sábado, 18 de junho de 2011

Marcações

Já faz um tempo que deixou de ser um hábito para se tornar uma necessidade. Ler sem ter um lápis à mão é suportar do início ao fim do texto aquela incômoda sensação de que está faltando alguma coisa. E é claro: isso atrapalha a leitura, do início ao fim do texto. O curioso é que o lápis é uma espécie de enganação minha comigo mesma: sem ele e suas possibilidades demarcar frases ou trechos, a impressão que fica é a de que nada foi lido. Mentira – mas talvez nem tanto. Eu lembro de quando era criança e ficava doente, minha mãe me jurava que se eu segurasse uma chave bem forte, se a deixasse ali, escondidinha nos meus dedos, o mal estar passaria. Talvez o lápis funcione como as chaves, mas dessa vez para não deixar que algo passe, ou pelo menos que não passe desapercebido. E assim no canto das páginas vão ficando traços, chaves, setas que dizem que um dia eu estive ali. E li a história daquele jeito. E se um dia ler de outro, borracha e lápis para remarcar o que de diferente achar importante. Ou bonito, ou triste, ou simplesmente digno de ser marcado. Vai ver que cada um tem lá um jeito de marcar a sua história, de fazer de certos trechos mais memoráveis que outros. É gostoso quando a gente volta ao início e descobre algum que ficou esquecido e tão bom é de se lembrar. Mas também acontece de retornar a um já destacado e não encontrar ali sentido algum. Acho que é por isso eu escolho o lápis, porque eu sei que as memórias se modificam. Essas aqui, vez ou outra ganham novas edições, quase sempre quando as leio de novo.

Um comentário:

facebook disse...

Manoel Pacífico: Há textos que marcam nossas vidas...

Marcia Moraes: É que usamos o lápis para termos uma garantia de que aquele trecho lido jamais será perdido em nossa memória! É uma tentativa de conservar, guardar, ainda que uma borracha possa tudo desfazer. Mas não adianta, aprendemos com a vida que n...ão há memória sem esquecimento! Marcamos o texto com o lápis, selamos um momento, um encontro... que sempre poderá ser esquecido... anos mais tarde, na releitura, muitas vezes, já não sabemos mais o por que daquelas marcas... Ainda assim, ler sem o lápis me assombra! Por isso, estou sempre com ele...