domingo, 2 de dezembro de 2012

As marcas


Ainda está nas paredes a marca que a água foi deixando quando encontrou uma brecha pra escapar. Dos antigos problemas da nova casa, que me pediram uma calma desleal e resignada (que a pouco me abandonou a companhia), essa marca ainda está aqui, com seus rastros indiscretos.  Mas logo acima está outra marca, dessa vez de minha autoria, de um pedaço da tinta que se soltou quando desprendi o vinil que fazia a decoração. Fui eu mesma quem o colocou lá, mas achei que ele merecia outro lugar. Aí tive que dar um novo uso à estante: depois de guardadora de livro e lembranças, agora também tapadora de machucado de parede. E além dessas que são mais permanentes, a casa ganha outras marcas cada vez que recebe uma visita. É muito curioso como esse mesmo espaço funciona diferente pra cada um que vem aqui. Da janela eu lembro quando meu pai está; é ali que ele passa boa parte do tempo. E é também quando ele está que assopro a poeira dos DVDs pra assistirmos mais uma vez aquele filme bom. A pilha de títulos cresce pensando nisso – no Gil dizendo que não aguenta mais Fátima e William, e a TV só fica tendo serventia com as exibições cinematográficas. Minha mãe, ao contrário, gosta é de ficar na cozinha ouvindo o jornal. Desconfio seriamente que ela nem dê atenção ao que dizem os repórteres, mas fica lá o barulhinho das notícias chegando. Então eu lembro que tenho cozinha, e que naquela miudeza amontoada de fogão, pia, geladeira dá pra fazer uns almoços de rei, que ficam pra semana. E quando chegam os irmãos, é revisitando a prateleira de CDs doados (por eles) ou encontrando algum cantinho decente pra se acomodar. Foi daí que veio a ideia de ter um sofá incrível de três lugares e a prática de ter um sofá humilde de um lugar e meio, mas que os acolhe com os braços abertos e meio tortos. É ali que a minha vizinha de cima senta pra conversar sobre a vida e os rastros indiscretos na parede (que estamos prestes a resolver), e me dá um orgulho danado de hoje ter um sofá para receber as visitas. Humilde e com os braços meio tortos, mas acomodável. Os amigos gostam de se esparrapachar no colchão, e parece que a casa só precisa disso. Até desmontei a cama e comprei mais dois, que ficam servindo para abrigar os pernoites. Meu primo costuma passar só pra me dar um beijinho e um recado, e é pelo corredor mesmo que ele fica. Então se o corredor está arrumado, a casa toda fica estando – achei melhor tirar os entulhos de lá. As visitas foram deixando suas marcas nessa casa. E a casa reinventando seus jeitos para receber os encontros. Porque é assim sempre: a gente deixa uma marca nas coisas, e as coisas, uma marca na gente. Andam marcando de vir aqui em casa, fico à espera. Vai ser bom receber visitas.

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