Eram 6:15 da manhã quando meu pai começava a nos acordar para irmos à escola. O cheiro do café, o barulho da cozinha e o show do Antônio Carlos completavam o ritual de todos os dias. E como em todos os dias, era às dez pras sete que eu levantava, já na última e irrevogável convocação para deixar os braços de Morfeu. Mas antes disso eu ficava ali, espreguiçando, descansando mais um pouco nas cochiladinhas de cinco minutos, pensando de olhos fechados na vida e no dia a começar. E quem me dizia as horas era a voz que saía do radinho velho sintonizado na AM. Quando começava a música do Martinho, “e a criança já foi sonolenta pra escola...” (e o Antônio Carlos dizia – “e vamu que vamu”) eram 6:30, e quando Zora Yonara entrava com a previsão de um signo que nunca era o meu, o café já precisava estar tomado e o uniforme vestido. E todo dia meu pai ouvia aquele programa, e todo dia, naquelas horas exatas, o Antônio Carlos dizia a mesma coisa, com uma ou outra pequena arrumação diferente. Eu sempre me perguntava por que ser espectador de algo do qual já se conhece cada frase que será dita. Mas hoje penso que as rotinas emprestam uma constância na vida e aí podemos fingir que sabemos o que irá acontecer. A verdade é que nunca sabemos. Às vezes somos presenteados com boas surpresas, noutras perdemos nossas certezas como num jogo de azar. Mas a graça das não-garantias da vida talvez seja exatamente essa: tudo pode acontecer. Se Guimarães Rosa, cujas palavras merecem um grande respeito, disse tantas vezes que ‘viver é perigoso’, acho que é porque ele já tinha constatado essa soltura das coisas por vir. Só que aí vamos criando uns portos que seguram nossas derivas. Os meus estão lá, sempre jogando o bote salva-vidas quando o mar fica agitado ou compartilhando os dias de sombra e água fresca. “Never know what´s coming for you” – foi o que sabiamente a mãe do Benjamin Button disse pra ele na minha tarde passada. E entre saberes e surpresas, vamos nos agarrando às boas rotinas e esperando o que de melhor virá. O bloco do Antônio Carlos, por exemplo, foi mais uma vez um dos melhores do carnaval, com a tradicional fidelidade às marchinhas e as fiés tradicionais senhorinhas que sempre acompanham o bloco. Mas por isso eu já esperava – era garantido.
7 comentários:
passei por aqui!
beijo,
Rita
Ritinha, volte mais vezes!! Bjs!
Ai, mas essa felicidade (ou serenidade) constante me dão vontade de esmagar um pescoço...
Não ligue, estou pilhado pelo meu próprio rebento de hoje.
E como não pretendo falar de mim no SEU blog, falo sobre o post: é inacreditável que tanta coisa possa acontecer antes de se ir para a escola. Sério. Isso é impossível. Porque ninguém que se espreguiça, toma café, ouve rádio... ouve rádio! pessoas que ouvem rádio não tem compromisso! Certamente você chegava atrasada.
Beijos.
Estou "me guardando pra quando o carnaval chegar", mas ele tarda.
Ahahahahahahahaha
Vitor, eu chegava atrasada porque adoro dormir mais cinco minutinhos, não porque ouvia rádio!
Tô tentando ler seu rebendo, mas o arquivo não abre, me manda de novo! E fala de você, fala da sua irritação com essa serinidade constante (que eu ainda não entendi onde vc achou), pode falar: seus comentários são sempre bem-vindos, até quando a Raquel dorme de calça jeans! :)
Herculano, obrigada pela visita e pelo recado!
Oi, Lu! Ah, também quero mudar de nome!!! rsrsrs...
Seu relato sobre o antes do levantar da cama me lembraram muito das minhas manhas e manhãs com meus avós. Agora que não tem mais ninguém preparando o café ou ouvindo rádio de manhã aqui em casa, não percebo movimento algum antes de "acordar". E sempre chego atrasa!
Ah, a rotina... Reclamo bastante dela, mas paradoxalmente é confortável tê-la e parecer saber das coisas.
Lu, você escreve com uma clareza tão gostosa de ler... Parabéns!
Carinho,
Isa.
Isa, sou eu quem gosta de ler seus textos - tão bonitos e bem escritos!! Um beijinho pra vc!
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