Uma criança de 6 anos acorda com o peso de um coturno na cabeça, de um policial que a espanta da frente de uma loja a pedido do dono. Essa criança cresce na rua, já conhece todo o sistema de assistência, que inventa possibilidades de acompanhamento dispondo de pouquíssimos recursos. A família talvez já tenha sido contatada, mas vive em situação de extrema pobreza. Essa criança, outro dia, deixou as marcas das unhas e do cordão arrebentado no pescoço de uma senhora. Nervosa, a senhora encontra o policial na guarita e exige maior fiscalização na praça. É ameaçada de ser presa por desacatado. O policial é formado por uma instituição extremamente violenta e corrupta. O menino é preso num outro furto, vai para o sistema socioeducativo e socialmente educado pelos agentes com tapas na cara. Vira um número, mãos atrás e cabeça baixa. Com pouca ou nenhuma escolaridade, pobre, volta pras ruas, faz 18 anos, é preso novamente e agora é ex-presidiário. Foi preso colocando um revólver no ouvido de uma moça, que, por medo, vai ficar os próximos dias sem sair de casa e os próximos anos achando que todos são assaltantes em potencial. Quando a violência chega até nós é porque muitos direitos já foram desrespeitados. E de muitos.
2 comentários:
Tem uma frase no mural próximo às Varas da Infância e Juventude de algumas cidades. Não sei como é exatamente, tentei reproduzir mais ou menos aqui e não consegui. Mas me suscitou isso, essa cadeia de violência. Te digo por experiência própria que é fato que uma cadeia de eventos redunda em um sujeito assim ou assado. Só tomo cuidado pra não cair no mito do bom selvagem. Ainda assim, todos temos o direito de aprender a sufocar os empuxos egoístas que trazem dentro de nós mesmos.
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