terça-feira, 18 de outubro de 2011

Morangos

Não digo que nunca saio sem ela porque sou mais distraída que minhas obsessões. Mas sempre que lembro – nunca saio sem ela. A câmera fotográfica se tornou uma grande companheira pela vida afora, a me fazer descobrir morangos entre o leão e o penhasco. Certa vez, uma amiga contou uma história escrita por Rubem Alves de um homem que andava pela floresta quando começou a ser perseguido por um leão. Com medo e fugindo depressa, acabou caindo num precipício. Conseguiu agarra-se numa raiz que brotara ali, e ali ficou pendurado sobre o abismo. Foi quando viu que também ali crescia um pé de morango, onde havia uma única frutinha, a qual comeu e se deliciou. E então pensou que na vida deveria haver morangos à beira do abismo. Vejo a mim mesma e a tantos outros andando depressa pelas ruas, acelerando os passos e os pedais, fugindo do leão que gira os ponteiros e nos come as horas sagradas de todos os dias. Não vejo mais por onde passo, apenas aonde devo chegar. Preocupações de toda ordem vagueiam no pensamento e tomam de mim a presença no mundo. Mas aí, nas ruas de todos os dias, nos carros de todos os dias, nos rostos de todos os dias, reparo uma cor. E uma bicicleta enferrujada atrás de um poste onde se lê uma declaração de amor, escrito à liquipaper. E um dentinho torto de criança que aparece num sorriso tímido, tímido. E outro fusca, para entrar no álbum dedicado a eles. Fotografar, na mais simples definição do verbo (já que estou longe de dominar as técnicas que a palavra convoca), tem sido uma ótima ferramenta para desligar dos automatismos e redescobrir as pequenas alegrias. E o mais curioso é que faz aparecer a curiosidade de quem passa por perto, que fica a olhar e a se perguntar o que é tem demais na bicicleta enferrujada. O que é que as coisas tem demais é sempre uma boa pergunta a se fazer, não para dar de ombros, mas pra de fato encontrar esse tal algo demais. Todos nós precisamos um pé de morangos; sem eles, o penhasco e o leão acabam engolindo toda a vida.

2 comentários:

Vitor disse...

Então, cadeia de raciocínio:
Primeiro lembrei da piada do caçador e do tigre.
Depois lembrei do Sin City.
Depois do imposto de renda.
mas o que realmente me pegou foi a pergunta que eu não vou escrever agora porque esqueci... ics é um lance interessante...
Mas perguntar a razão das coisas é um processo regressivo do mais fantásticos. O engraçado é que - mais associação livre - vai contra a ação de paralisar os momentos com as fotos. Se bem que, verdade seja dita, a foto só paralisa movimento se você deixa ela guardada pra sempre. Fora isso, ela é o start de algo, quando você a revisita.
Beijo, Lu. Muitos morangos para ti!

Lu disse...

HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHA
Sabe que, não sei porque, mas também lembrei do Sin City! rsrsrsrs
Morangos pra você também, querido!!! Um beijo!