Foi por um acaso que ficamos sabendo do show que teria no CCBB. "Lapa de todos os santos" era o nome do evento que estava estreando ali, com o digno propósito de relembrar os sambas dos artistas que estiveram no berço cultural e na revitalização do bairro. Dessa vez, era o Anjos da Lua, com participação de Pedro Miranda, que subiria ao palco. Coisa boa demais. E lá, sentada na primeira fileira do teatro II, foi que pude mais uma vez tirar o chapéu pra grande arte do samba: dar notas alegres às tristezas de amor. Mas esse jeito de cantar a dor - deixemos isso bastante claro - não lhe extirpa o que há de mais sofrido. Ao contrário, canta-se de sobrancelhas baixas, de testa enrugada, e se a mão não segurasse o cavaquinho, certamente estaria no peito. Mas a melodia dá um nó na letra, um confuso no corpo, uma vontade de sambar. Dança-se a tristeza, buscando a alegria no vai-e-vem do chinelo. E quem não presta a devida atenção ao que está sendo cantado, quase deixa escapar aquela decepção de meio-fio de calçada, copo de cerveja na mão e olho cansado de tanto chorar. "Meu moreno fez bobagem, maltratou meu pobre coração, aproveitou da minha ausência e botou mulher sambando no meu barracão". E isso, minha gente, é o que de mais bonito a arte sabe fazer: espremer a beleza de tudo que há, até do que, em princípio, não poderia tê-la.
5 comentários:
Acho que esta é a beleza que está em toda arte: dar novos sentidos aos nossos sentires...
Belo texto, linda! Vai até quando esse evento?
Bjo!
J´eu acho... digo, tenho certeza... que não gosto de samba.
Minto, não é que eu não goste de samba. É só que eu... não gosto. Tipo, você pode roubar (mentira, não pode não!) meu mp3 e vai achar muitas músicas. Mas samba não.
Eeeeentretanto gosto de algumas músicas tristes. De certa forma senti uma familiaridade com o que você disse, pois, como você pode saber, meu inglês tem lag. Eu preciso de um bom tempo pra identificar a letra de uma música gringa, e de vez em quando descubro que gosto de músicas que são as maiores bad trips da história. Last Kiss, do Pearl Jam é a bola da faz tem uns 6 meses, um ano... Se você parar pra ver, não é nada de uma letra escandalosamente original ou inteligente. Vai ver por isso acho tão boa. É tão mundana. E triste.
Beijos.
ah, o samba. Por que será que a gente acha que a música ta falando da gente né?! enfim, ela assume a potência das palavras que nos faltam por alguns momentos... mas a gente trata de colocar o pé para arrastar no chão e fazer a saia girar. Transformamos as palavras cantadas e tocadas em movimentos. O samba pode ser de tristeza, mas traz o sorriso para quem o dança.
Música é tão bom né?! Tem dias pra samba, tem dias pra rock, chorinho, forró e até música romântica.
Conheço uma menina que faz letra e fotografia de tudo o que ela vive.
"Eu digo e ela não acredita, ela é bonita demais..."[Geraldo Azevedo]
(para tudo tem música!)
o samba já me derrubou, já me levantou, já me trouxe namorado e me levou outro, já me trouxe amigos dançarinos e beijos idem. Agora ele habita meu som e meu computador mais do que meus pés. Democráticos já! E Tenho dito!
Aquele maluco que toca atabaque nos Anjos da Lua é um ícone da boemia carioca. Bjs!
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