quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Perdas

A vida nos propõe exercícios diários daquilo que nos é mais difícil. Pra mim, isso está no perder. Talvez por isso, como aconselha aquele poema de Elisabeth Bishop, eu perca tanto e um pouquinho a cada dia. Nunca sei onde guardei aquele papel, e a sacola do presente que eu esqueci pendurada na cadeira do bar, e o compromisso que ficou perdido em alguma anotação perdida como ele. Esqueço coisas pelos cantos e se elas também me esquecerem, podemos vir a nunca mais nos encontrar. E nessas perdas cotidianas fui inventando jeitos de lidar com isso, fui me desprendendo. As coisas que me são essenciais, refaço caminhos, reencontro; mas as que de fato se foram me conformo antes de virarem uma chateação maior. Perco um pouco todos os dias. Mas a arte de perder é um grande mistério. Ainda não aprendi a me desfazer das relações que foram caras, e isso traz um sofrimento tão doído quanto cansado, por pedir de mim um tempo que me excede. Aprendi a perder as coisas, mas ainda não sei perder as pessoas. Talvez eu nunca aprenda, mas a cada vez saio mais convencida de que o que importa é cuidar do tempo que estamos na vida de alguém. Fazer desse tempo o melhor, cuidar de trocar o melhor de nós, ser gratos pelos tantos ganhos. Porque no fim estamos mesmo e sempre de passagem, em tempos breves ou mais descansados.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Dilaceramento

Eu nunca vivi uma situação de tortura, não posso imaginar como seja. Não digo que seja condição passarmos por uma experiência para compartilhar algo dela, mas os relatos e filmes que me aproximaram disso deixaram aqui um tamanho dilaceramento que me escapa pensar o que seria vivê-la. Recentemente, li alguns depoimentos de mulheres que sofreram tortura no período da ditadura militar brasileira e de novo terminei o texto em pedaços. O que mais me tocou dessa vez foram as crueldades que eram exercidas sobre o feminino. Lembro de uma delas dizer que uma das maiores humilhações era se despir diante dos olhares perversos dos torturadores. Os filhos eram usados em chantagens, expostos à visão do corpo machucado de suas mães ou eles mesmos sofreram violências. Partos sem assistência, bebês afastados logo depois de nascidos, abortos provocados por choques elétricos. E no corpo que era tomado, violentado, submetido, avaliado, xingado, chantageado ficaram as marcas desse momento sombrio da nossa história, que por tanto tempo foi calado. Eu nunca vivi uma situação de tortura, não posso imaginar como seja. Mas compartilho a dor dessas mulheres. Quem hoje pode contar essa história conseguiu escapar com vida, mas penso que foi no depois que a vida precisou ser cotidianamente refeita. Me surpreendo e assusto quando penso nas crueldades que o humano ainda é capaz de fazer. Me surpreendo e aprendo com a força que o humano ainda é capaz de criar. Me surpreendo e preocupo ao dar conta que a tortura não é prática apenas de ditaduras passadas.