Por duas semanas, nos papos corriqueiros ou extraordinários, meus assuntos foram enxugados a um só. Se tornou uma espécie de chatice insistente,
uma queixa já cansada dela mesma. E um cansaço de fato, das idas e vindas
eternas a despejar todas as coisas no novo lar. É isso que vos conto: estou
desfrutando as alegrias e desassossegos do mudar. Mas até que viessem as alegrias,
foram muitos os desassossegos: infiltrações, instalações mal feitas, medidas
erradas, trocas, improvisos, rearranjos. Aí fiquei lá, parada nesse assunto:
chata e reclamante. Cansei disso também. Entendi que uma casa não recebe a gente
sem esforço: é preciso conquistá-la aos poucos. Ir chegando manso, respeitando a história
das tantas gentes que passaram por ali e pras quais a casa foi muito além de um
teto: foi uma vida. E quando entendi isso, fui pedindo licença. Cheguei com uma
coisa ou outra, fui escolhendo os cantos, e a casa foi ganhando outro contorno. Aí avisei que tinha uns potes de tinta a
caminho – pra não assustar. Disse que eu gostava era assim, com cores, e que de
vez em quando enjoava e pintava tudo de novo – pra já ir prevenindo. Então apresentei os amigos, a família, e nesse
dia a casa ficou transbordante de alegria. E quando eles foram embora,
emburrou. Que não se preocupasse, eu disse, voltariam outras vezes, aqueles e
outros. Os problemas foram sumindo, pendurei ontem o último quadro. E
confesso, mas só entre nós, que sinto falta daquelas duas semanas, em que todo
dia aparecia uma coisa nova pra compor a casa ou o alívio do que foi resolvido. Essa casa, agora, também irá ajudar a compor
minhas histórias - e vamos seguindo, até o dia de uma próxima mudança.
