sexta-feira, 31 de julho de 2009

Emails


Nem sei quando os emails se tornaram um mal necessário, mas desses novos recursos, é o que mais me agrada. Lembro das cartas escritas à máquina que eu e minha prima trocávamos, da folha datilografada de preto e vermelho, do tempo que levava pra chegar e que chegava quando menos esperávamos. Não tem coisa melhor que carta de correio. Mas confesso que me rendi aos encantos da modernidade e sua pressa de coelho da Alice. Mandar um recado escrito para terras distantes e ter resposta no mesmo dia foi um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade. Depois que o email foi libertado das assinaturas e democratizado, se tornou uma ferramenta indispensável. Eu não fui fiel a meu primeiro endereço, mas estou com o mesmo (e só com ele) já faz alguns anos, o que significa que ele guarda muitas relíquias.com. Tive uma boa surpresa esses dias quando abri minha conta e descobri que agora posso organizar tudo em pastas. Já era hora do programador me ajudar a dar uma arrumadinha em tantos recados, textos, notícias, piadas, afetos e um mundo de coisas que passou por ali. Essa sim foi uma grande viagem pelo passado, e toda ela documentada. Encontrei histórias riquíssimas, algumas que minha memória já tinha enxugado. O mais interessante é que cada uma era contada em primeira pessoa, estava escrita pelos próprios personagens que as viveram, falavam daquele momento. As viagens, as mudanças, os eventos, os encontros, o que já passou, o que era tão vivo, as discussões, as descobertas. Foi como abrir um baú com mil pedaços de lembrança. É claro que depois muitas horas revisitando o passado ele foi ficando chato, cansativo, fui atravessando frases sem dar muita conta do que estava escrito. Era hora de voltar à caixa de entrada e ver as mensagens novas que tinham chegado.

foto: Google imagens

terça-feira, 28 de julho de 2009

Culinária moderna


Ao contrário do que as tradições sociais cultuam, não fui eu a iluminada pelos dotes culinários na família. Meu irmão do meio já foi responsável por uma de nossas ceias de natal, meu primo sabe preparar uma sobremesa cujo nome nem sei escrever, meu pai assumiu os almoços lá de casa desde que se aposentou, e eu... bom, eu aprendi a fazer bolo de caixinha. Sob supervisão. Tenho uma certa incompatibilidade com a cozinha, agravada por um jeito meio sem jeito e muito distraído, que tudo derruba ou faz passar do ponto. Mas ainda não entreguei os talheres, estamos trabalhando a questão. Se não me afino com os modos de preparo comuns, pelo menos desenvolvi uma habilidade ao longo desses anos muito útil em matéria de alimentação. Quem já aprendeu que a dispensa não enche sozinha, sabe do que estou falando. E nesses tempos de bolso furado, os mantimentos precisam ser seletamente escolhidos e torce-se para que sejam também duradouros. Mas quantas vezes você chegou em casa com aquela lacuna no estômago e descobriu que o armário sofria no mesmo mal, nas prateleiras. A geladeira com mais ímãs que comida e o supermercado distante demais. Mas no fim sempre sobra uma coisa ou outra que aparentemente não combinam, mas eu nunca fui de respeitar a moda mesmo. Ovo mexido com mel foi a melhor invenção desses tempos. A azeitona também é sempre uma boa aliada. Além de dar gosto em tudo e servir como ingrediente a diversas invenções, pode ser consumida como petisco, como, aliás, acontece nos melhores bares da cidade. Sinta-se privilegiado. Outros chefes que vivem sob a mesma filosofia já me proporcionaram ensinamentos valiosíssimos, como aproveitar os envelopinhos de ketchup acumulados para fazer estrogonoff. E assim a técnica vai se aprimorando, mas o segredo está na improvisação. E pra isso, não tem receita.

foto: lu franco

domingo, 26 de julho de 2009

Caipirando


Todo ano, a turma que começou na faculdade e cresceu se reúne para fazer festa. Algumas são abrilinas, outras setembrinas, e por aí se vão tantas, mas a mais tradicional, como manda o figurino, é a festa junina no sítio do Cris. Que às vezes cai em julho ou agosto, mas apesar dos meses, o que importa é o encontro. E como não podia deixar ser, esse ano voltamos aos confins de Silva´s Garden para mais uma festa à moda caipira. Pouca coisa saiu como o planejado, mas como sempre, no fim, tudo deu certo. A previsão do tempo foi tão confiável quanto aquelas promessas de panfleto que garantem o amor de volta em cinco dias. Todo mundo cheio de casaco na mochila, para o frio intenso, e aqueles mais zoados porque levaram roupa de banho foram os que aproveitaram o pulo na piscina. Por duas semanas estivemos organizando uma lista com as melhores músicas, páreo para DJ Tati da Vila, e o som do mp3 ficou baixo demais. Aí surgiram os bons e velhos cds salvadores que me fizeram distender a perna de tanto dançar. Quase todo mundo precisaria ir de ônibus e encarar a ruim e velha baldeação, mas depois quase todo mundo conseguiu uma vaguinha de carona. Quem não foi preparado, inventou um traje a caráter. Quem tava duro, rachou as despesas. E mais uma vez fizemos um encontro de deixar histórias. Comida, bebida, estalinho, risadas, conversas, danças, recordações dos melhores momentos desses sete anos. Estar entre amigos é uma das melhores coisas da vida. Gosdimaisdessagente!

foto: cris rocha

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Logo ao lado

Quem pensa que a individualidade dos apartamentos prejudicou a proximidade entre os vizinhos, precisa passar uns dias no meu prédio. Pelo menos por aqui, a gente sempre acaba, de uma forma ou de outra, compartilhando muito da vida com os outros moradores. Assim que me mudei, conheci duas senhorinhas, das quais, aliás, eu não tinha como passar despercebida. Elas tinham o costume muito curioso de deixar a porta aberta. Toda vez que eu passava no corredor, as cumprimentava e, no terceiro dia, já estava sentada na antesala do conjugado, tomando café e ouvindo uma falar mal da outra. Ou falar das aventuras da mocidade, com um sorriso solto, ou dos versículos da Bíblia, com um olhar punitivo, ou do apoio mútuo, com um certo ar de resignação. Hoje elas não estão mais por aqui e agora as portas vivem fechadas. Logo ao lado morava uma outra senhora que tinha nome de flor. Eu adorava chamá-la pelo nome, mas ela quase nunca me ouvia. Na verdade, ela quase não ouvia nada, nem ninguém. Talvez por isso o sobrinho falasse tão alto. Aí era comigo, três apartamentos depois, que ele dividia a conversa. Escutar conversas, a propósito, é algo muito rotineiro. Não que eu seja chegada a essas coisas, longe de mim, mas diante das circunstâncias você se torna um mero refém. Quando você, que não é chegado a essas coisas, menos espera, está preso num enredo de alta complexidade e precisa continuar escutando para saber o desfecho do caso. E por aí a gente descobre que a cozinha não é apenas um lugar de lavar louça suja, mas de passar a vida a limpo. Esses dias, estava eu pesquisando para aonde foram as comidas que um dia estiveram na minha geladeira, quando ouvi os soluços e mais um capítulo da novela mexicana “Ele voltou pra namorada”. Henrique Augusto esteve se encontrando com Victoria Letícia, seu antigo amor. Mas não contou a Elisa Carolina, que mora no andar em cima do meu. Eleonora Gabriela, sua melhor amiga, descobriu toda a verdade e o desmascarou. Quase fui no 904 dar uns conselhos praquelas meninas, dizer que desilusão amorosa todo mundo tem e esta não seria a última, mas que um dia tudo passa. Há ainda um outro cômodo, cuja recepção sonora é mais limpa, que renderiam altas manchetes para a revista ti-ti-ti se eu morasse no leblon. Mas tudo tem limite. O banheiro é especialmente dedicado ao relaxamento e à intimidade, não dá pra ficar se atualizando sobre a vida alheia nesses momentos. Se bem que, vez ou outra, a gente também acaba participando da intimidade dos outros. Quando Serginho Groismam está terminando o programa, ainda tem muita gente de olho aberto. Meu vizinho da direita, por exemplo, dá umas festas de causar inveja. Só música boa. Esse cara definitivamente sabe se divertir, pena que eu gosto muito de dormir de madrugada. Assim a gente vai conhecendo um pouquinho de cada um. É claro que a gente faz piada com essas particularidades que entram pelo basculante, mas sempre que se precisa de ajuda, há alguém por perto para ajudar. E também assim ficamos disponíveis, e preocupados com a saúde da senhora, e trocando opiniões na conversa de elevador, e dividindo sacolas quando elas são muitas. Quando a gente sai debaixo da asa da família, vai construindo outra rede nos novos lugares por que passa. Mas a pergunta que agora não sai da minha cabeça é: se eu ouço tudo isso, o que será que eles não ouvem?

foto: lu franco

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Caralâmpia


Comprar livro é ótimo; ganhar é melhor ainda. E quando o livro, além de ser presente, é muito bom, agradeça em dobro. Eu sou duplamente grata por essa gentileza que uma grande amiga me fez. Terminei a última página em poucos dias,  não conseguia  ler outra coisa. Era uma reunião de entrevistas da coleção Encontros(Azougue Editorial) com a psiquiatra Nise da Silveira. Nascida em Maceió, se formou em medicina e veio para o Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar em hospitais psiquiátricos e liderou uma das revoluções mais bonitas de que já ouvi falar. A vida de Nise foi desenhada por seu jeito impetuoso e delicado, que a levou muito além do que talvez imaginasse. Numa época de torturas e intransigências, que tinham repercussões em todos os aspectos da sociedade, ela conseguiu abrir uma brecha e inventar um novo entendimento sobre a loucura. Quando o que havia de mais avançado era o tratamento através de eletrochoque, choque insulínico, lobotomia, ela disse ser possível uma outra forma de abordagem, veiculada pela arte. “É muito curioso esse fenômeno de procurar trazer o indivíduo à razão pela violência” – foi uma de suas frases que me ficou. Nise foi uma grande referência no movimento da Reforma Psiquiátrica e suas iniciativas renderam projetos que têm hoje grande reconhecimento. Há inúmeros episódios relatados no livro que valeriam ser contados, mas como não é possível fazê-lo com todos, escolhi apenas um, que achei muito interessante. Uma vez, um paciente entrou muito agitado na sala dos médicos, revirando tudo e falando em completa desordem. A resposta da maioria dos doutores seria medicá-lo imediatamente, contê-lo ou pedir a alguma enfermeira que o retirasse dali. Nise tirou um livro da estante e disse: “Raimundo, me emprestaram esse livro, mas eu tenho que devolver. Eu gostaria que você o copiasse pra mim”. Ele sentou numa mesa, encheu páginas e páginas de rabiscos, até se cansar. Quem acredita que grandes revoluções só são possíveis com armas e mortes, devia procurar saber mais sobre esses exemplos.

foto: lu franco

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pé na estrada


Adoro as histórias dessa gente que arrumou a mala e saiu por aí. Na época em que fiz aulas de dança em tecido, conheci uma moça que fazia parte desse grupo. Ela trabalhava num circo que estava de visita ao Rio e ia partir em breve. Já comecei a gostar dessa história aí, mas ficaria ainda melhor. A moça contou que morava numa cidade do nordeste e, como de costume, um dia um circo passou por lá. Foi assistir o espetáculo e caiu de amores pelo trapezista. Infelizmente o flerte teria que acabar tão logo que desmontassem a lona. Ela então resolver largar tudo – a casa, o trabalho, a família, os amigos – para seguir com ele. No começo, ajudava nos bastidores, arrumando os cenários, fazendo a comida. Depois também começou a treinar trapézio e se tornou uma das melhores. O circo já havia sido armado em tantas cidades diferentes que não soube me dizer ao certo e agora estava de novo com outro roteiro. O casal estava junto há seis anos, e há seis anos atravessando estradas por aí. E ontem fui mais uma vez espectadora dessas histórias que me encantam. Assisti o primeiro de um novo programa do Multishow que já entrou para minha lista de compromissos. “Nalu pelo mundo” mostra a vida de um outro casal, um surfista e uma cinegrafista (que morava em São Paulo e se mudou pra casa do namorado – todas as outras cidades), que saiu em busca das imagens mais belas e da onda perfeita. No meio do caminho, a barriga começou a crescer com a Isabele Nalu lá dentro. As viagens continuaram com a mais nova (literalmente) mochileira, que já nasceu cheia de coisa pra contar. Conhecer esse mundo com as próprias pernas é mesmo um privilégio a que todos temos que nos permitir, de alguma forma. Eu já inaugurei uns orgulhosos quilômetros, e essas humildes jornadas me renderam histórias de ouro. E há outras à caminho. É claro que histórias para contar a gente sempre têm, até mesmo de um dia chuvoso, solitário, dentro de casa. Mas sem dúvida o mundo traz muitas interferências riquíssimas nessas narrativas, que faz a gente relatar com sorriso no rosto e vontade de viver de novo. Não é disso que é feita a vida, afinal, das histórias que a gente conta? Que tenhamos então as melhores para contar.

foto: lu franco

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sair do lugar


Toda vez que vou ao teatro me pergunto por que estive tanto tempo sem ir. Sempre saio com uma inspiração, um incômodo, uma reflexão, alguma coisa fora do lugar. Acho que precisamos disso de tempos em tempos ou o tempo todo: precisamos reaprender a estar disponíveis, e a arte ajuda muito. O que acontece é que ao longo da vida a gente vai desaprendendo a perceber. Chegam notícias prontas, repetidas, preconceitos, olhares aprisionantes, distribuição maciça de frases, de gestos, de achos. E a gente vai usando isso, acreditando naquilo, reproduzindo o dito, comendo sem gosto, deixando de rebubinar. Aí a vida vai ficando comum, e a gente também. A arte, em todas as suas formas, dá uma outra arrumação para o de sempre e deixa a sensibilidade mais exposta. O mundo está precisando disso.

foto: lu franco

domingo, 19 de julho de 2009

Mas já?

Já acabou o domingo?

sábado, 18 de julho de 2009

Sorte


Eu ouvi uma história que, se não fosse pela grande credibilidade da fonte, nunca iria acreditar. Um cara estava indo trocar um ventilador que havia comprado no shopping, quando foi abordado por uma câmera, um microfone e um sujeito fazendo as seguintes perguntas: “você tem uma nota fiscal com valor acima de cinqüenta reais?”, e, diante da reposta positiva, “você gostaria de ir para Nova York agora?”. O shopping estava fazendo aniversário e lançou essa promoção: cobriria a viagem para quem atendesse ao critério da nota e topasse a proposta. Ele teve direito a comprar algumas roupas, dar um telefonema, e, direto do segundo andar, perto da praça de alimentação, seguiu para os Estados Unidos. Com tudo pago, para passar o final de semana. E essa não era a primeira vez que ele ganhava algo. Na verdade, era uma entre tantas. Ingressos, brindes, eletrônicos, a nécessaire do sorteio da excursão. Diante desse fenômeno de quatro folhas, a conclusão a que se chega é inevitável e unânime: ele é um cara de sorte. Mas a sorte não é tão chegada ao acaso quanto a gente pensa. O que ele fazia era se inscrever em tudo que era promoção, ou seja, convidava a sorte a entrar. Às vezes, ela até fazia visitas surpresa, como aconteceu no shopping. Mas em outras, em muitas outras, tinha mesmo que agradecer aos cupons, às embalagens reunidas, aos selos, às inscrições. Ele investia nas possibilidades, e é nesse plano que as coisas acontecem. Dão certo, não dão, fica pra próxima, tá aprovado – as respostas são muitas, mas uma delas pode ser a que se espera. A gente se arrisca muito pouco; talvez por isso, ganhe pouco também. Meu pai sempre conta a historinha de um senhor que, assim que chegou no céu, foi fazer uma reclamação a Deus. Disse que tinha sido um bom homem a vida inteira e que durante toda ela fez um único pedido, o qual nunca havia sido atendido. “Eu queria ter ganhado na loteria; isso teria ajudado muito minha família”. E então Deus, reconhecendo o merecimento do homem, respondeu: “Não há dúvidas quanto a isso. Mas você nunca jogou”.

foto: (por Danny Rossi) Google imagens

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Vênus e Marte


O metrô é um lugar florido de boas histórias para crônicas. Vou contar apenas uma, que não terá o merecido espaço nesse blog, posto que posto linhas breves, mas certamente não poderia passar à tangente. Tenho duas amigas especialmente queridas, engraçadas e com um timbre de voz alto e com bom som. Algo que me provoca uma certa inveja, confesso, pois quase tudo que eu digo num ambiente acima de 10 decibéis, preciso repetir. Mas no metrô, quando chegam as horas da noite, parece que só os trilhos fazem barulho. As pessoas costumam estar solitárias e quietas, com a cabeça pesada de preocupações do trabalho, distraídas em leituras que sempre me interessam, cantando internamente as músicas do mp3. Tudo muito individual. Mas quando entram um grupo de pessoas ou uma dupla de mulheres, o papo rola solto e as cadeiras próximas acabam compartilhando da conversa. Nós éramos três, com duas vozes significativas, e a nossa conversa, como era de se esperar, chegou aos arredores. Falamos o que para nós não passava de um papo corriqueiro, mas que talvez, para os homens, era tudo aquilo que eles gostariam de ouvir, perguntar, ou de estar próximo aos assentos verdes daquele vagão para bisbilhotar com consentimento o universo feminino. Um dia dedico um post apenas à nossa conversa corriqueira, que também daria muitas outras histórias. Mas toda boa prosa também tem seu fim e chegamos a uma das estações. Eu ainda ficaria por mais duas, e quando achei que iria voltar ao silêncio individual dos metrôs, o vento mudou a direção e me trouxe conversas de lá. Os dois passageiros do banco de trás, que não se conheciam e talvez nunca viessem a se falar em outra ocasião, entre risadinhas e interjeições se tornaram cúmplices naquele exato e privilegiado momento:
“ - Elas são engraçadas, né"
“- Muito! É bom poder ouvir essas coisas“
"- Imagine o que elas não falam no banheiro”
“- É, só assim mesmo pra saber o que elas pensam”
“- Vou descer agora. Boa noite pra você, amigo”
“- Boa noite pra você também”.

foto: lu franco

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pois é...


Às vezes gastamos horas tentando achar a palavra. Montamos discursos inteiros, desfiamos longas conversas, trocamos idéias em papos de esquina, e nada. Então ligamos pras amigas próximas, as do serviço auditivo gratuito 24 horas, e pedimos conselhos. Mas antes deles, falamos, falamos muito, falamos mais. E debaixo do chuveiro chegamos a algumas conclusões, mas sempre inconclusivas, é claro. Num dia de má sorte em que amiga não está em casa, ninguém atende o celular, nenhuma visita lhe aparece, acumulamos palavras que encheriam um dicionário. Aí escrevemos longas respostas, refletimos sobre cada detalhe, vez ou outra nos permitimos até falar em voz alta. Mas por fim elas acabam transbordando o pensamento solitário e é quando precisamos com urgência de um interlocutor de tarja preta. Como paliativo, vale até o vizinho de elevador, só para dizer alguma coisa, que o tempo está doido, reclamar da chuva ou do calor, mas ouvir outra voz. E esperar que ele pergunte se está tudo bem, para então continuarmos a falar daquilo que ficou entupido na cabeça e não sai. Então, creio eu que para ter um pouco mais silêncio na Terra, Deus manda lá de cima a palavra. Que nem sempre é uma palavra, mas não chega a ultrapassar uma frase. Pronto, era isso. Dá até um alívio do peito. E depois de tantos ditos por não ditos, às vezes o melhor mesmo é não dizer nada.

foto: lu franco

quarta-feira, 15 de julho de 2009

No chuveiro


Já tentei encontrar outros lugares. Tirei a sorte grande de morar numa cidade que é repleta deles. Horizonte de mar, pôr-do-sol num céu azul, banco de praça pra ver as pessoas passando - tem muitos cantos do Rio que são ideias pra se estar e pensar na vida. Eu também gosto desses, gosto muito. Mas pra eu pensar na minha vida ainda não descobri lugar melhor que o box do banheiro. É assim desde a época de escola. Lembro de minha mãe sempre reclamar dos minutos exagerados debaixo do chuveiro, e toda vez me perguntava se eu não podia arrumar um jeito mais econômico de refletir sobre a vida. E ela tinha razão. Não dá mesmo pra ficar desperdiçando água por capricho, não mais. Mas confesso que isso pra mim isso ainda é um grande esforço. Eu não sei que mágica tem um bom banho quente que num passe de vinte e oito minutos acaba com todos os seus problemas. Com trilha sonora então, dá pra terminar de ouvir um cd. Aquela desavença que lhe tirou o sono, aquele trabalho que lhe roubou a madrugada, aquela idéia que não aparecia até agora, aparece, e tudo ganha rumo no enrolar da toalha. Eu devo ter um anjo de guarda meio safado, que adora entrar no chuveiro comigo. Mas nós estamos negociando para os conselhos chegarem em no máximo quinze minutos – precisamos enxugar os devaneios longos. Uma vez, meu chuveiro queimou e me deixou uns dias em trabalho de economia forçada. Foi a única vez que cheguei à marca recorde de cinco minutos. Mas aí só dava mesmo pra tomar banho. Ainda estou investigando outros lugares que não causem tantos prejuízos e esperando que meu anjo higiênico me acompanhe. Abriram uma casa de tortas aqui perto, bem aconchegante mesmo, acho ele vai gostar. E tenho certeza que lá não vou desperdiçar nada.

foto: lu franco

terça-feira, 14 de julho de 2009

Modernidade


Estava ouvindo música no meu Britania Compact quando o Tempo pesou sobre mim. Ele estava à espreita, numa daquelas notícias soltas que os radialistas salpicam antes do intervalo. “A BBC de Londres fez uma experiência com um menino de 13 anos e lhe deu um walkman para ouvir música”. E eu esperei pelo resto, aguardando aonde estaria a surpresa que o tom da voz que saía do meu Britania anunciava. Não achava nada demais um menino dessa idade ouvir walkman. Será que eles também tinham proibido isso? Mas soube em seguida que o adolescente demorou três dias pra descobrir que podia virar a fita, a qual nunca tinha visto antes, e ouvir as faixas do outro lado. “Mas eu não sou tão velha”, pensei cá com meus LP´s. Parei um breve momento e me veio um flash back. Ontem eu e uma amiga lembrávamos de uma viagem que fizemos há dez anos atrás. Dez anos atrás é muito tempo. E quando você consegue pronunciar essa frase para dois ou mais eventos, tem a prova inegável de que o tempo está passando. Junto com essas lembranças, voltei ao walkman, às gravações e regravações das músicas da rádio, que sempre vinham com pedaços de propaganda junto, e aos nomes rabiscados e reescritos no adesivo das fitas. O botão Rec era quase uma mágica. Eu demorei à beça pra ter um diskman; ganhei inclusive um cd de presente sem ter onde escutar. Lembro que quando chegaram os mpvários, o redondinho ficou esquecido numa gaveta lá de casa. Acolhi-o como pude, mas ele engolia músicas sempre que o chão trepidava. Então vim pra cidade grande e descobri um aparelhinho made in Taiwan que só funcionava rádio, mas isso bastava para os bater pernas por aí. Custava 1,99 por semana, que era quando ele parava de funcionar. Depois de muitos anos, finalmente, comprei um mp3. Era um negócio extraordinário, fiquei extasiada. Foi na mesma época que meu irmão adquiriu um outro negócio mais extraordinário ainda e que até hoje eu não imagino como possa funcionar. É uma placa que carrega muitos, muitos mesmos, cds inteiros. Aí você acha uma estação em qualquer radico, mira, aperta uma tecla – e pronto! você ouve no rádio os cds armazenados na plaqueta. Fantástico, não? Mas o meu percurso tecnológico é bem mais modesto. Depois que fiquei algum tempo sem celular e ninguém mais me achava, ganhei um desses que pegava FM – acho que é a única vez que não estou defasada e confesso que está me sendo muito útil. Se bem que agora tem um tal de BlackBerry que parece ser o deus dos celulares. Eu achava que isso era nome de sorvete ou perfume, mas me disseram que é quase um computador. Esses dias descobri que meu celular tem também uma câmera, e que além disso pode funcionar como mp3. Talvez eu não seja tão velha, só ande com passos mais lentos.

foto: lu franco

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Vício


Meu nome é Luciana e eu estou a dois dias sem assistir House. Não está sendo fácil, mas sei que já tive muitos prejuízos na minha vida por causa disso. Primeiro, comecei com Lost, foi um amigo que me apresentou. Depois da segunda temporada, não consegui mais parar. Cheguei a assistir cinco episódios numa mesma noite. Eu queria mais. Tentei entender o que estava acontecendo, mas tudo continuava sem sentido. Comecei a delirar, inventei mil teorias para explicar o porque dos números malditos e cheguei a pensar que todos nós estávamos presos numa grande ilha. Me esforcei, quase consegui largar, mas continuei assistindo socialmente, apenas nos finais de semana. Foi quando apareceu Heroes. Fazia parte da recuperação não perder mais dinheiro na locadora. Mas a net combo colocou a universal channel dentro da minha própria casa. Tive outra recaída. Via episódios inéditos e antigos, e acabei ficando desorientada no tempo e no espaço. Eles morriam, destruíam o mundo, vinham do futuro, mudavam as coisas, viviam de novo. Quando vi um episódio em que o Sylar era bonzinho, pensei que estava perdendo o contato com a realidade. Achei melhor descansar um pouco. Esqueci a TV ligada. Abri os olhos e estava passando Brothers and Sisthers. Ia visitar amigos pra mudar de assunto, mas eles tinham o mesmo vício e sempre me apresentavam uma coisa nova. Grey´s Anatomy, Veronica Mars, Kyle – uma mais pesada que a outra. Um dia, a irmã de uma amiga chegou com umas caixas estranhas. Eram os Box de todas as temporadas de Sex and the City. E a cada seriado, mais uma hora do meu dia ficava pra trás. Deixei de ir ao samba, voltava mais cedo pra casa, interrompia conversa com os amigos porque não podia ficar muito tempo sem. Estou trabalhando na minha melhora, hoje fui na rua e cheguei a pegar um sol. Acho que estou progredinho. Mas nada, até hoje, chegou perto da primeira vez que experimentei. Friends foi imbatível.

foto: (por portalséries) Google imagens

domingo, 12 de julho de 2009

Detalhes


Eu tenho uma amiga que gosta de homens mais cheinhos. Parrudinhos, é a palavra que ela usa. Outra, que presta atenção nas mãos – é o comentário que mais ouço sobre seus flertes, que o escolhido tem as mãos bonitas. Mas o que esta acha horrível, terrível, repugnante, quase uma falha de princípios, é homem que faz sobrancelha. Isso é imperdoável. Ela é um detector à distância de sobrancelhas masculinas que acabaram de sair do salão. Eu acho isso incrível, porque nunca percebo. Já vi algumas se derretendo por quem fala bem, que faz pensar, que sabe o que fala. Homens inteligentes têm um charme que eles desconhecem. Mas é preciso prudência: se não tiver senso de humor, fica chato. Já testemunhei inclusive os chatos serem alvos de olhares desejosos, os quais certamente viram algo que eu não vi. Nariz grande, canela fina, dentinho torto, sardinha, óculos – cada um tem seus encantos. Ah, e os barbudos... Descobrimos uma comunidade no orkut que é quase um fã clube: “Barbudetes”. Por incrível que pareça, tenho um outro grupo de amigas que acham os barbudinhos sujos. Elas gostam dos limpos, seja lá o que for isso. Mas se é para provocar polêmica, nada melhor que falar de dread. Ou de piercing, ou de tatuagem. Adoro todos, mas dependem de certas condições. Tudo é muito relativo. É claro que existem os unânimes, mas ainda assim dividem concorrência. Numa mesma conversa de bar, usamos o adjetivo “o homem mais bonito do mundo” três vezes, para três bonitos. E é bem provável que eles nem imaginem isso. As belezas estão no plural. E nos detalhes. E talvez naquilo que não gostamos. Há sempre muitos olhares diferentes sobre nós.

foto: lu franco

sábado, 11 de julho de 2009

Cálculos


Sofria de cálculos. Desde que o irmão mais novo nascera, aprendera a dividir tudo ao meio. Antes, era inteiro, todo, singular. Filho, sobrinho, neto, afilhado, o menino mais bonito da rua – só se sabia unitário. Mas esse mundo regido pela lei da multiplicação acabou por lhe subtrair o sossego. Primeiro, veio o irmão; logo em seguida o primo. E se com os de casa era preciso fracionar tudo em duas partes justas, com o primo a divisão era apenas por um e ele mesmo – não havia interseções. As visitas tinham o privilégio de um erro de cálculo, que a mãe tentava explicar relativizando conceitos que nunca havia entendido. E ao longo das insuficiências matemáticas da vida, aprendera a desenvolver uma paciência infinita. Resolveu fazer engenharia. Largou na quinta vez sucessiva em que repetiu em cálculo III. Foi ser contador, mas o saldo não foi dos melhores. Sua mulher jogava-lhe na cara todos os meses a função de um chefe de família, pois as contas sempre caíam no negativo. O que ela não via eram as derivações que ele ainda conseguia fazer do dinheiro que ganhava, para manter integralidade dos seus. Lembrou daqueles tempos dos primeiros numerais, onde lhe ensinaram que zero nada valia. E agora aguardava pelos zeros que o chefe fazia prometer e nunca apareciam no contra-cheque. Um dia, acordou para trabalhar e sentiu umas dores insuportáveis. Pensou que pelo menos assim poderia tirar um dia de folga dos números que o amaldiçoavam por anos. Mas a cada quarto de hora as pontadas se elevavam à décima potência. Foi preciso procurar um médico especialista em corpos rígidos. Fez uns exames e, depois da prova final, o doutor não tinha mais dúvida: estava com cálculo renal.

foto: lu franco