segunda-feira, 18 de abril de 2011

De todos os jeitos

Naquele exato momento, tinha certeza, dessas que a raiva não deixa hesitar. Dirigiu-se imediatamente ao computador, debruçou-lhe as mãos e redigiu a frase, sem qualquer esforço ou demora: "não me escreva mais". A frase já estava lá há tempos e agora finalmente poderia ser dita. Não queria mais aquilo - estava com olheiras de reticência. Encerrou a última palavra com um ponto final.

Já não sabia há quanto tempo arrastava-se em dúvidas. Dirigiu-se hesitante à escrivaninha e precipitou-se às palavras. Seus dedos estavam tomados de receio. Não conseguiam escolher uma só frase, e as letras sumiam e voltavam a surgir em tentativas e fracassos - eram reticências. E se não fosse isso? E se não conseguisse? E se ele obedecesse? Deixou a frase pela metade. Talvez não quisesse dizê-la.

"Me escreva sim. Todos os dias espero encontrar seu nome entre os emails e me alegra saber que lembra de mim. Guardo uma imensa saudade dos tempos em que tínhamos certeza. Foram bons aqueles tempos, não queria que tivessem um ponto final. Vamos criar retiências nas frases que foram ditas, não se demore mais..."

Não tinha palavra. Sentou-se diante do computador e insistiu a escrita, mas só encontrava silêncio. Há tempos vivia num intervalo - diante da incerteza, nada tinha a dizer. Ela era isso: uma espécie de vão entre um momento e o próximo, uma ausência de sentimentos, se isso pudesse existir. Esperava o dia em que finalmente conseguiria terminar a frase. Agora, vivia em demoradas reticências..........

Não lhe parecia tanto. Era apenas mais um nome compondo a fileira de emails. Lá estava ele, entre tantos. Olhou-o com uma certa compaixão e podia até jurar que sentia uma saudade. Mas não, não era isso. Ele não estava mais no agora.

"Hoje escrevo para dizer ainda sinto saudades, não tenha dúvidas. Não pudemos dar um outro final, mas guardo para nós as melhores frases que puderam ser ditas. Agora é hora de outras tentativas e talvez por isso precisaremos de um intervalo. Mas um dia voltaremos às conversas alegres e reticentes, sem insistir naquilo que insiste em fracassar".

sexta-feira, 15 de abril de 2011

De repente

Se me fosse pedido para localizar onde tudo isso começou, não saberia dizer. Mas o que lembro era de repente estarmos agendando um rodízio de sopas para o sábado à noite. E depois vieram umas desculpas nunca antes apresentadas para justificar a recusa do forrozinho de quarta: no dia seguinte, o relógio despertaria cedo. Trabalhos. Ao invés do samba, o estudo pro concurso; ao invés das multidões dos shows de graça, uma prainha de manhã - porque de tarde o sol fica forte demais e faz a pele envelhecer e dar manchas. E de repente trocávamos indicações de uma boa dermatologista. E de  uma boa ginecologista,  endocrinologista, gastroenterologista, homeopata, das clínicas que melhor atendiam, das soluções pras dores e ziquiziras que cismam em continuar aparecendo. E de repente surgiram cinco casamentos e dois ajuntamentos (que, no fim, seguem os mesmos propósitos) para serem comemorados num mesmo ano. E nas conversas, a vontade de um dia também juntar as escovas de dente com alguém que se combinasse os jeitos. E aí, de onde menos se esperava, foi ouvido: "eu quero ter um filho". E outras vozes fizeram eco. Os passeios no fim de semana nas Lojas Americanas foram o que faltava para constatar o que os aniversários sempre nos lembravam: estávamos ficando velhos. E é claro que eu também tenho lá minhas queixas quanto à passagem apressada do tempo - só não as tem que ainda não chegou aos 18. É bom lembrar de épocas em que as preocupações eram outras, bem menores que as que hoje nos tiram o sono. Mas há sempre um saudosismo por tempos mais tranquilos, que nunca são os de agora, quando se conversa com alguém que está se achando velho. Ou por tempos mais agitados, como os que meus pais relembram com uma certa tristeza pelo que já passou, de crianças dando os primeiros passos, ficando doentes todas de uma vez, indo para o colégio e, de repente, resolvendo sair de casa. Calma - digo a eles - daqui a pouco chegam os netos e tudo outra vez, com o plus de passar a criança pra mãe quando ela começar a chorar. Então acho que é isso: toda época tem lá suas dores e delícias. E as delícias de agora estão sendo arrumar a casa e curtir os móveis novos a sós ou em companhia de bons amigos. E pegar o encarte da Casa e Vídeo pra ver a promoção de edredons e dvd´s. É, estamos ficando velhos. E agora me deixe encerrar esse texto porque amanhã o relógio também desperta cedo.