Desde muito cedo
entendi que histórias precisavam ser ouvidas. E me prontificava a escutá-las
mais por gosto que por entendimento, porque achava bom o jeito que cada um
contava. O jeito que se conta uma história é assim: único e intransferível. E
mesmo que se conte a mesma, não é mais a mesma por narradores diferentes. Nunca foi.
Porque o viver também é único e intransferível. E era pelas histórias o
meu fascínio, pois elas me contavam que as pessoas já tinham vivido de um tudo
e eu nem imaginava que esse tudo existia. A escuta me levava a outros mundos. Tenho amigos que pelos quais sou consentidamente seduzida, pela
habilidade que têm de transformar as coisas em acontecimentos. Aquelas coisas
que de tão corriqueiras nem chegam a ser anunciadas? Pois dessas saem histórias incríveis. O gosto pela escuta também virou trabalho, que lhe exigiu muitos estudos e afinações. Se tornou uma
escuta-intervenção, nas suas sutilezas, aberturas, responsabilidades. Ouviam-se
também outros enredos, pinçados dos emaranhados do contar. De vez em quando
paro pra pensar sobre as tantas histórias que já me partilharam. Algumas de se
duvidar a crença, não por desconfiança, mas pelo grau de surpreendimento que a
gente fica depois de testemunhar a vida. Uma autora chamada
Jeanne Marie Ganegbin disse algo muito interessante sobre resgatar essas
histórias do passado, de um jeito onde haja espaço para que sejam contadas
pelos suspiros longos, pelos silêncios, pelas hesitações e solavancos. Ouvir as histórias sem apertá-las prontamente num sentido ou julgamento é algo que dificilmente fazemos, mas é aí que elas aparecem em toda a sua grandeza. Nos ensinam.