pegando emprestado das conversas com Helena e Alininha
- Vai saindo do carro, isso é um assalto!!!
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- Moço, vocêtempenademim! Aindatôpagandoprestaçãodessecarro,numtemseguro,tôcomdoisfilhos
prapagarescola,agoracêimaginaeuficarsemcarro,comoéquevoulevarascriança,
eoquequemeumaridovaidizer,moço,cênãosabecomoéquemeumaridoé,ocasamento
játápelaspontas,aimeuDeus,meuproblemadecoração,aimeuDeus,tôtendopalpitação
denovo,achoqueuvoupassarmal,moço,tenhotantacoisaprapagar,moço...
- Aí, a senhora é cha-ta-pa-ca-ra-lho, hein...
E foi embora.
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- Olha só, pode até levar o carro, mas não vai levar minha carteira, não. Tem meus documentos aqui, e só isso, tá vendo?? Dinheiro nenhum!! Aproveita e some com esse carro daqui, leva pra bem longe, porque o seguro ainda vale mais que essa joça!
- Pra sumir com o carro é 100 reais...
- O quê?? Cê ta de sacanagem com a minha cara... 100 reais?!?! Acabei de te mostrar a carteira, não tenho dinheiro, tô dura, tá achando o quê?
- Que isso é um assalto, dona...
- Não tenho 100 reais!!!
Dois dias depois, o carro apareceu, na mesma rua.
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- Deixa eu só tirar as crianças!! João, sai do carro, sai do carro... Moço, você não deixa eu pelo menos eu levar essa bola da Copa? Nem preciso pegar as mochilas, é só a bola... Ele vai chorar até amanhã por causa dessa bola... Vem João, vem!
- Agiliza aí, agiliza aí!!! E deixa a bola!!
- Mas pelo menos anda devagar nessa rua, tem escola aqui, tá na hora da saída... E vai com Deus!!
Mais a frente, o vidro abriu e jogaram a bola. As mochilas? Apareceram no quintal do prédio, no dia seguinte.
imagem: www.sergueicartoons.com
terça-feira, 20 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Coceira
Assim que fui emancipada do quarto coletivo, ganhei uma cama, de madeira maciça, e uma escrivaninha, de um material não tão nobre, mas que me serviu por anos para fazer as lições de casa e guardar a coleção dos manuais Disney. Essa fiel escudeira me acompanhou em incontáveis mudanças, não apenas nas passagens de série ou na renovação dos títulos na prateleira, mas nas mudanças que de fato meu quarto sofria quase que semestralmente. Às vezes mensalmente, semanalmente ou ainda diariamente. Eu cansava quando as coisas ficavam muito tempo no mesmo lugar e decidia por uma nova arrumação. A escrivaninha andou por tantos cantos, paredes, posições, que num dia triste de móveis parados não resistiu e desmontou. Aí veio um armário maior, feito da tal madeira maciça, à prova dos meus intempestivos desejos de mudança. Mudar tudo era quase fazer um dia 1 de janeiro no meio da rotina de agosto. Era o frescor do novo, da possibilidade do novo, das percepções do novo. Pensar que as coisas eram de um jeito apenas porque as organizamos assim e, por isso mesmo, podíamos organizar de outro, era uma boa lembrança que essas experimentações me traziam. Depois vieram as tintas, que me economizaram o arrastar de escrivaninhas. Mas esse imperativo de mudança, quando acho que sossega, solta como quem não quer nada uma formiguinha para andar no meu pensamento. E lá vem outra vez um monte idéias a ficarem coçando na cabeça. Mas resta dessa história dois grandes desafios: ver o que há de novo no mesmo e também viver a permanência das coisas. A cama e o guarda-roupa ainda estão por lá.
foto: lu franco
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