domingo, 29 de novembro de 2009

Coisa boa


Deslumbramento, Cochichando, Cuidado violão, Devagar e sempre, Lamentos, Paciente, Receita de samba, Genioso, Um a zero, Quem é bom já nasce feito, Carinhoso, Flor de abacate, Andre de sapato novo, Fala baxinho, Já te digo, Ingênuo, De coração a coração, Ternura, Jamais, Inimigo da Onça, Saliente, Direitinho, Deixe o breque pra mim, O disco enguiçou, Cabecinha no ombro, O canário e a tuba, Castiguei, Barril de Chope, Naquele tempo, Os oito batutas, Sinuosa, Degraus na vida, O trombonista romântico, A César o que é de César, Doce de Coco, Enigmático, Pedacinhos do céu, Sonoroso.
Chorinho é tão bom que até os títulos das músicas soam bem...

foto: lu franco

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pense nisso

Têm muitas coisas que me assustam nesse Brasil. Os atos de violência que beiram a perversidade, a miséria que infringe os direitos mais fundamentais da vida, a ganância que atropela milhões de pessoas para esvaziar outros milhões dos cofres públicos. E creio que isso assuste a todos, não só a mim. Contra essas terríveis evidências, formamos facilmente um grande grupo. Mas há ainda muito mais com o que se preocupar. Por trás dessas práticas chocantes, existem discursos perigosíssimos, disfarçados em boas palavras e muito mais fáceis de enganar. E com eles é preciso ter atenção em dobro.

Estava trocando de canais agora pela manhã quando vi na TV senado uma discussão sobre o projeto de lei que defende que a discriminação contra homossexuais (PLC 122/06) seja entendida como crime. O senador Magno Malta (PR-ES) se posicionava em nome de outros tantos contra o projeto, alegando que teria que rasgar a Bíblia se concordasse com aquilo, pois estaria indo contra as palavras de Cristo. Disse que todos merecem respeito, as crianças pelas quais tanto luta, os nordestinos em São Paulo que sofrem discriminação, os homossexuais inclusive, apesar de não concordar com esta orientação. Mas que falava em nome de toda a sua banca: estavam de cabeça feita e iriam derrotar o projeto. Não entendi. O projeto não é sobre homossexualismo, mas sobre discriminação – justamente aquela que ele condenou. Usar um Deus que se crê soberanamente bom e justo como argumento é ainda mais contraditório – mas deixemos essa polêmica para outra ocasião. A senadora Fátima Cleide (PT-RO), que apresentou um substitutivo do projeto com algumas modificações, pediu a palavra, mas o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Cristóvam Buarque (PDT-DF), adiou a discussão para conseguir aprovação de outro importante projeto, ‘já que estava sendo muito difícil conseguir quórum para votação’. Foi lamentável vê-lo pedindo encarecidamente ao senador Mão Santa (PSC-PI) que não fosse embora, receando perder o número mínimo de senadores. Ele foi. Mais coisas que me assustam. Depois, a senadora Fátima lembrou das inúmeras mortes motivadas por pura discriminação, e reafirmou que o projeto estendia a punição ao preconceito contra outras minorias. E por preconceito entende-se a privação daqueles mesmos direitos oferecidos a outras pessoas, como passar num processo seletivo, ter acesso aos diversos estabelecimentos, demonstrar afeto em público. É uma questão de respeito aos direitos humanos. Título, inclusive, que dava nome àquela comissão. Por ironia do acaso, deve ter sido.


foto: Google imagens

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Até


Eu sempre fico triste quando preciso me despedir. Não nas despedidas corriqueiras, nos “até logos”, porque nestes ‘o tempo se conta em dias, não em anos’. Mas quando o tempo anuncia que a tarde será uma longa estação de espera, aí sinto meu coração apertar. Ainda não descobri como se faz isso – dizer adeus sempre me convoca a uma certa descompostura, a uma desmedida que a cada vez tento dosar melhor. Mas não é algo que seja fácil de se fazer, isso não é mesmo. Saber que algo se encerra, ter que escutar a ausência são tarefas árduas, mas que de alguma forma precisamos dar conta. A minha conta costuma ser uma integral das mais complicadas, onde se faz e refaz os cálculos, discute-se os resultados controversos, inventa-se uma outra teoria. É um processo que leva tempo, aquele tempo doído que deixa as tardes longas. Mas se é assim tão difícil perder, é porque os encontros foram bons, produziram bons afetos, deixarão boas lembranças. Vai ver que esta é a lição me cabe: senti-los como presença, não como falta. Finais definitivamente nunca foram a minha especialidade. Quem sabe um dia eu até



"Despedir dá febre".    Guimarães Rosa

foto: lu franco

terça-feira, 10 de novembro de 2009

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Deixou correr o dedo entre os livros da estante e destacou um deles para fora da prateleira, fazendo-o equilibrar-se num de seus vértices. Hesitou por um instante em retirar dali o punhado de folhas envolto pela capa de cores indefinidas – talvez não quisesse ler. Mas precisava ocupar-se de algo e encontrou nas cores da capa as mesmas indefinições que a faziam sofrer. Passou com indiferença pelo que diziam da publicação, do livro, da autora, do que diziam sobre o que diziam, e encontrou no início da história uma vírgula. A história começava com uma vírgula. Pensou que estava assim, vírgula. Depois de tantos pontos curiosos, risonhos, enfáticos, acentos, estava assim - vírgula. Avançou linhas à frente, mas todas diziam do que não queria saber. Parecia que o mundo não tinha outro assunto. Retornou a histórias antigas e ainda nelas encontrou o mesmo enredo. Esforçava-se por vasculhar nas palavras alguma que pudesse dar um ponto final. Mas não tinha palavras, era vírgula. Era pausa, era silêncio, era lágrima. Então era isso, então...

"...faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos (...) faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta..."
                                                                                                       Clarice Lispector

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ali



Ainda faltavam dias para chegarmos, mas parecia que eu já havia estado lá. Eram tantas fotos, histórias e expectativas sobre aquele lugar que ele me era quase familiar. Mas ver ao vivo os primeiros raios de sol cortando as nuvens e iluminando Macchu Pichu foi uma experiência que me deixou nua de palavras, e certamente superou tudo aquilo que eu podia imaginar. Passamos um dia percorrendo os corredores de grama verde e as impressões que ainda estavam tão vivas da civilização Inca. E, num intervalo entre tantos encantamentos, me distraí com dois meninos que brincavam por ali. Eles concorriam quem seria capaz do salto mais alto, pulando num dos imensos degraus que contornavam a cidade. Iam e voltavam, repetindo a cada vez com maior ousadia. Não estavam preocupados com as explicações dos guias que se ramificavam nos mil patamares, não carregavam o peso de história nenhuma. Eles brincavam, desdenhando das tantas expectativas com que eu havia chegado ou da responsabilidade de estar visitando umas das maravilhas desse mundo. Na ânsia de aproveitar o máximo, eu carregava também a possibilidade de não fazê-lo – e os passos e olhares ficavam permeados pelo tanto que significava pisar ali. Os meninos pouco se importavam com tudo aquilo, apenas aproveitavam.
Lembrei disso quando conversava com uma amiga sobre o passar dos anos que já começa a nos preocupar. Principalmente nessas épocas de aniversários, o assunto se torna quase inevitável. Ela me contava de quando era criança e andava pelas pedras da cachoeira, saltando de uma a outra sem nenhum receio, e não entendia por que a mãe se desequilibrava tanto para fazer o mesmo caminho. Hoje não tem mais essa certeza nos pés, não se lança com tanta facilidade. E então chegamos a uma conclusão de domingo de tarde em bar de esquina: ficar velho é ter medo de se lançar. Claro que os anos vão trazendo um conhecimento que só ele é possível trazer – e também há aí importantes conquistas. Mas certamente os passos vão ficando mais cuidadosos e as experiências mais cheias de receios. A gente pensa tanto que vai deixando de vivê-las, de sentir suas intensidades, de se entregar um pouco ao que está acontecendo. Ficar vendo criança brincar é ótimo para nos lembrar disso – parece que o mundo pára pra brincadeira acontecer. Cada reinicío é como se fosse a primeira vez, é sempre uma novidade. E aqueles dois meninos me fizeram deixar a bagagem que eu carregava sobre Macchu Pichu para levar apenas o que importava dali, a meu próprio modo. Resgatar o frescor das experiências é tarefa que se deve exercitar a todo instante. Mas também é certo que cada experiência traz grandes responsabilidades e... opa, eu e meus pensamentos de novo...

foto: lu franco