Ainda está nas paredes a marca que a água foi deixando
quando encontrou uma brecha pra escapar. Dos antigos problemas da nova casa,
que me pediram uma calma desleal e resignada (que a pouco me abandonou a
companhia), essa marca ainda está aqui, com seus rastros indiscretos. Mas logo acima está outra marca, dessa vez de
minha autoria, de um pedaço da tinta que se soltou quando desprendi o vinil
que fazia a decoração. Fui eu mesma quem o colocou lá, mas achei que ele
merecia outro lugar. Aí tive que dar um novo uso à estante: depois de guardadora
de livro e lembranças, agora também tapadora de machucado de parede. E além
dessas que são mais permanentes, a casa ganha outras marcas cada vez que recebe
uma visita. É muito curioso como esse mesmo espaço funciona diferente pra cada
um que vem aqui. Da janela eu lembro quando meu pai está; é ali que ele passa
boa parte do tempo. E é também quando ele está que assopro a poeira dos DVDs pra
assistirmos mais uma vez aquele filme bom. A pilha de títulos cresce pensando
nisso – no Gil dizendo que não aguenta mais Fátima e William, e a TV só fica
tendo serventia com as exibições cinematográficas. Minha mãe, ao contrário, gosta é
de ficar na cozinha ouvindo o jornal. Desconfio seriamente que ela nem dê atenção ao
que dizem os repórteres, mas fica lá o barulhinho das notícias chegando. Então eu
lembro que tenho cozinha, e que naquela miudeza amontoada de fogão, pia,
geladeira dá pra fazer uns almoços de rei, que ficam pra semana. E quando
chegam os irmãos, é revisitando a prateleira de CDs doados (por eles) ou
encontrando algum cantinho decente pra se acomodar. Foi daí que veio a ideia de
ter um sofá incrível de três lugares e a prática de ter um sofá humilde de um lugar
e meio, mas que os acolhe com os braços abertos e meio tortos. É ali que a minha
vizinha de cima senta pra conversar sobre a vida e os rastros indiscretos na
parede (que estamos prestes a resolver), e me dá um orgulho danado de hoje ter um
sofá para receber as visitas. Humilde e com os braços meio tortos, mas
acomodável. Os amigos gostam de se esparrapachar no colchão, e parece que a casa só precisa disso. Até desmontei a cama e comprei mais dois, que ficam
servindo para abrigar os pernoites. Meu primo costuma passar só pra me dar um
beijinho e um recado, e é pelo corredor mesmo que ele fica. Então se o corredor
está arrumado, a casa toda fica estando – achei melhor tirar os entulhos de
lá. As visitas foram deixando suas marcas nessa casa. E a casa reinventando
seus jeitos para receber os encontros. Porque é assim sempre: a gente deixa
uma marca nas coisas, e as coisas, uma marca na gente. Andam marcando de vir aqui em casa, fico à espera. Vai ser bom receber visitas.
domingo, 2 de dezembro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
Escuta
Desde muito cedo
entendi que histórias precisavam ser ouvidas. E me prontificava a escutá-las
mais por gosto que por entendimento, porque achava bom o jeito que cada um
contava. O jeito que se conta uma história é assim: único e intransferível. E
mesmo que se conte a mesma, não é mais a mesma por narradores diferentes. Nunca foi.
Porque o viver também é único e intransferível. E era pelas histórias o
meu fascínio, pois elas me contavam que as pessoas já tinham vivido de um tudo
e eu nem imaginava que esse tudo existia. A escuta me levava a outros mundos. Tenho amigos que pelos quais sou consentidamente seduzida, pela
habilidade que têm de transformar as coisas em acontecimentos. Aquelas coisas
que de tão corriqueiras nem chegam a ser anunciadas? Pois dessas saem histórias incríveis. O gosto pela escuta também virou trabalho, que lhe exigiu muitos estudos e afinações. Se tornou uma
escuta-intervenção, nas suas sutilezas, aberturas, responsabilidades. Ouviam-se
também outros enredos, pinçados dos emaranhados do contar. De vez em quando
paro pra pensar sobre as tantas histórias que já me partilharam. Algumas de se
duvidar a crença, não por desconfiança, mas pelo grau de surpreendimento que a
gente fica depois de testemunhar a vida. Uma autora chamada
Jeanne Marie Ganegbin disse algo muito interessante sobre resgatar essas
histórias do passado, de um jeito onde haja espaço para que sejam contadas
pelos suspiros longos, pelos silêncios, pelas hesitações e solavancos. Ouvir as histórias sem apertá-las prontamente num sentido ou julgamento é algo que dificilmente fazemos, mas é aí que elas aparecem em toda a sua grandeza. Nos ensinam.
sábado, 1 de setembro de 2012
A Casa
Por duas semanas, nos papos corriqueiros ou extraordinários, meus assuntos foram enxugados a um só. Se tornou uma espécie de chatice insistente,
uma queixa já cansada dela mesma. E um cansaço de fato, das idas e vindas
eternas a despejar todas as coisas no novo lar. É isso que vos conto: estou
desfrutando as alegrias e desassossegos do mudar. Mas até que viessem as alegrias,
foram muitos os desassossegos: infiltrações, instalações mal feitas, medidas
erradas, trocas, improvisos, rearranjos. Aí fiquei lá, parada nesse assunto:
chata e reclamante. Cansei disso também. Entendi que uma casa não recebe a gente
sem esforço: é preciso conquistá-la aos poucos. Ir chegando manso, respeitando a história
das tantas gentes que passaram por ali e pras quais a casa foi muito além de um
teto: foi uma vida. E quando entendi isso, fui pedindo licença. Cheguei com uma
coisa ou outra, fui escolhendo os cantos, e a casa foi ganhando outro contorno. Aí avisei que tinha uns potes de tinta a
caminho – pra não assustar. Disse que eu gostava era assim, com cores, e que de
vez em quando enjoava e pintava tudo de novo – pra já ir prevenindo. Então apresentei os amigos, a família, e nesse
dia a casa ficou transbordante de alegria. E quando eles foram embora,
emburrou. Que não se preocupasse, eu disse, voltariam outras vezes, aqueles e
outros. Os problemas foram sumindo, pendurei ontem o último quadro. E
confesso, mas só entre nós, que sinto falta daquelas duas semanas, em que todo
dia aparecia uma coisa nova pra compor a casa ou o alívio do que foi resolvido. Essa casa, agora, também irá ajudar a compor
minhas histórias - e vamos seguindo, até o dia de uma próxima mudança.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Madrugada
Imagino que a madrugada não seja gentil aos insones. Imagino porque, se foram duas ou três as vezes em que perdi o sono nessa vida, foram mais que de fato se deram. As horas que reservamos ao descanso é, das necessidades que nos obriga a natureza, uma das que tenho maior satisfação em obedecer. Esticar o corpo, encontrar seu lugar, fechar os olhos e deixar os pensamentos, devagarinho, escorregando em devaneios é quase um pecado de tão bom. E tão bom que virou pecado mesmo, por certo incluído na lista por algum desperto invejoso. Mas a preguiça é para os que podem, não para os que acordam às 6. Para estes, lá se vão as madrugadas, longe da boemia na Lapa, mas, no máximo, com uma ou outra realização desejo, como já se interpretou sobre os sonhos. E elas guardam esse outro lado que tanto quanto despertam minha simpatia, pelas ousadias que permitem, mas principalmente pelo silêncio de um barulho só. Um único barulho de um carro passando, que encontra tanto silêncio no caminho que podemos dizer o exato momento em que se aproxima, passa por nós e segue adiante. Uma conversa, que faz ouvir cada palavra do que se fala. Ou o silêncio que nos deixa contar quantas gotas caíram da torneira. Esse silêncio faz da madrugada o melhor momento para escrever. Tudo fica tão quase quieto que, de repente, parece que o pensamento fala em voz alta. E, se eu pudesse, deixaria o relógio correr à disposição da escrita, como bem me conviria. Mas faltam 10 minutos para bater a primeira hora do dia e só me restam outras 5 para o descanso, nem precisando dizer que já faz um tempo que meus olhos mal se sustentam abertos. Me despeço então, hora de dormir.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Pela janela
Há alguns anos, tive a alegria (quando já começava a exigir um mínimo de decência por parte do destino, depois de completar quase uma peregrinação jesuíta pelas ruas do Rio de Janeiro) de encontrar um cantinho bom à beça pra morar. Nele cabiam meus quatro móveis, um violino frustrado, uma dúzia de livros e outra de cds adquiridos em pequenos e consentidos furtos. Como se não bastasse (e, para mim, bastava), ganhei uma vista espetacular (e por ela sou eternamente grata). Só não digo mais pra não deixar escapar que na minha casa venta de despregar as fotos do mural e acabar matando de inveja todos os meus três leitores. A janela, como ouço dizer meu pai todas as vezes que me visita, é sem dúvida a melhor parte da casa. Mas confesso que nos últimos tempos ela tem sido mais é uma porta de entrada, um convite a participar da agitada pulsação da cidade – a qual, antes que vocês esperem das próximas linhas um poema de Drummond, é perturbadora. Nunca ouvi tanta moça de salto alto perder a pose por causa de namorado ciumento, que arruma confusão e só a desfaz aos berros da dama e à sirene da polícia. Ou outros berros que servem para escapar dos assaltos. Ou as conversas que aumentam de volume conforme as latas de cerveja, os caminhões que passam por aqui buzinado às 6 da manhã, umas bombinhas que eu ainda não entendi nem da onde vem, nem quem joga e, principalmente, por que motivo, o asfalto sendo picotado para recapeamento, a obra que não termina há dois anos, a placa de ferro que cobre o buraco da obra e supera os decibéis da britadeira toda vez que um carro passa sobre ela. Eu participo da pulsação da cidade, da pulsação barulhenta da cidade, que por uma intrigante e infeliz propagação acústica vem parar do lado na minha cama, no meio do meu quarto. Ou sala. Sala-quarto. Conjugado, assumamos. Eu, que sou uma adoradora de Morfeu, devota e congregada, participo da pulsação da cidade. Que, como já diziam, não pára, só cresce. Tem uns momentinhos que a gente precisa é de silêncio, só disso. Mas quando eu tiver que deixar essa janela, quer dizer, esse apartamento, certamente será com o coração partido. Há também tanta coisa bonita que a gente vê aqui de cima, que um dia eu separo um post só pra dizer delas. E tem ainda as vizinhas queridas, os porteiros inigualáveis e a toda a pulsação que vem daqui de dentro. Esse dia será de silêncio, mas de um silêncio um tanto triste.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Desocupados
Uma vez ouvi de uma amiga, depois de perguntar-lhe como haviam sido as tão almejadas férias, que ela não via a hora de voltar ao trabalho. Não que trabalhar fosse um prazer vital ou inevitável – a essa amiga certamente agradaria uns bons dias de acordar às 09:30 para pegar o finalzinho do programa da Ana Maria Braga e pensar nas receitas que poderia fazer. Ou não. E depois pensar o que fazer no resto do dia. Ou não. Mas o fato é que toda vez que saia à rua sentia-se quase culpada pelos 30 dias corridos que lhe asseguravam as leis trabalhistas. O olhar da moça de salto alto e terninho, com quem dividia o banco do ônibus e para quem desculpava-se pelo transtorno de passar com uma cadeira de praia e um guarda-sol, era quase uma arma branca a matar-lhe silenciosamente. Deixou de passar o protetor solar porque seu cheiro inconfundível atraía de longe olhares ainda mais inquisidores. Não se irritava mais com as moças do caixa que não respondiam ao “boa tarde”, afinal, estavam ali trabalhando desde sei lá que horas, enquanto ela acordava às 09:30 pra pegar o finalzinho do programa da Ana Maria. Quando percebeu um sorrisinho irônico no jornaleiro, jurou que jamais passaria novamente por ele com roupa de ginástica ao meio dia de uma terça-feira. Chegou a perder alguns sábados, na confusão que as férias fazem no nosso calendário, se permitindo sair apenas depois das seis da tarde. E quando finalmente voltou a programar o relógio para despertar às seis da manhã é que, pela primeira vez em 30 dias, pôde descansar. Sustentar o estar de férias num cotidiano de trabalhadores por todos os lados é praticamente um trabalho de análise. Essa semana o risinho foi do meu porteiro, que por mais dois dias não me perguntava quando é que o raio dessas férias iriam acabar. Risinho com satisfação e um breve companheirismo, do “bem-vinda de volta à população que tem todos os dias os sonhos interrompidos pelo barulho do despertador”. Difícil foi sentir o cheiro de protetor solar no ônibus até chegar ao trabalho – que vinha de algum desocupado, certamente.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Tapa
Uma criança de 6 anos acorda com o peso de um coturno na cabeça, de um policial que a espanta da frente de uma loja a pedido do dono. Essa criança cresce na rua, já conhece todo o sistema de assistência, que inventa possibilidades de acompanhamento dispondo de pouquíssimos recursos. A família talvez já tenha sido contatada, mas vive em situação de extrema pobreza. Essa criança, outro dia, deixou as marcas das unhas e do cordão arrebentado no pescoço de uma senhora. Nervosa, a senhora encontra o policial na guarita e exige maior fiscalização na praça. É ameaçada de ser presa por desacatado. O policial é formado por uma instituição extremamente violenta e corrupta. O menino é preso num outro furto, vai para o sistema socioeducativo e socialmente educado pelos agentes com tapas na cara. Vira um número, mãos atrás e cabeça baixa. Com pouca ou nenhuma escolaridade, pobre, volta pras ruas, faz 18 anos, é preso novamente e agora é ex-presidiário. Foi preso colocando um revólver no ouvido de uma moça, que, por medo, vai ficar os próximos dias sem sair de casa e os próximos anos achando que todos são assaltantes em potencial. Quando a violência chega até nós é porque muitos direitos já foram desrespeitados. E de muitos.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Uma boa visita
Foi um susto – olhei o sofá e lá estava ela, de repente. Já recebi noutros tempos e a uns posts abaixo visitas que não foram tão amenas e que causaram neste lar um certo rebuliço embaraçoso. Mas ela estava lá, tranqüila, descansando verde entre o colorido das almofadas. Fiquei a admirá-la, talvez mais pelo nome que pela beleza. É possível que se tivessem lhe batizado de desespero ou aflição, não me demoraria tanto no admirar. Mas chamava pelo nome próprio um nome que há tempos já não é comum. Era magrinha, magrinha, quase que não se via se olhada de frente. Cheguei bem perto, não tive medo dessa vez. E ela paradinha como se testasse até quão perto eu iria chegar. Fui cuidar os afazeres, panelas, vassouras, trabalho com data de entrega, e de vez em quando olhava, só pra me certificar de que ela estava ali. Foi quando resolveu se mexer – meu Deus, que lentidão desajeitada. Pedia paciência. Até que bateu as asas, subiu com ligeireza e foi descansar numa foto. Dizem que onde ela pousa traz a sorte. Era mesmo uma foto de boa sorte. A noite crescendo e talvez fosse hora de ajudá-la a encontrar a janela de novo. Mas pensei que até fosse pecado despachar uma visita dessas. Fiquei meio sem saber o que fazer e, enquanto eu pensava, ela sumiu. Vai ver que é assim mesmo: esperança aparece quando a gente precisa dela. Depois, vai pousar em outras janelas.
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