Eu estava de passagem pelo Largo do Machado quando fui parada por uma frase. "Foi muito, muito sofrimento..." Até aí não imaginava o que poderia ter deixado aquele senhor de expressão tão triste, com a postura recolhida que carregava o peso do dito sofrimento. Quase cedi um gentil abraço, sem me preocupar se não nos conhecíamos. Mas depois vi que ele já estava sendo acolhido pelos amigos de praça, que descansavam nas mesinhas de pedra com um radinho de pilha grudado no ouvido. "Foi sim, muito sofrimento...". Achei que seria gentileza demais abraçar a todos e recuei no impulso fraternal. Mas maldisse em pensamento aquele que estaria penitenciando os singelos velhinhos. Que crueldade, meu Deus! E quando comecei a me questionar “em que mundo nós estamos”, fui percebendo que o causador de tamanho sofrimento não era um, mas onze. Dezoito, na verdade, contando com o banco de reservas. E mais um técnico que recebe uma fortuna pra fazer um trabalho de merda – palavras do velhinho. Eles falavam de futebol, e eu me indignaria por minutos atrás ter compartilhado daquela dor se ela não fosse tão verdadeira. O senhor estava tomado por um sofrimento sincero e cansado, de um coração calejado de fiel torcedor. Algo que talvez eu nunca vá entender. Como pode alguém torcer por um time, se ele é formado por jogadores que nunca vestem a mesma camisa por mais de um ano? E se aquele jogador do time rival que você tanto enche de injúrias, pode estar no seu time amanhã? Já entendi, apesar de não concordar, a regra do impedimento, mas esse amor que faz o velhinho sofrer, às quartas e domingos – não, isso não entendo. Pelo menos, na minha ingênua ignorância, o futebol me rende boas risadas, de segunda a sexta, às 12 horas, no RockBola.
foto: lu franco