sábado, 1 de setembro de 2012

A Casa


Por duas semanas, nos papos corriqueiros ou extraordinários, meus assuntos foram enxugados a um só. Se tornou uma espécie de chatice insistente, uma queixa já cansada dela mesma. E um cansaço de fato, das idas e vindas eternas a despejar todas as coisas no novo lar. É isso que vos conto: estou desfrutando as alegrias e desassossegos do mudar. Mas até que viessem as alegrias, foram muitos os desassossegos: infiltrações, instalações mal feitas, medidas erradas, trocas, improvisos, rearranjos. Aí fiquei lá, parada nesse assunto: chata e reclamante. Cansei disso também. Entendi que uma casa não recebe a gente sem esforço: é preciso conquistá-la aos poucos. Ir chegando manso, respeitando a história das tantas gentes que passaram por ali e pras quais a casa foi muito além de um teto: foi uma vida. E quando entendi isso, fui pedindo licença. Cheguei com uma coisa ou outra, fui escolhendo os cantos, e a casa foi ganhando outro contorno. Aí avisei que tinha uns potes de tinta a caminho – pra não assustar. Disse que eu gostava era assim, com cores, e que de vez em quando enjoava e pintava tudo de novo – pra já ir prevenindo.  Então apresentei os amigos, a família, e nesse dia a casa ficou transbordante de alegria. E quando eles foram embora, emburrou. Que não se preocupasse, eu disse, voltariam outras vezes, aqueles e outros. Os problemas foram sumindo, pendurei  ontem o último quadro. E confesso, mas só entre nós, que sinto falta daquelas duas semanas, em que todo dia aparecia uma coisa nova pra compor a casa ou o alívio do que foi resolvido. Essa casa, agora, também irá ajudar a compor minhas histórias - e vamos seguindo, até o dia de uma próxima mudança.