Assisti, no fim do ano passado, um documentário que acompanhou a vida do escritor José Saramago e de sua mulher, Pilar del Rio, recolhendo cenas cotidianas ao longo de quatro anos. Numa delas, Saramago aparece lendo a dedicatória de várias de suas obras, todas oferecidas à Pilar, aquela que “ainda não tinha nascido e tardou a chegar”, que o “agarrou pela gola do casaco e não [o] deixou cair ao poço”, “os dias todos”, a “[sua] casa”, o [seu] pilar, “até o último instante”. Mario Quintana disse certa vez que o mais difícil da arte de escrever é quando se tem que redigir essas linhas. Talvez por isso alguns autores prefiram suprimi-las, quem sabe para isentar-se do dilema de escolher um homenageado ou porque este já se sabe e torna desnecessária uma declaração escrita. Mas o fato é que elas costumam ficar esquecidas de atenções, desaparecendo na rapidez com que pulamos as primeiras folhas para chegar ao início da história. O que os apressados acabam perdendo é a página onde o autor mais fala de si - é o que penso sobre a dedicatória. É provável que os nomes que lá apareçam sejam completamente estranhos para nós. Mas eu imagino que a timidez daquele trecho, recolhido no canto do largo espaço em branco, esconde tantas histórias que poderia render o próprio livro. Também gosto de ler a dedicatória que amigos, familiares, companheiros, amantes deixam nas contacapas. Não foram eles os autores da obra, mas os que pensaram em alguém e por isso oferecem-na como presente. Algumas são verdadeiras cartas, declarações apaixonadas, desejos de vida nova, de feliz aniversário, notas de esperança, palavras de despedida. O sebo é premiado dessas pequenas confidências, desses segredos sussurados que não se preocuparam se alguém podia ouvir. Eu já fui capaz de pegar um livro de volta da estante de uma amiga, do qual nunca passei da dedicatória, apenas porque esta havia sido escrita para mim. É ainda melhor guardar essas linhas quando sabemos das tantas histórias.
"Hoje ganhei o meu dia. Porque uma menina me perguntou: 'O senhor pode botar uma dedicação nesse livro?' Escrevi, então, sinceramente: ´Para a Heloisa Maria, com toda a minha dedicação'."
Mario Quintana
2 comentários:
Lu, sabe que eu sou meio viciada em ler dedicatórias de dissertações, monografias, etc... Acho que realmente é ali que você conhece o escritor, através daqueles que lhe são importantes. Legal teu texto!
ps. Eu havia perguntado pelo Sobrescrita, mas antes era o Predicativos do Sujeito! rsrs... Quanta mudança hein! E cada vez mais linda!
Bjão!
Oi, Lu!
Caramba... nunca tinha pensado nisso... Mas é como vc falou... as dedicatórias são a parte que mais revelam sobre a vida do autor.
Parabéns pelo texto! Bjs
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