segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Duas cenas


Duas cenas de roubar palavras por dois grandes diretores. Um casebre de madeira, umas primeiras notas de caixinha de música, um lençol branco desprendido do varau revelando a poeira de um carro na estrada. A moça vai pra dentro de casa, o pai molha o rosto com grosseria, uma tensão aparece. De dentro do carro, um general de sorriso farto, de gentileza fina, de muitas delicadezas. E a conversa segue civilizadamente preocupante. O pai não faz um gesto além, não lhe sobra expressões. Apenas quando o pior acontece, e antes dele uma espera torturante, os olhos ficam rubros e transbordam de expressões e lágrimas. Somente os olhos. Se essa enorme cena tivesse nome, se chamaria angústia.
Os olhos deixaram de ver, ficaram tristeza. E no caminho da estrada, uma praia, uma parada, duas descidas – o menininho lhe guia pela mão até a chegada na areia. Nenhum dos dois conhecia aquele mar: o menino, mar nenhum conhecera antes, e ele, nunca experimentara como naquele momento o vento, a maresia, o barulho dos cachorros, as lembranças. Pipas voando, menino correndo, ele sentindo. E então não precisa de palavra – é sensação. É a cena mais bonita, se chama liberdade. 
Os filmes? Quais eram? E de quem? Nem preciso dizer. 

foto: Google imagens

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Not drama


Não poderia isentar o primeiro post de 2010 dos votos que nos fazemos ao despertar de cada ano. E como todo ano, também desejo a amigos e familiares, próximos e distantes, que recebam as bênçãos de muitas alegrias e boa saúde. Mas dessa vez decidi inaugurar o calendário com novos votos, sem deixar, é claro, de reforçar os antigos. Entre estes, estava boa parte da lista do que é tão importante e tanto carecemos nesses tempos: paz, compreensão, amor, gentileza, cuidado. Foi aí que resolvi esticar as linhas pensando no que mais poderia ser desejado. Quem sabe o mundo estivesse precisando de mais paixão. Não por suscitar os excessos ou desalinhar os freios. Mas para que as pessoas se sentissem mais implicadas no que fazem, no que acreditam, no que esperam de mudanças. Era isso – o mundo precisava de mais presença, de mais mãos-à-obra. Ou talvez não seria de mais olhar, de mais encontros? Temos nos tornado invisíveis ao outro, ou estamos fazendo dos outros invisíveis, você também não tem notado isso? Pensei em tantas outras coisas para atualizar minha lista de votos de ano novo... Todas concorreram com igual relevância para ocupar aqui seu lugar, mas para que não virassem mais uma palavra entre tantas, preferi eleger apenas uma. Meu desejo, então, é que esse ano novo seja de menos drama. Não falo das tristezas sinceras que, como todo ano, nos surpreendem sem que possamos esquivar. Essas precisam ser vividas, sentidas, pra que um dia sejam lembradas sem ferir demais. Me refiro aos dramas quase de novela, uns roteiros mal escritos que às vezes insistimos em atuar. As famosas picuinhas, as intrigas, as torres de babel feitas de isopor, erguidas sobre nada e exibindo uma falsa imponência. Isso, por incrível que pareça, exige grandes investimentos para serem mantidas e sempre acabam por desperdiçar um tempo e uma energia grande da vida. Então, para encerrar, aqui vão meu votos: em 2010, desejo a todos menos drama em suas vidas. E feliz ano novo!

foto: Google imagens