quarta-feira, 18 de maio de 2011

Percepções

À espera do cinema, procurei algum lugar pra sentar. Havia um banco no centro da sala de exposições e foi ali que decidi gastar os minutos que estavam sobrando. Olhei as projeções que ocupavam as paredes, mas antes de assim percebê-las, me pareceram imagens congeladas, como uma fotografia. Da moça de vestido longo, posando de costas com as mãos cruzadas, víamos uma sombra imóvel. E somente se gastássemos ali uns minutos, percebíamos um piscar de olhos e um dedo levemente escorregar sobre a palma da outra mão. Mais adiante, um homem de rosto muito branco, cujo paletó servia de amparo a inúmeras borboletas. Ele mantinha-se estático. E talvez por causa de sua respiração, ainda que discretíssima, ou pela simples necessidade de mudar de lugar, uma borboleta voava e depois tornava a pousar. Aqueles vídeos-fotografia, para quem se deixasse levar, induzia a uma certa hipnose. Como por uma convocação da obra, os micromovimentos, que numa passagem mais rápida não seriam perceptíveis, ficavam por demais evidentes, e foi então que comecei a reparar no imenso trabalho a que o corpo daqueles artistas se submetia. Sustentar a imobilidade é um ato desafiador. E talvez mais que isso: está fadado ao fracasso. O interessante da arte é justamente poder brincar com o que parece impossível – ali, a vida parar. Mas quando se começava a acreditar nisso, um movimento acontecia. O corpo reclamava dormências, expandia e comprimia os pulmões, lubrificava os olhos, desequilibrava as pernas. E no limite da estagnação, vinha o movimento; quando tudo parecia estar congelado, reproduzindo o mesmo, alguma coisa acontecia, mesmo que imperceptível aos mais apressados. 

exposição: Robert Wilson

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