As palavras sempre foram a minha precisão. Uma urgência, um imperativo, uma necessidade. Uma ordem que ordenava meu caos e me ordenava à escrita. Escreva – isso é uma ordem. Aí comecei a encher cantos de páginas com parágrafos soltos. Todo caderno escondia em seu miolo algum pedaço de mim, o que me obrigava a conferir folha por folha quando já estava na hora de passá-lo adiante. Não podia ser descoberta, não nas confissões que fazia aos cadernos. E então vieram os festivais de poesia no colégio. Apresentar minhas palavras aos outros foi o verdadeiro mérito que as medalhas de latão honravam. Pela primeira vez, escrevia para ser lida. E as palavras deixavam de ser apenas minhas. Ganhavam outros contornos nas vozes dos colegas que as interpretavam, nos ouvidos dos pais que faziam a platéia do evento. Minhas palavras excediam minha escrita. E a promissora carreira de poetiza do ensino fundamental me incumbiu de uma importante tarefa, se não ouso dizer a mais importante, no circuito familiar: a Escritora Oficial de Cartas em Datas Comemorativas e Eventos Similares. Segundo domingo de maio, segundo domingo de agosto, aniversários, natais, vestibulares, entrevistas de emprego, cartas de boa viagem (o que se escreve muito na família) e uma criatividade que Deus só emprestou igual a Stanislaw Ponte Preta, para não que não terminasse por resumir tantas linhas às mesmas palavras. Não, não – momentos que são únicos merecem palavras inéditas. Que de inéditas não havia nada, ou será que cada escrita e cada leitura não as fazem inéditas de certa forma? Mais tarde, fui descobrir que são de palavras que somos feitos – de dizeres sobre nós. Que é difícil se desatar de certas palavras, que é preciso dizer, dizer mais, dizer de novo, para conseguir inventar uma versão melhor de nós mesmos. Nossas análises. E em todos os caminhos que eu seguia, lá estavam elas, as palavras. E o meu imperativo de escrever. E sedução da escuta. E a fascinação pelos discursos, pelas explicações inventadas do mundo, pelas histórias. Os livros e seus autores – tem gente que nasceu com a missão de dar bons nomes pras coisas e depois pôde morrer em paz. Mas também já encontrei outras gentes que dizem muito sem precisar falar. Esses são para mim um mistério. E nesses encontros, enquanto vou me deixando guiar por silêncios, sorrisos, gestos, expressões, proximidades, distâncias, vou também escrevendo sobre isso. Preciso escrever. Gosto palavrear. Mas estou aprendendo a gostar de apenas sentir, de experimentar uma outra leitura.Vai ver que aí estão as verdadeiras palavras inéditas.
domingo, 25 de julho de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Guloseimas
A primeira nota que chegou em minhas mãos, instaurando a era das mesadas, foi uma de cinco reais. Antes, o dinheiro costumava já ter destinatário certo: o dono da mercearia, que ajudava a escolher as batatas melhores, a moça da cantina do colégio, que nos dava a alegria dos quibes de forno nos dias sem merenda de casa, ou o próprio e legendário Seu Virgílio, figura inolvidável da minha infância, que ficava com as moedinhas barganhadas entre familiares em troca de balinhas de 1 centavo. Pra quem não viveu essa época de ouro, posso dar meu testemunho: já comprei balas a 1 centavo cada uma. Mas as mais gostosas e variadas costumavam ficar expostas nas docerias, estrategicamente situadas próximo à saída dos colégios. Cem gramas de qualquer uma delas, 7 belo, Soft, Big Bol, Dadinho, Maça verde, e por aí se estende uma lista infinita, custava apenas cinqüenta centavos. Isso dava a possibilidade de muitos saquinhos de bala para quem fosse dono de uma nota de cinco reais. E eu, inaugurando meu poder de compra junto com a nova moeda brasileira, era. Se tem uma coisa que posso dizer que fiz com maestria nessa vida, essa coisa foi comer bala. Não é algo sobre o que se conte méritos e creio que São Pedro tampouco resgate isso no currículo quando for hora de passar pro lado de lá. Mas dividi a satisfação de apreciar um bom caramelo que gruda no dente com crianças não tiveram a mesma sorte de uma mesada de cinco reais – e isso falo com orgulho. Uma das lembranças que guardo com maior carinho é de quando meu pai nos levava pra brincar no parquinho da praça, terminando o passeio no Harold Bomboniére, com suas vitrines expondo o colorido de mil e uma balas diferentes, das quais podíamos escolher a que quiséssemos. Hoje estou pagando um preço alto pelos investimentos desenfreados nos prazeres mundanos, mas nessa vida cheia tanta coisa amarga, um docinho é item de primeira necessidade. Toda criança deve ter direito ao cuidado, à educação, à saúde, à brincadeira e a escolher a bala que quiser. Todo adulto também. E ao fio dental, pasta sensitive e flúor depois, por favor.
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