Uma vez ouvi de uma amiga, depois de perguntar-lhe como haviam sido as tão almejadas férias, que ela não via a hora de voltar ao trabalho. Não que trabalhar fosse um prazer vital ou inevitável – a essa amiga certamente agradaria uns bons dias de acordar às 09:30 para pegar o finalzinho do programa da Ana Maria Braga e pensar nas receitas que poderia fazer. Ou não. E depois pensar o que fazer no resto do dia. Ou não. Mas o fato é que toda vez que saia à rua sentia-se quase culpada pelos 30 dias corridos que lhe asseguravam as leis trabalhistas. O olhar da moça de salto alto e terninho, com quem dividia o banco do ônibus e para quem desculpava-se pelo transtorno de passar com uma cadeira de praia e um guarda-sol, era quase uma arma branca a matar-lhe silenciosamente. Deixou de passar o protetor solar porque seu cheiro inconfundível atraía de longe olhares ainda mais inquisidores. Não se irritava mais com as moças do caixa que não respondiam ao “boa tarde”, afinal, estavam ali trabalhando desde sei lá que horas, enquanto ela acordava às 09:30 pra pegar o finalzinho do programa da Ana Maria. Quando percebeu um sorrisinho irônico no jornaleiro, jurou que jamais passaria novamente por ele com roupa de ginástica ao meio dia de uma terça-feira. Chegou a perder alguns sábados, na confusão que as férias fazem no nosso calendário, se permitindo sair apenas depois das seis da tarde. E quando finalmente voltou a programar o relógio para despertar às seis da manhã é que, pela primeira vez em 30 dias, pôde descansar. Sustentar o estar de férias num cotidiano de trabalhadores por todos os lados é praticamente um trabalho de análise. Essa semana o risinho foi do meu porteiro, que por mais dois dias não me perguntava quando é que o raio dessas férias iriam acabar. Risinho com satisfação e um breve companheirismo, do “bem-vinda de volta à população que tem todos os dias os sonhos interrompidos pelo barulho do despertador”. Difícil foi sentir o cheiro de protetor solar no ônibus até chegar ao trabalho – que vinha de algum desocupado, certamente.

4 comentários:
Eu, honestamente não entendo gente assim. Mentira, entendo sim. é a galera que acha o ócio um dos 7 pecados. Mas eu me dou bem com meus pecados e por isso me surpreendo com as pessoas se culpando por estarem bem. "culpando por estarem bem", aliás, deve ser um dos maiores paradoxos da nossa vida moderna. Só deve perder pro imperativo de ser livre.
Seja como for, as férias são poucas, se a senhorita quer saber.
E cheiro de protetor solar é uma covardia enorme.
adorei!!
hahaha Adorei o texto, Lulu! E não me lembro de ter sentido a culpa dos 30 dias de férias! Não as tenho desde que entrei na faculdade. Mas, meu trabalho não me pede roupas bonitas, e tenho as tardes livres por trabalhar nas manhãs e noites, e quando passo pela rua ou entro no ônibus nesse horário, me sinto culpadíssima por estar no meio do dia, indo pra casa, ou simplesmente de estar na rua! Os olhares são de fato inquisidores! E protetor solar, passo todos os dias a caminho do trabalho! Isso ae deixou de ser sinônimo de praia há muito tempo, use sem pudor!!! Cuide-se!
Lendo o comentário do Vitor, me lembrei de uma história! No meio da faculdade, minha mãe achou que eu tava passando por uma fase de depressão, ou melancolia, sei lá, alguma coisa assim (de fato, estava me emburacando em alguma parada), e me levou ao psiquiatra (pelo simples motivo de ter sido casada com um, foi o profissional que lhe ocorreu). E a fala dele pra mim foi essa: "Menina, você precisa ficar a toa, sabe? Deitar no sofá, não pensar em nada!" Recomendações médicas! O ócio é saúde.
Muito bom, Lu! Eu lembrei da primeira noite que eu cheguei em casa de manhã em plena quinta feira. Entrei no busão daquele jeito, e tinha uma senhorinha indo trabalhar. Quis afundar minha cara no chão! rsrsrs...
Hj eu bem que faria isso sem culpa, afinal, são só 2 anos sem férias! :(
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