sábado, 29 de março de 2008

Na cara do gol

Fazia tempos que eu não ouvia meu pai falando um palavrão. Tentei puxar pelos fios da memória isso que para nós era um grande evento, mas fiquei apenas com um bom passeio pelas histórias do passado. Os carimbos com o polegar pintado de hidrocor nas paredes brancas da reforma, a bicicleta sem freio morro abaixo e meu irmão entalado numa janela, as brigas no colégio que se estendiam para depois da hora, os gessos no pé, os pontos na testa, os três filhos e as muitas idéias de merda (com o perdão do termo) que genialmente nós tínhamos, e nada, nada dos palavrões do meu pai. Isso não nos isentou das intermináveis horas do sermão arranhado que ele fazia quando resolvia brigar, nem das horas de um relógio que andava pra trás contando os minutos do castigo, nem de vez ou outra uma chinelada com lágrimas doídas. Mas palavrão, assim, cru e sincero como tem que ser, disso eu não lembrava.
Foi quando, numa dessas visitas ao Rio de Janeiro, estava lá anunciando na rede Globo o glorioso jogo do mengão na Libertadores. E lá fomos nós ver o maraca com toda a sua imponência vestido de vermelho e preto. Meu pai contava e lembrava do tempo que o flamengo fez a torcida que tem hoje, do tempo que futebol se jogava com malícia e não com brutalidade, e dos shorts, dos micro-shorts da década de 80 - mas esta foi uma lembrança minha. Minha mãe tem uma versão um pouco mais dura dessa época, pois enquanto meu pai partia nas caravanas improvisadas rumo ao maraca, ela ficava em casa, com três crianças cheias de idéias de merda. Mas o Zico era o Zico, estava justificado.
Apito do juiz, começo de jogo e desde então foram tantos palavrões que saíram do vocabulário aureliano de meu pai que ainda em meus vinte e poucos anos nunca pensei que iria viver para testemunhar tamanho desabafo. Também, haveremos de concordar, nenhum estrago na reforma poderia ser tão grave, nenhuma nota do colégio haveria de ser tão irrecuperável, nenhum machucado no joelho seria tão dilacerante, quando aquele chute perdido na cara do gol.