texto construído com a preciosa contribuição da Laurinha
- Sei lá... A vida é assim mesmo...
- Fazer o quê?
- Mas vamos levando...
- Tem que ser, né?
- Pois é...
- Quando a gente acha que era isso, não era.
- Tudo tem seu tempo.
- É nisso que eu acredito.
- É que tem hora que... Só Jesus!
- Mas as coisas vêm, as coisas vão...
- Não tem jeito mesmo...
- Mas ó, fica tranqüila, tudo passa.
- Ah sim... é isso aí...
- É isso então, né?
- É isso sim.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Cinéfilos
Uma das coisas boas que aprendi com meu pai (e sobre isso poderia fazer uma vasta lista, mas atenhamo-nos aqui ao assunto do texto) foi gostar de cinema. E quando digo isto não me refiro apenas à apreciação de um enredo bem construído e encenado – e de preferência sem tiroteios -, mas ao fato de cultivar o saudável hábito de visitar as telonas. Lamentavelmente nossa singela Friburgo ficou por anos privada das grandes projeções, tendo a única sala transformada em um bingo, e só muito mais tarde pudemos ter de volta um cinema na cidade. E desse dia em diante apenas crescia meu bloquinho com as entradas das sessões, que eram vistas com a seriedade que ocasião pedia quando em companhia do meu honorável mentor. Fora isso eu fazia parte de um grupo que pouco respeitava a sacralidade daquela sala – o dos adolescentes. Mas a isso voltaremos mais adiante. O ritual de chegada começava cedo, tão cedo que precisei autenticar com a moça da bilheteria a informação de que nada adiantava chegar mais cedo que 20 minutos, pois não seria permitida a entrada. Mas logo que fosse possível, já munidos de um pacote de jujuba, nos dirigíamos à última fileira, nem muito na ponta, nem muito no centro, achando o lugar ideal para observar a chegada dos nossos companheiros de filme. E quando a experiência se repete, acabamos por formular hipóteses. Meu pai, ao longo de tantos anos de cinema, acabou por formular uma consistente teoria, traçando diferentes perfis (com diferentes efeitos) de expectadores. Há aquele grupo (que mencionei anteriormente e do qual não me orgulho de ter feito parte) de jovens entre 13 e 17 anos, que acabaram de sair da escola e que deveriam estar na praça de alimentação do shopping, onde as pessoas vão para comer e conversar. Pois o que fazem durante toda a exibição é isso: abrir pacotes barulhentos de bala e tentar impressionar a(o) gatinha(o) da série acima fazendo piadas e dando gargalhadas escandalosas. Mais de três jovens, portanto, é sinal de perigo. Mais de seis, mude de sala. Há também os casais, e com esses não há muitas preocupações As conversas correm baixinho até o apagar das luzes e, depois disso, já não nos cabe cuidar da vida alheia. O tipo que mais nos agrada é o verdadeiro cinéfilo, que não se importa de ir ao cinema sozinho, ou, quando acompanhado, é por um outro da mesma espécie, com quem partilha aquele entendimento e prazer. É o que chega antes, mantém o silêncio preciso e assiste os créditos finais para dar o tempo de sair de fato do filme, carregando aquelas impressões para muito além dali. E por aí se vão inúmeros perfis, que sem dúvida seriam melhores explicados por aquele que assina a autoria das observações. Deixo então esse trabalho como uma tarefa para uma próxima crônica, que irá reavivar o blog que tem tantas histórias interessantes já registradas e ainda muitas a receber. Depois da campanha “Taí, entre na natação”, começamos hoje a “Gil, volte a escrever no blog”, porque certamente há muito o que contar.
Visite: prolegomenosdosalfarrabios.blogspot.com
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Percepções
À espera do cinema, procurei algum lugar pra sentar. Havia um banco no centro da sala de exposições e foi ali que decidi gastar os minutos que estavam sobrando. Olhei as projeções que ocupavam as paredes, mas antes de assim percebê-las, me pareceram imagens congeladas, como uma fotografia. Da moça de vestido longo, posando de costas com as mãos cruzadas, víamos uma sombra imóvel. E somente se gastássemos ali uns minutos, percebíamos um piscar de olhos e um dedo levemente escorregar sobre a palma da outra mão. Mais adiante, um homem de rosto muito branco, cujo paletó servia de amparo a inúmeras borboletas. Ele mantinha-se estático. E talvez por causa de sua respiração, ainda que discretíssima, ou pela simples necessidade de mudar de lugar, uma borboleta voava e depois tornava a pousar. Aqueles vídeos-fotografia, para quem se deixasse levar, induzia a uma certa hipnose. Como por uma convocação da obra, os micromovimentos, que numa passagem mais rápida não seriam perceptíveis, ficavam por demais evidentes, e foi então que comecei a reparar no imenso trabalho a que o corpo daqueles artistas se submetia. Sustentar a imobilidade é um ato desafiador. E talvez mais que isso: está fadado ao fracasso. O interessante da arte é justamente poder brincar com o que parece impossível – ali, a vida parar. Mas quando se começava a acreditar nisso, um movimento acontecia. O corpo reclamava dormências, expandia e comprimia os pulmões, lubrificava os olhos, desequilibrava as pernas. E no limite da estagnação, vinha o movimento; quando tudo parecia estar congelado, reproduzindo o mesmo, alguma coisa acontecia, mesmo que imperceptível aos mais apressados.
exposição: Robert Wilson
sábado, 7 de maio de 2011
Para minha mãe
"Quando você for mãe, você vai entender". E todas as vezes em que eu defendia meus primos, irmãos ou a mim mesma dos tentáculos das nossas tias e mães, lá vinha de novo a frase mais enunciada de todo o misterioso reino da maternidade. E minha resposta a essa profecia quase cármica era a de, quando eu fosse mãe, esperava ter também uma sobrinha ou filha que me lembrasse que já era hora de deixar os bacuris viajarem sozinhos, sem ficar controlando-os pelo celular, ou de bater na porta do quarto antes de entrar, ou de que com 20 anos de idade fica feio ser chamado a atenção por estar pisando descalço no chão frio. Ter alguém que diga às mães que elas não podem tudo é saudável e estritamente necessário, mas taí uma coisa que mãe nenhuma gosta. Mãe sempre acha que pode tudo. E o mais engraçado é que nesse devaneio que por gerações foi passado adiante, as mães tanto acreditaram que desenvolveram técnicas suprahumanas. O Instituto de Meterologia foi criado em 1946 por uma mãe que em certos dias não deixava seu filho sair de casa sem o guarda-chuva, mesmo com o sol escaldante, porque o tempo iria virar - e virava. Em 1975, cientistas e psicólogos fizeram estudos com 5.584 mães, de diferentes partes do mundo, sobre a leitura de fisionomias e a detecção de mentiras. Mães conseguiam descobrir pra onde seus filhos realmente tinham ido naquele dia em que disseram ter dormido no Marquinhos, e desvendaram quadrilhas de jovens de 16 anos que falsificavam identidades para entrar em shows de rock - apenas pelas expressões faciais exibidas em slides. A bina, dispositivo que identifica o número de quem está ligando, foi sugerido pelas mães, que sabiam que eram seus filhos ao telefone antes de atendê-lo. E o Mc Donald´s está processando o Horti Fruti por ter subornado milhares de mães para fazerem excessivas perguntas e orientações sobre uma boa alimentação, acusando-o de propaganda com mensagem subliminar. Minha mãe certamente daria grandes contribuições a esses estudos. E as qualificações não terminam por aqui. Na horta da minha casa há remédio para tudo quanto é ziquizira - e isso não é exagero de mãe. Pode falar de que mal você sofre que ela vai tirar de lá exatamente o que você precisa. Às vezes o que cura mesmo é chamego de mãe, um colo para os momentos de gripe ou de tristeza, para quando a vida fica difícil e a gente quer mesmo é voltar pra perto de quem deixava ela mais simples. Joelho aberto, primeiro dia na escola nova, feijão entupido no nariz, moeda dentro da barriga, queixo aberto, filho querendo fugir de casa, testa aberta, bola na janela do vizinho, e uma infinidade de problemas que mães sabem resolver - isso é mesmo trabalho pra gente grande. E então a gente cresce e começa a querer resolver as coisas sozinho. Taí outra coisa que mãe não gosta. Mas elas até disfarçam, dão uma força pra gente seguir adiante, pra ir pro Rio de Janeiro, pra São Paulo, pros Estados Unidos. E depois confessam que fizeram isso com o coração na mão, querendo, no fundo, que todos ficassem juntos e sob seus cuidados. É por isso tenho tanto orgulho da minha mãe - porque ela, com coração doendo e, no fundo, querendo ter todo mundo perto pra continuar mandando escovar o dente e calçar o chinelo, sempre nos deu força para seguir adiante, pra que inventássemos nossos próprios caminhos. É a você, mãe, que dedico esse texto e declaro todo o meu amor, por ter sido sempre essa mãe tão incrível, que a cada dia me supreende mais. Você é meu exemplo quando quero alcançar objetivos, quando preciso de força pra enfrentar as adversidades, quando procuro ser uma pessoa melhor. Agora só falta entrar na natação. E pode ficar tranquila: um dia vou entender sim.
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