atrasado. Duas bicicletas encostadas no poste ficam molhadas na garoa. A moça se esconde na marquise. Um rapaz dorme no chão com os braços cruzados. Um anúncio na janela tenta vender um apartamento. O bêbado solta uma gargalhada. Um casal de namorados briga, uma criança pisa na poça, um senhor caminha devagar. A dona da barraca recolhe as frutas, o jornaleiro recolhe as revistas. O vento sopra mais forte. Uma mulher se apressa para fugir dos pingos. Três amigos fazem sinal para o ônibus. O vigia cochila de pé. Moradores de rua conversam. O porteiro assiste televisão. A caixa de correios tem contas. O elevador já está no térreo. E por fim eu chego em casa.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Never know
Eram 6:15 da manhã quando meu pai começava a nos acordar para irmos à escola. O cheiro do café, o barulho da cozinha e o show do Antônio Carlos completavam o ritual de todos os dias. E como em todos os dias, era às dez pras sete que eu levantava, já na última e irrevogável convocação para deixar os braços de Morfeu. Mas antes disso eu ficava ali, espreguiçando, descansando mais um pouco nas cochiladinhas de cinco minutos, pensando de olhos fechados na vida e no dia a começar. E quem me dizia as horas era a voz que saía do radinho velho sintonizado na AM. Quando começava a música do Martinho, “e a criança já foi sonolenta pra escola...” (e o Antônio Carlos dizia – “e vamu que vamu”) eram 6:30, e quando Zora Yonara entrava com a previsão de um signo que nunca era o meu, o café já precisava estar tomado e o uniforme vestido. E todo dia meu pai ouvia aquele programa, e todo dia, naquelas horas exatas, o Antônio Carlos dizia a mesma coisa, com uma ou outra pequena arrumação diferente. Eu sempre me perguntava por que ser espectador de algo do qual já se conhece cada frase que será dita. Mas hoje penso que as rotinas emprestam uma constância na vida e aí podemos fingir que sabemos o que irá acontecer. A verdade é que nunca sabemos. Às vezes somos presenteados com boas surpresas, noutras perdemos nossas certezas como num jogo de azar. Mas a graça das não-garantias da vida talvez seja exatamente essa: tudo pode acontecer. Se Guimarães Rosa, cujas palavras merecem um grande respeito, disse tantas vezes que ‘viver é perigoso’, acho que é porque ele já tinha constatado essa soltura das coisas por vir. Só que aí vamos criando uns portos que seguram nossas derivas. Os meus estão lá, sempre jogando o bote salva-vidas quando o mar fica agitado ou compartilhando os dias de sombra e água fresca. “Never know what´s coming for you” – foi o que sabiamente a mãe do Benjamin Button disse pra ele na minha tarde passada. E entre saberes e surpresas, vamos nos agarrando às boas rotinas e esperando o que de melhor virá. O bloco do Antônio Carlos, por exemplo, foi mais uma vez um dos melhores do carnaval, com a tradicional fidelidade às marchinhas e as fiés tradicionais senhorinhas que sempre acompanham o bloco. Mas por isso eu já esperava – era garantido.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Balde
A tristeza podia ser assim: um balde d´água. E se alguns dias e algumas noites fossem gastas esvaziando o balde, ainda que com um conta-gotas, então a tristeza também se teria esvaído. E então o balde ficaria sem função, esquecido embaixo do tanque. Acumularia poeira, abrigaria teias de aranha, estaria quase invisível ao resto de tudo. Até que um dia alguém o resgatasse pra fazer a faxina na casa. Aí não seria mais tristeza.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Por uma vida menos ordinária
Eu sempre fui a primeira da fila. O mais desagradável em ser baixinha é a própria necessidade de ser sempre a primeira da fila, já que quando se paga pelo show, é interessante, pelo menos, enxergar os artistas. E quando há uma incompatibilidade entre a sua altura e os recursos que só o sexo feminino tem para driblar os tropeços da natureza, o negócio complica mais. Andar de salto nunca foi minha especialidade, embora deva confessar que ele já me foi bastante útil. No fim das contas, confessemos todos: é mesmo muito bonito. Pés de salto são indiscutivelmente pés mais sexys. Mas pés de tênis são incomparavelmente mais gratos. Poucas coisas na vida são tão boas quanto revestir os pezinhos com uma meia Lupo e calçá-los num tênis macio. Isso não tem preço. Andar de salto, por sua vez, é uma atividade de alto custo, que ameaça duas categorias em especial: os desprovidos de veículo e os andarilhos convictos. Como me enquadro em ambas, o salto fica quase fora de cogitação. Scarpin, como eu digo, é pra quem anda de táxi. O que resta é apostar nos outros instrumentos de sedução, como aquela jogada de cabelo que se passaria em câmera lenta se estivéssemos num filme. Mas aí nos vemos diante de um grande obstáculo: quem aguenta o cabelo solto nesse calor dos trópicos, pra não dizer ‘dos infernos’? Se eu já não tivesse ouvido elogios que mereceram atenção, minha humilde mas quente cabeleira já estava no chão do Sebastian Coffeir. Então invistamos na crença de que pescoço deixado à mostra pelo coque está páreo a páreo com jogada de cabelo. Ou, se não, também pouco importa: lutemos por uma vida menos ordinária, menos sexy, mas mais confortável. Rapunzel, que já andava descalça, foi ainda mais feliz no fim do filme.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O samba
Foi por um acaso que ficamos sabendo do show que teria no CCBB. "Lapa de todos os santos" era o nome do evento que estava estreando ali, com o digno propósito de relembrar os sambas dos artistas que estiveram no berço cultural e na revitalização do bairro. Dessa vez, era o Anjos da Lua, com participação de Pedro Miranda, que subiria ao palco. Coisa boa demais. E lá, sentada na primeira fileira do teatro II, foi que pude mais uma vez tirar o chapéu pra grande arte do samba: dar notas alegres às tristezas de amor. Mas esse jeito de cantar a dor - deixemos isso bastante claro - não lhe extirpa o que há de mais sofrido. Ao contrário, canta-se de sobrancelhas baixas, de testa enrugada, e se a mão não segurasse o cavaquinho, certamente estaria no peito. Mas a melodia dá um nó na letra, um confuso no corpo, uma vontade de sambar. Dança-se a tristeza, buscando a alegria no vai-e-vem do chinelo. E quem não presta a devida atenção ao que está sendo cantado, quase deixa escapar aquela decepção de meio-fio de calçada, copo de cerveja na mão e olho cansado de tanto chorar. "Meu moreno fez bobagem, maltratou meu pobre coração, aproveitou da minha ausência e botou mulher sambando no meu barracão". E isso, minha gente, é o que de mais bonito a arte sabe fazer: espremer a beleza de tudo que há, até do que, em princípio, não poderia tê-la.
domingo, 30 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Sem lembrança
Recentemente descobri no email um recurso muito interessante. Já é sabido que quando se quer desfazer do que está sobrecarregando a caixa de entrada, do que não é mais útil ou simplesmente do que se quer desfazer, usa-se a boa e velha lixeira. Mas há ainda aquilo que você espera não mais revisitar por longos ou infinitos tempos, e para isso existe o “excluir definitivamente”. Excluir definitivamente algo é um passo que deve ser cuidadosamente avaliado (ou impulsivamente executado), já que, uma vez dado, não se pode voltar atrás. E então me veio o feliz devaneio de que essa ferramenta poderia existir lá num cantinho esquecido da mente, para ser usada apenas quando necessário - é claro. Pra lá poderíamos mandar aquela mágoa que ainda causa tanto estrago, as tristezas desvairadas, os arrependimentos que insistem, as dores de amor. Bastando apertar o “excluir definitivamente” e, voilá!, nada daquilo existiria mais e a vida ficaria mais leve. Há quem diga que isso seja possível; tenho cá minhas dúvidas e alguns estudos. Muito se adoece de esquecimentos. E como brilhante-eternamente se contou naquele filme, por mais que se apague a lembrança, o afeto continua a existir. Mas como foi o homem que inventou o email e não o email que inventou o homem, até agora, também ele é capaz de criar recursos ainda mais interessantes pra lidar com o que já está na hora de descartar. Eu to aqui reunindo esforços nesse sentido, deletando, reciclando, procurando dar novos usos, mas ainda circulando nas tentativas falhas. E é aí que funcionaria tão bem um “excluir definitivamente”. Bom, se não temos essa tecla, escrevamos.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Mensagem
Natal é época de trocarmos votos de felicidade, saúde e tempos melhores. Talvez por isso essa data traga um pouco mais de serenidade e união entre pessoas. Para mim, em especial, é hora de estar em família com conversas na sala - algo que, por si só, deixa meu coração mais alegre. Vivemos um momento em que os integrantes da família Oliveira & Franco estão espalhados em cidades diferentes, e reuniões como esta ficam cada vez mais difíceis. E foi com o coração alegre que recebi a seguinte mensagem, que meu pai me recomendou a leitura, me contando a forma como tinha lhe chegado. Há muitos anos, meu tio recebia nas datas importantes uma carta de um amigo, que ia de casa em casa (e eram muitas) entregá-la pessoalmente. Na carta havia sempre uma mensagem de ânimo para os tempos difíceis ou reflexões para nosso melhoramento pessoal, com direito a letra desenhada e papel decorado. E assim, na páscoa, no dia dos pais, da mulher, e outras datas como o Natal, lá chegava a cartinha, que era entregue em mãos, sempre com alguma mensagem a transmitir. Meu pai achou essa atitude digna de um elogio, e, uma vez feito, acabou ele entrando para a lista de destinatários. Peço licença para divulgar a bonita mensagem aqui, e coloco também a questão de pensarmos sobre as infinitas formas de fazer valer os votos que fazemos.
"O dia mais belo? Todos.
A coisa mais fácil? Errar.
O maior obstáculo? O medo.
O maior erro? O abandono.
A raíz de todos os males? O egoísmo.
A distração mais bela? A amizade.
A pior derrota? O desânimo.
Os melhores professores? As crianças.
A primeira necessidade? Amar e ser amado.
O que mais faz feliz? Estar com os amigos.
O maior mistério? A morte.
O pior defeito? O mau humor.
O pior sentimento? O rancor.
O presente mais belo? O perdão.
A sensação mais agradável? A paz interior.
A proteção efetiva? O sorriso.
O melhor remédio? O otimismo.
A maior satisfação? O dever cumprido.
A força mais potente do mundo? A fé.
A mais bela de todas as coisas? O amor.
Que seus dias sejam hoje e sempre repletos de luz! Que Deus continue iluminando seu caminho para que continue dando aquilo de mais importante: o amor, a presença e a amizade".
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Os homens das nossas vidas
Morar sozinha foi uma conquista. Ou melhor – uma exigência, que foi se tornando cada vez mais inadiável ao longo os anos de apartamento compartilhado. Aprender a dividir o espaço é tarefa que recomendo a todos, pois se tira disso lições valiosíssimas. Mas chega uma hora que é preciso estudar em silêncio, sem outras vozes, sem a televisão ligada, sem os amigos dos amigos que estavam de visita. Um canto só seu, num certo momento da vida, é uma dádiva pela qual devemos agradecer. Mas é também preciso lidar com uma certa solidão, com o silêncio dos outros momentos em que uma conversa seria mais bem vinda que um livro. Ou com aqueles fatídicos dias de gripe-derruba-leão que não nos deixa chegar nem ao telefone pra pedir um remédio. Ou, ainda mais grave, os dias em que o apartamento ganha vida, se revolta e não há ninguém além de nós mesmos para resolver os “pepinos”. Esses dias são os piores. Mas felizmente eu tirei a sorte grande. Encontrei meu cantinho num prédio de porteiros com poderes mágicos, capazes de consertar o cano estourado da cozinha que inundou o andar inteiro ou de trocar os fios do chuveiro que pegaram fogo. Esses são os verdadeiros super-heróis do nosso dia-a-dia. E o mais curioso ainda está por vir: conhecer o pai da namorada pode até dar um frio na barriga, mas encarar a cara fechada dos porteiros é desafio maior. Esse fenômeno dos porteiros sem sorrisos só vi em duas ocasiões: o dia em que alguém deixou de cumprir o horário e o plantão dobrou e o dia em que passei na portaria de mãos dadas a outras mãos. O mínimo que poderia fazer era ter levado o moço pro Seu Antônio conhecer - foi mesmo uma falta de respeito. Na semana passada, fui visitar uma amiga, e o Seu Roberto, porteiro do prédio, falou: “leva mesmo ela pra sair, ela anda ficando muito dentro de casa”. Todo mundo tem uma história pra contar desses que acabam cuidando muito da gente, sem esquecer das clássicas, daqueles mal humorados que não gostam de abrir o portão, dos que dormem à noite e não acordam por nada nesse mundo, dos que sabem uns segredos que só as paredes ouviram. A esses que cuidam da gente das formas mais engraçadas, dedico esse texto e o meu muito obrigada.
Imagem: Google imagens
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Nojeiras
Esse texto é para os bravos. Para os de estômago forte. Para os sem frescura, sem polidez, sem cara feia quando o assunto são as nojeiras que em algum momento da vida a gente se depara. Ou todo dia, já começando a falar francamente. Quem é que nunca tirou escondido (ou assim pensava estar) aquela maldita meleca que mais parecia uma bola de futebol americano no nariz, obstruindo a tão preciosa passagem de ar? Tirar meleca, meus caros, é também um ato a favor da vida. Mas é preciso seguir rigorosamente o Manual de Ética dos Tiradores Oficiais de Meleca, coisa que ainda é um grande desafio para seus membros. Uma vez retirada a estalactite, termo técnico criado por uma grande especialista no assunto - figura a quem devo grandes conquistas quanto à desinibição em ‘tocar’ nessas questões - é preciso encaminhá-la imediatamente à pia mais próxima. Sem discussões: nada de ficar colando meleca por aí. Há outras normas de conduta que raras vezes são seguidas, com algumas exceções dos casais com pouca intimidade, como não soltar pum embaixo do cobertor que está sendo compartilhado. Para solteiros e, principalmente, para quem tem a sorte de um quarto só seu, não há restrições a respeito. As recomendações, inclusive, incentivam o esvaziamento barrigo-intestinal, porque grandes desconfortos podem ser causados pela interrupção do fluxo natural das coisas. E se formos mais a fundo, no fundo do vaso, a observação dos restos mortais que depositamos lá pode dizer muito sobre a alimentação daquele que caga. Se boiar, diminua a ingestão de gorduras. Cocô, como se vê, também é conhecimento (embora o inverso não proceda, cuidado com o que irá repetir por aí). E não eliminá-lo diariamente é sinônimo de mau-humor. Se seu chefe estiver distribuindo grosserias, se o vizinho não retornou seu simpático “bom dia”, se as gentilezas no mundo estão acabando, é porque não se está fazendo cocô como antigamente. Recorrendo àquele famoso ditado para ilustrar nossa argumentação, que resgata o sentimento de uma pessoa que está de bem com a vida: “tá cagando e andando”. Quem já viajou com os amigos por mais de três dias sabe que, quando o banheiro não é mais o de casa, o assunto em pauta é o cocô. O bem-estar está muito mais relacionado às nojeirinhas, tão discrimidas nos discursos da boa conduta, que qualquer manual educativo possa imaginar. Quem nunca chegou de uma bebedeira daquelas, rezando pro enjôo passar e prometendo a Deus que jamais colocaria uma só gota de vodca barata de choppada na boca, e depois de um intenso e considerável vômito, daqueles que levam embora um pedaço da alma cristã, transformou-se do vinho pra água? E falando em comida, mas no caminho inverso, ouvi outro dia uma teoria que merece atenção. Por que temos tanto nojo quando encontramos um cabelo na comida? “Porque mostra a falta de higiene do lugar!” – respondi, como a voz de toda uma nação. “Mas se o cabelo estiver limpinho?”, “então vai ser horrível comer um cabelo” – seguido de um “ieca!”. “E se o cabelo for retirado logo que descoberto e o rizoto estiver fantasticamente gostoso?”. Bom, é algo pra se pensar. Portanto, meu caros, pensem duas vezes antes de dizer “que nojo!” e agradeçam a muitas nojeiras que fazem milagres por aí.
Foto: Google imagens
domingo, 25 de julho de 2010
Palavras
As palavras sempre foram a minha precisão. Uma urgência, um imperativo, uma necessidade. Uma ordem que ordenava meu caos e me ordenava à escrita. Escreva – isso é uma ordem. Aí comecei a encher cantos de páginas com parágrafos soltos. Todo caderno escondia em seu miolo algum pedaço de mim, o que me obrigava a conferir folha por folha quando já estava na hora de passá-lo adiante. Não podia ser descoberta, não nas confissões que fazia aos cadernos. E então vieram os festivais de poesia no colégio. Apresentar minhas palavras aos outros foi o verdadeiro mérito que as medalhas de latão honravam. Pela primeira vez, escrevia para ser lida. E as palavras deixavam de ser apenas minhas. Ganhavam outros contornos nas vozes dos colegas que as interpretavam, nos ouvidos dos pais que faziam a platéia do evento. Minhas palavras excediam minha escrita. E a promissora carreira de poetiza do ensino fundamental me incumbiu de uma importante tarefa, se não ouso dizer a mais importante, no circuito familiar: a Escritora Oficial de Cartas em Datas Comemorativas e Eventos Similares. Segundo domingo de maio, segundo domingo de agosto, aniversários, natais, vestibulares, entrevistas de emprego, cartas de boa viagem (o que se escreve muito na família) e uma criatividade que Deus só emprestou igual a Stanislaw Ponte Preta, para não que não terminasse por resumir tantas linhas às mesmas palavras. Não, não – momentos que são únicos merecem palavras inéditas. Que de inéditas não havia nada, ou será que cada escrita e cada leitura não as fazem inéditas de certa forma? Mais tarde, fui descobrir que são de palavras que somos feitos – de dizeres sobre nós. Que é difícil se desatar de certas palavras, que é preciso dizer, dizer mais, dizer de novo, para conseguir inventar uma versão melhor de nós mesmos. Nossas análises. E em todos os caminhos que eu seguia, lá estavam elas, as palavras. E o meu imperativo de escrever. E sedução da escuta. E a fascinação pelos discursos, pelas explicações inventadas do mundo, pelas histórias. Os livros e seus autores – tem gente que nasceu com a missão de dar bons nomes pras coisas e depois pôde morrer em paz. Mas também já encontrei outras gentes que dizem muito sem precisar falar. Esses são para mim um mistério. E nesses encontros, enquanto vou me deixando guiar por silêncios, sorrisos, gestos, expressões, proximidades, distâncias, vou também escrevendo sobre isso. Preciso escrever. Gosto palavrear. Mas estou aprendendo a gostar de apenas sentir, de experimentar uma outra leitura.Vai ver que aí estão as verdadeiras palavras inéditas.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Guloseimas
A primeira nota que chegou em minhas mãos, instaurando a era das mesadas, foi uma de cinco reais. Antes, o dinheiro costumava já ter destinatário certo: o dono da mercearia, que ajudava a escolher as batatas melhores, a moça da cantina do colégio, que nos dava a alegria dos quibes de forno nos dias sem merenda de casa, ou o próprio e legendário Seu Virgílio, figura inolvidável da minha infância, que ficava com as moedinhas barganhadas entre familiares em troca de balinhas de 1 centavo. Pra quem não viveu essa época de ouro, posso dar meu testemunho: já comprei balas a 1 centavo cada uma. Mas as mais gostosas e variadas costumavam ficar expostas nas docerias, estrategicamente situadas próximo à saída dos colégios. Cem gramas de qualquer uma delas, 7 belo, Soft, Big Bol, Dadinho, Maça verde, e por aí se estende uma lista infinita, custava apenas cinqüenta centavos. Isso dava a possibilidade de muitos saquinhos de bala para quem fosse dono de uma nota de cinco reais. E eu, inaugurando meu poder de compra junto com a nova moeda brasileira, era. Se tem uma coisa que posso dizer que fiz com maestria nessa vida, essa coisa foi comer bala. Não é algo sobre o que se conte méritos e creio que São Pedro tampouco resgate isso no currículo quando for hora de passar pro lado de lá. Mas dividi a satisfação de apreciar um bom caramelo que gruda no dente com crianças não tiveram a mesma sorte de uma mesada de cinco reais – e isso falo com orgulho. Uma das lembranças que guardo com maior carinho é de quando meu pai nos levava pra brincar no parquinho da praça, terminando o passeio no Harold Bomboniére, com suas vitrines expondo o colorido de mil e uma balas diferentes, das quais podíamos escolher a que quiséssemos. Hoje estou pagando um preço alto pelos investimentos desenfreados nos prazeres mundanos, mas nessa vida cheia tanta coisa amarga, um docinho é item de primeira necessidade. Toda criança deve ter direito ao cuidado, à educação, à saúde, à brincadeira e a escolher a bala que quiser. Todo adulto também. E ao fio dental, pasta sensitive e flúor depois, por favor.
imagens: Google imagens
sábado, 19 de junho de 2010
Dias contados
Se desde sempre as estações confundiram seus humores por essas bandas de cá, agora não haveria de ser diferente. Faltando ainda algumas semanas para o inverno, o frio já fazia escapar do armário os casacos com cheiro de mofo. A cidade maravilhosa em seu pleno esplendor – dias de azul forte e amarelo brando. De todos, para mim, não há clima mais agradável: vento leve, sol pra esquentar, noite de edredon fino. Mas hoje já não havia meias-calça sob os vestidos, o arrepio no braço era do ar-condicionado do cinema e uma acolhedora nuvem quente me acompanhou na volta pra casa. Acho que os dias de Nova Friburgo estão contados para o Rio. Vamos aproveitando enquanto isso...
Foto: lu franco
terça-feira, 25 de maio de 2010
Primeira pessoa
Uma amiga blogueira me fez um convite para escrever sobre seis coisas que as pessoas não sabem sobre mim. O passo seguinte seria escolher outros amigos e passar a proposta adiante. Fiquei pensando que esses pequenos trechos que deixamos nessa página virtual acabam tendo mil e uma coisinhas que dizem sobre a gente. E, no fundo, é sempre isso mesmo que acontece: uma fala em primeira pessoa (mesmo essa fala sendo feita de muitas vozes), contando sobre nossas afetações, sobre histórias que ouvimos, que participamos, que imaginamos... Escolher apenas seis coisas é que talvez seja a tarefa mais difícil. Mas é no clima revival (acabei de ver “Apenas o fim”, praticamente um compêndio da nossa ‘infânciadolescência’, com um roteiro muito divertido e original) que escrevo esse texto. Quem nunca respondeu ao famoso “caderno de perguntas” que rolava na sala enquanto o professor explicava equação de primeiro e segundo grau?
1- eu consigo ficar na parada em dois apoios (popularmente conhecida como “plantar bananeira”) por mais de 10s;
2- já encontrei tanta gente querida nessa vida que me sinto com uma sorte que ninguém mais tem;
3- adoro comprar caderno. Não me pergunte por quê;
4- toda vez que alguém me fala que fulano ganha um salário absurdamente grande, eu digo que, se fosse comigo, trabalharia três meses, pegaria o dinheiro e ia viajar pelo mundo;
5- pra mim, rir e fazer rir foram as melhores invenções do homem;
Bele, obrigada pelo convite! Passo a bola pra Lena, Laurinha, Lívia e Vitor!
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