quinta-feira, 16 de junho de 2011

Gula

De tempos em tempos, a gula passa à frente na fila dos pecados. Não é que os outros tenham se redimido – estão todos ali, cultivando soberbamente suas mesas fartas, maldizendo os chocólatras que não aumentam de peso, exibindo as belas tortas no balcão, na preguiça de depois do almoço, no pedaço que não se divide com ninguém, nas outras vontades do corpo. De um jeito ou de outro, estão todos ali,  mas consumidos pela gula. E nesses tempos não há muito o que fazer além de se render aos desejos do paladar, recorrendo ao rodízio de pizzas mais próximo ou aproveitando a promoção do sorvete caro de Dulce de Leche que só se come em ocasiões extra especiais. Nesses tempos, em que tudo o que se pronuncia parece gostoso, aproveitem para experimentar. Comer, e comer bem, é sem dúvida um dos maiores prazeres que podemos desfrutar. Mas infelizmente chega um dia, um triste, pálido e abatido dia,  em que a balança e o colesterol sinalizam que já é hora de trocar de pecado. E de fato é preciso: ninguém sai imune dos exageros. Mas os dias passam, os tempos em tempos voltam, e sem perceber lá está ela de novo, à espreita, querendo furar a fila. Como não nos agrada causar constrangimentos, às vezes o melhor é ceder o lugar. Afinal, a gula também costuma ser muito solidária. Toda comida fica mais gostosa quando pode ser compartilhada ou apreciada em boas companhias, e a cozinha é curiosamente o lugar onde as pessoas mais se reúnem para trocar e conversar. Há mais coisas entre as comidas e as bocas do que supõe nossa vã filosofia.

Um comentário:

Bruno disse...

É impagável a sensação de ler esse texto sensacional ao som do bom e velho Wilco, logo depois de comer uma deliciosa lasangna de camarão no tradicionalíssimo Luigi na praça da liberdade. Recomendo!... By the way, mais de 20 dias depois do último post, mas valeu a pena esperar. Continue assim. Grande bejio e um bom finde. Bocaccio