quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pela janela

Há alguns anos, tive a alegria (quando já começava a exigir um mínimo de decência por parte do destino, depois de completar quase uma peregrinação jesuíta pelas ruas do Rio de Janeiro) de encontrar um cantinho bom à beça pra morar. Nele cabiam meus quatro móveis, um violino frustrado, uma dúzia de livros e outra de cds adquiridos em pequenos e consentidos furtos. Como se não bastasse (e, para mim, bastava), ganhei uma vista espetacular (e por ela sou eternamente grata). Só não digo mais pra não deixar escapar que na minha casa venta de despregar as fotos do mural e acabar matando de inveja todos os meus três leitores. A janela, como ouço dizer meu pai todas as vezes que me visita, é sem dúvida a melhor parte da casa. Mas confesso que nos últimos tempos ela tem sido mais é uma porta de entrada, um convite a participar da agitada pulsação da cidade – a qual, antes que vocês esperem das próximas linhas um poema de Drummond, é perturbadora. Nunca ouvi tanta moça de salto alto perder a pose por causa de namorado ciumento, que arruma confusão e só a desfaz aos berros da dama e à sirene da polícia. Ou outros berros que servem para escapar dos assaltos. Ou as conversas que aumentam de volume conforme as latas de cerveja, os caminhões que passam por aqui buzinado às 6 da manhã, umas bombinhas que eu ainda não entendi nem da onde vem, nem quem joga e, principalmente, por que motivo, o asfalto sendo picotado para recapeamento, a obra que não termina há dois anos, a placa de ferro que cobre o buraco da obra e supera os decibéis da britadeira toda vez que um carro passa sobre ela. Eu participo da pulsação da cidade, da pulsação barulhenta da cidade, que por uma intrigante e infeliz propagação acústica vem parar do lado na minha cama, no meio do meu quarto. Ou sala. Sala-quarto. Conjugado, assumamos. Eu, que sou uma adoradora de Morfeu, devota e congregada, participo da pulsação da cidade. Que, como já diziam, não pára, só cresce. Tem uns momentinhos que a gente precisa é de silêncio, só disso. Mas quando eu tiver que deixar essa janela, quer dizer, esse apartamento, certamente será com o coração partido. Há também tanta coisa bonita que a gente vê aqui de cima, que um dia eu separo um post só pra dizer delas. E tem ainda as vizinhas queridas, os porteiros inigualáveis e a toda a pulsação que vem daqui de dentro. Esse dia será de silêncio, mas de um silêncio um tanto triste.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Desocupados

Uma vez ouvi de uma amiga, depois de perguntar-lhe como haviam sido as tão almejadas férias, que ela não via a hora de voltar ao trabalho. Não que trabalhar fosse um prazer vital ou inevitável – a essa amiga certamente agradaria uns bons dias de acordar às 09:30 para pegar o finalzinho do programa da Ana Maria Braga e pensar nas receitas que poderia fazer. Ou não. E depois pensar o que fazer no resto do dia. Ou não. Mas o fato é que toda vez que saia à rua sentia-se quase culpada pelos 30 dias corridos que lhe asseguravam as leis trabalhistas. O olhar da moça de salto alto e terninho, com quem dividia o banco do ônibus e para quem desculpava-se pelo transtorno de passar com uma cadeira de praia e um guarda-sol, era quase uma arma branca a matar-lhe silenciosamente. Deixou de passar o protetor solar porque seu cheiro inconfundível atraía de longe olhares ainda mais inquisidores. Não se irritava mais com as moças do caixa que não respondiam ao “boa tarde”, afinal, estavam ali trabalhando desde sei lá que horas, enquanto ela acordava às 09:30 pra pegar o finalzinho do programa da Ana Maria. Quando percebeu um sorrisinho irônico no jornaleiro, jurou que jamais passaria novamente por ele com roupa de ginástica ao meio dia de uma terça-feira. Chegou a perder alguns sábados, na confusão que as férias fazem no nosso calendário, se permitindo sair apenas depois das seis da tarde. E quando finalmente voltou a programar o relógio para despertar às seis da manhã é que, pela primeira vez em 30 dias, pôde descansar. Sustentar o estar de férias num cotidiano de trabalhadores por todos os lados é praticamente um trabalho de análise. Essa semana o risinho foi do meu porteiro, que por mais dois dias não me perguntava quando é que o raio dessas férias iriam acabar. Risinho com satisfação e um breve companheirismo, do “bem-vinda de volta à população que tem todos os dias os sonhos interrompidos pelo barulho do despertador”. Difícil foi sentir o cheiro de protetor solar no ônibus até chegar ao trabalho – que vinha de algum desocupado, certamente.