terça-feira, 20 de maio de 2008

Coisas dessa vida


Já era a terceira vez que o porteiro me dava aquele mesmo recado e pela terceira vez, deixei-o escapar entre as pressas desses dias. Mas o acaso, que nunca foi de perdoar minhas faltas, tampouco o faria dessa vez. A senhora tinha um sorriso simpático e isso me deixou de bochechas ainda mais coradas pelo duplo embaraço – o de não responder aos recados e o de não responder aos recados de uma senhora simpática. Mas nosso encontro na portaria do prédio providenciou o reparo, e logo depois estava eu, no décimo segundo andar, à porta da senhora simpática. Me convidou a entrar com aquele mesmo sorriso de antes e, enquanto passávamos pelos cômodos, me contava histórias de sua família. A casa havia se tornado grande demais depois que o filho se mudara de lá, e agora os espaços que sobravam cresciam ainda mais junto com o silêncio. Ela estava só fazia alguns meses, tinha perdido o companheiro que por mais de cinqüenta anos estivera ao seu lado. Cada coisa naquela casa lhe trazia uma lembrança dele, e ela me contava como numa excursão sobre o passado. Até que chegamos ao que deu origem aos recados, aos acasos, aos encontros: os livros que ele havia deixado. Há pouco tempo, tínhamos organizado uma arrecadação de livros entre os vizinhos, e os cartazes no elevador, que eu havia esquecido de tirar, ainda avisavam sobre nossa campanha, que se encerara. Até tentei dizer isso à senhora, mas desisti ao entender que levar os livros, que ela me pediu tantas vezes para pegar, era ajudá-la a se despedir. Me disse que a solidão era tamanha que às vezes entrava num ônibus qualquer e ficava horas percorrendo ruas, que lhe pareciam estranhas mesmo que fossem as mesmas. Fiquei pensando nisso, nesse jeito de lidar com a solidão. Talvez seja assim mesmo quando perdemos algo que nos ajuda a manter uma direção, talvez fiquemos um pouco perdidos, percorrendo ruas com seus tantos destinos, até um dia encontrarmos de novo outra direção a seguir.

foto: lu franco