terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os homens das nossas vidas

Morar sozinha foi uma conquista. Ou melhor – uma exigência, que foi se tornando cada vez mais inadiável ao longo os anos de apartamento compartilhado. Aprender a dividir o espaço é tarefa que recomendo a todos, pois se tira disso lições valiosíssimas. Mas chega uma hora que é preciso estudar em silêncio, sem outras vozes, sem a televisão ligada, sem os amigos dos amigos que estavam de visita. Um canto só seu, num certo momento da vida, é uma dádiva pela qual devemos agradecer. Mas é também preciso lidar com uma certa solidão, com o silêncio dos outros momentos em que uma conversa seria mais bem vinda que um livro. Ou com aqueles fatídicos dias de gripe-derruba-leão que não nos deixa chegar nem ao telefone pra pedir um remédio. Ou, ainda  mais grave, os dias em que o apartamento ganha vida, se revolta e não há ninguém além de nós mesmos para resolver os “pepinos”. Esses dias são os piores. Mas felizmente eu tirei a sorte grande. Encontrei meu cantinho num prédio de porteiros com poderes mágicos, capazes de consertar o cano estourado da cozinha que inundou o andar inteiro ou de trocar os fios do chuveiro que pegaram fogo. Esses são os verdadeiros super-heróis do nosso dia-a-dia. E o mais curioso ainda está por vir: conhecer o pai da namorada pode até dar um frio na barriga, mas encarar a cara fechada dos porteiros é desafio maior. Esse fenômeno dos porteiros sem sorrisos só vi em duas ocasiões: o dia em que alguém deixou de cumprir o horário e o plantão dobrou e o dia em que passei na portaria de mãos dadas a outras mãos. O mínimo que poderia fazer era ter levado o moço pro Seu Antônio conhecer - foi mesmo uma falta de respeito. Na semana passada, fui visitar uma amiga, e o Seu Roberto, porteiro do prédio, falou: “leva mesmo ela pra sair, ela anda ficando muito dentro de casa”. Todo mundo tem uma história pra contar desses que acabam cuidando muito da gente, sem esquecer das clássicas, daqueles mal humorados que não gostam de abrir o portão, dos que dormem à noite e não acordam por nada nesse mundo, dos que sabem uns segredos que só as paredes ouviram. A esses que cuidam da gente das formas mais engraçadas, dedico esse texto e o meu muito obrigada.

Imagem: Google imagens

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nojeiras

Esse texto é para os bravos. Para os de estômago forte. Para os sem frescura, sem polidez, sem cara feia quando o assunto são as nojeiras que em algum momento da vida a gente se depara. Ou todo dia, já começando a falar francamente. Quem é que nunca tirou escondido (ou assim pensava estar) aquela maldita meleca que mais parecia uma bola de futebol americano no nariz, obstruindo a tão preciosa passagem de ar? Tirar meleca, meus caros, é também um ato a favor da vida. Mas é preciso seguir rigorosamente o Manual de Ética dos Tiradores Oficiais de Meleca, coisa que ainda é um grande desafio para seus membros. Uma vez retirada a estalactite, termo técnico criado por uma grande especialista no assunto - figura a quem devo grandes conquistas quanto à desinibição em ‘tocar’ nessas questões - é preciso encaminhá-la imediatamente à pia mais próxima. Sem discussões: nada de ficar colando meleca por aí. Há outras normas de conduta que raras vezes são seguidas, com algumas exceções dos casais com pouca intimidade, como não soltar pum embaixo do cobertor que está sendo compartilhado. Para solteiros e, principalmente, para quem tem a sorte de um quarto só seu, não há restrições a respeito. As recomendações, inclusive, incentivam o esvaziamento barrigo-intestinal, porque grandes desconfortos podem ser causados pela interrupção do fluxo natural das coisas. E se formos mais a fundo, no fundo do vaso, a observação dos restos mortais que depositamos lá pode dizer muito sobre a alimentação daquele que caga. Se boiar, diminua a ingestão de gorduras. Cocô, como se vê, também é conhecimento (embora o inverso não proceda, cuidado com o que irá repetir por aí). E não eliminá-lo diariamente é sinônimo de mau-humor. Se seu chefe estiver distribuindo grosserias, se o vizinho não retornou seu simpático “bom dia”, se as gentilezas no mundo estão acabando, é porque não se está fazendo cocô como antigamente. Recorrendo àquele famoso ditado para ilustrar nossa argumentação, que resgata o sentimento de uma pessoa que está de bem com a vida: “tá cagando e andando”. Quem já viajou com os amigos por mais de três dias sabe que, quando o banheiro não é mais o de casa, o assunto em pauta é o cocô. O bem-estar está muito mais relacionado às nojeirinhas, tão discrimidas nos discursos da boa conduta, que qualquer manual educativo possa imaginar. Quem nunca chegou de uma bebedeira daquelas, rezando pro enjôo passar e prometendo a Deus que jamais colocaria uma só gota de vodca barata de choppada na boca, e depois de um intenso e considerável vômito, daqueles que levam embora um pedaço da alma cristã, transformou-se do vinho pra água? E falando em comida, mas no caminho inverso, ouvi outro dia uma teoria que merece atenção. Por que temos tanto nojo quando encontramos um cabelo na comida? “Porque mostra a falta de higiene do lugar!” – respondi, como a voz de toda uma nação. “Mas se o cabelo estiver limpinho?”, “então vai ser horrível comer um cabelo” – seguido de um “ieca!”. “E se o cabelo for retirado logo que descoberto e o rizoto estiver fantasticamente gostoso?”. Bom, é algo pra se pensar. Portanto, meu caros, pensem duas vezes antes de dizer “que nojo!” e agradeçam a muitas nojeiras que fazem milagres por aí.

Foto: Google imagens

domingo, 25 de julho de 2010

Palavras

As palavras sempre foram a minha precisão. Uma urgência, um imperativo, uma necessidade. Uma ordem que ordenava meu caos e me ordenava à escrita. Escreva – isso é uma ordem. Aí comecei a encher cantos de páginas com parágrafos soltos. Todo caderno escondia em seu miolo algum pedaço de mim, o que me obrigava a conferir folha por folha quando já estava na hora de passá-lo adiante. Não podia ser descoberta, não nas confissões que fazia aos cadernos. E então vieram os festivais de poesia no colégio. Apresentar minhas palavras aos outros foi o verdadeiro mérito que as medalhas de latão honravam. Pela primeira vez, escrevia para ser lida. E as palavras deixavam de ser apenas minhas. Ganhavam outros contornos nas vozes dos colegas que as interpretavam, nos ouvidos dos pais que faziam a platéia do evento. Minhas palavras excediam minha escrita. E a promissora carreira de poetiza do ensino fundamental me incumbiu de uma importante tarefa, se não ouso dizer a mais importante, no circuito familiar: a Escritora Oficial de Cartas em Datas Comemorativas e Eventos Similares. Segundo domingo de maio, segundo domingo de agosto, aniversários, natais, vestibulares, entrevistas de emprego, cartas de boa viagem (o que se escreve muito na família) e uma criatividade que Deus só emprestou igual a Stanislaw Ponte Preta, para não que não terminasse por resumir tantas linhas às mesmas palavras. Não, não – momentos que são únicos merecem palavras inéditas. Que de inéditas não havia nada, ou será que cada escrita e cada leitura não as fazem inéditas de certa forma? Mais tarde, fui descobrir que são de palavras que somos feitos – de dizeres sobre nós. Que é difícil se desatar de certas palavras, que é preciso dizer, dizer mais, dizer de novo, para conseguir inventar uma versão melhor de nós mesmos. Nossas análises. E em todos os caminhos que eu seguia, lá estavam elas, as palavras. E o meu imperativo de escrever. E sedução da escuta. E a fascinação pelos discursos, pelas explicações inventadas do mundo, pelas histórias. Os livros e seus autores – tem gente que nasceu com a missão de dar bons nomes pras coisas e depois pôde morrer em paz. Mas também já encontrei outras gentes que dizem muito sem precisar falar. Esses são para mim um mistério. E nesses encontros, enquanto vou me deixando guiar por silêncios, sorrisos, gestos, expressões, proximidades, distâncias, vou também escrevendo sobre isso. Preciso escrever. Gosto palavrear. Mas estou aprendendo a gostar de apenas sentir, de experimentar uma outra leitura.Vai ver que aí estão as verdadeiras palavras inéditas.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Guloseimas

A primeira nota que chegou em minhas mãos, instaurando a era das mesadas, foi uma de cinco reais. Antes, o dinheiro costumava já ter destinatário certo: o dono da mercearia, que ajudava a escolher as batatas melhores, a moça da cantina do colégio, que nos dava a alegria dos quibes de forno nos dias sem merenda de casa, ou o próprio e legendário Seu Virgílio, figura inolvidável da minha infância, que ficava com as moedinhas barganhadas entre familiares em troca de balinhas de 1 centavo. Pra quem não viveu essa época de ouro, posso dar meu testemunho: já comprei balas a 1 centavo cada uma. Mas as mais gostosas e variadas costumavam ficar expostas nas docerias, estrategicamente situadas próximo à saída dos colégios. Cem gramas de qualquer uma delas, 7 belo, Soft, Big Bol, Dadinho, Maça verde, e por aí se estende uma lista infinita, custava apenas cinqüenta centavos. Isso dava a possibilidade de muitos saquinhos de bala para quem fosse dono de uma nota de cinco reais. E eu, inaugurando meu poder de compra junto com a nova moeda brasileira, era. Se tem uma coisa que posso dizer que fiz com maestria nessa vida, essa coisa foi comer bala. Não é algo sobre o que se conte méritos e creio que São Pedro tampouco resgate isso no currículo quando for hora de passar pro lado de lá. Mas dividi a satisfação de apreciar um bom caramelo que gruda no dente com crianças não tiveram a mesma sorte de uma mesada de cinco reais – e isso falo com orgulho. Uma das lembranças que guardo com maior carinho é de quando meu pai nos levava pra brincar no parquinho da praça, terminando o passeio no Harold Bomboniére, com suas vitrines expondo o colorido de mil e uma balas diferentes, das quais podíamos escolher a que quiséssemos. Hoje estou pagando um preço alto pelos investimentos desenfreados nos prazeres mundanos, mas nessa vida cheia tanta coisa amarga, um docinho é item de primeira necessidade. Toda criança deve ter direito ao cuidado, à educação, à saúde, à brincadeira e a escolher a bala que quiser. Todo adulto também. E  ao fio dental, pasta sensitive e flúor depois, por favor.

imagens: Google imagens

sábado, 19 de junho de 2010

Dias contados

Se desde sempre as estações confundiram seus humores  por essas bandas de cá, agora não haveria de ser diferente. Faltando ainda algumas semanas para o inverno, o frio já fazia escapar do armário os casacos com cheiro de mofo. A cidade maravilhosa em seu pleno esplendor – dias de azul forte e amarelo brando. De todos, para mim, não há clima mais agradável: vento leve, sol pra esquentar, noite de edredon fino. Mas hoje já não havia meias-calça sob os vestidos, o arrepio no braço era do ar-condicionado do cinema e uma acolhedora nuvem quente me acompanhou na volta pra casa. Acho que os dias de Nova Friburgo estão contados para o Rio. Vamos aproveitando enquanto isso...

Foto: lu franco

terça-feira, 25 de maio de 2010

Primeira pessoa

Uma amiga blogueira me fez um convite para escrever sobre seis coisas que as pessoas não sabem sobre mim. O passo seguinte seria escolher outros amigos e passar a proposta adiante. Fiquei pensando que esses pequenos trechos que deixamos nessa página virtual acabam tendo mil e uma coisinhas que dizem sobre a gente. E, no fundo, é sempre isso mesmo que acontece: uma fala em primeira pessoa (mesmo essa fala sendo feita de muitas vozes), contando sobre nossas afetações, sobre histórias que ouvimos, que participamos, que imaginamos... Escolher apenas seis coisas é que talvez seja a tarefa mais difícil. Mas é no clima revival (acabei de ver “Apenas o fim”, praticamente um compêndio da nossa ‘infânciadolescência’, com um roteiro muito divertido e original) que escrevo esse texto. Quem nunca respondeu ao famoso “caderno de perguntas” que rolava na sala enquanto o professor explicava equação de primeiro e segundo grau?

1- eu consigo ficar na parada em dois apoios (popularmente conhecida como “plantar bananeira”) por mais de 10s;

2- já encontrei tanta gente querida nessa vida que me sinto com uma sorte que ninguém mais tem;

3- adoro comprar caderno. Não me pergunte por quê;

4- toda vez que alguém me fala que fulano ganha um salário absurdamente grande, eu digo que, se fosse comigo, trabalharia três meses, pegaria o dinheiro e ia viajar pelo mundo;

5- pra mim, rir e fazer rir foram as melhores invenções do homem;

6- todas as histórias que escrevo aqui são verdadeiras. ‘Só 10% é mentira’.

Bele, obrigada pelo convite! Passo a bola pra Lena, Laurinha, Lívia e Vitor!


sábado, 8 de maio de 2010

Mesmo assim

Se maio é o mês das noivas, 2010 é o ano dos casamentos e chás de panela. O moço das lojas americanas, do departamento de cozinha, mesa e banho, já até me conhece pelo nome. Basta me ver de longe que já acena e pergunta qual o casal da vez para acessarmos a lista de presentes. E ainda que o orçamento reclame, meu coração se enche de felicidade ao ver amigas e amigos tão queridos juntando as escovas de dente. Inaugurar uma vida a dois não é coisa fácil (disso todos temos certeza), mas certamente há nisso muitas alegrias. O padre de um dos casórios, protagonizando a cerimônia mais incomum que já testemunhei, perguntou ao noivo por que ele tinha escolhido aquela mulher para estar com ele no altar. A resposta? “Porque eu sinto falta até das brigas dela”. E continuou listando alguns defeitos que ele já bem conhecia e ainda assim a queria para estar ao seu lado. Romantismo e suspiros femininos à parte, achei essa a mais corajosa das respostas. Saber sobre aquele com quem se dividirá alianças ou lençóis, conhecendo suas ‘segundas e sextas’, e ainda topar a parada, é a prova real que se faz no fim das contas. Depois o padre repetiu a pergunta para a noiva. Ela disse que admirava o futuro esposo porque ele estava sempre tentando ser uma pessoa melhor. Aí entendi que a mais corajosa das respostas ficava capenga sem isso. ‘Gostar do outro do jeito que ele é’ é regra fundamental para que uma união seja possível, mas é também preciso que cada um cuide para não estagnar naquilo que desagrada. Troço pra lá de complicado, que vai se fazendo nas pactuações e conversas do dia-a-dia, dividindo. Por enquanto, eu prefiro continuar admirando os casamentos da “platéia”, mas é nesse clima de declarações de amor (chegando, inclusive, a virar tema recorrente nos blogs que mais freqüento – viu, Lena, também sou sua leitora assídua, não é só o Vitor, não!) que encerro esse post. Encontrei um moço que mora a quilômetros de distância, que chama cerveja de “breja”, que jura que Rage aganist the machine é a melhor banda dos tempos e comete a blasfêmia de dizer Beatles é ruim, e ainda assim me fez gostar muito dele. Outro dia me deu de presente um cd de músicas brasileiras com versões instrumentais muito originais. Ok, me convenceu: já está procurando ser uma pessoa melhor. Mas pra gostar de Chico Buarque acho que ainda leva duas, três encarnações. Não tem problema, gosto muito dele, mesmo assim. 

foto: Lena Fialho

terça-feira, 20 de abril de 2010

Três (ou seis) reações adversas (e verídicas)!

pegando emprestado das conversas com Helena e Alininha


- Vai saindo do carro, isso é um assalto!!!
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- Moço, vocêtempenademim! Aindatôpagandoprestaçãodessecarro,numtemseguro,tôcomdoisfilhos
prapagarescola,agoracêimaginaeuficarsemcarro,comoéquevoulevarascriança,
eoquequemeumaridovaidizer,moço,cênãosabecomoéquemeumaridoé,ocasamento
játápelaspontas,aimeuDeus,meuproblemadecoração,aimeuDeus,tôtendopalpitação
denovo,achoqueuvoupassarmal,moço,tenhotantacoisaprapagar,moço...

- Aí, a senhora é cha-ta-pa-ca-ra-lho, hein...

E foi embora.
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- Olha só, pode até levar o carro, mas não vai levar minha carteira, não. Tem meus documentos aqui, e só isso, tá vendo?? Dinheiro nenhum!! Aproveita e some com esse carro daqui, leva pra bem longe, porque o seguro ainda vale mais que essa joça!

- Pra sumir com o carro é 100 reais...

- O quê?? Cê ta de sacanagem com a minha cara... 100 reais?!?! Acabei de te mostrar a carteira, não tenho dinheiro, tô dura, tá achando o quê?

- Que isso é um assalto, dona...

- Não tenho 100 reais!!!

Dois dias depois, o carro apareceu, na mesma rua.
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- Deixa eu só tirar as crianças!! João, sai do carro, sai do carro... Moço, você não deixa eu pelo menos eu levar essa bola da Copa? Nem preciso pegar as mochilas, é só a bola... Ele vai chorar até amanhã por causa dessa bola... Vem João, vem!

- Agiliza aí, agiliza aí!!! E deixa a bola!!

- Mas pelo menos anda devagar nessa rua, tem escola aqui, tá na hora da saída... E vai com Deus!!

Mais a frente, o vidro abriu e jogaram a bola. As mochilas? Apareceram no quintal do prédio, no dia seguinte.



imagem: www.sergueicartoons.com

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Coceira

Assim que fui emancipada do quarto coletivo, ganhei uma cama, de madeira maciça, e uma escrivaninha, de um material não tão nobre, mas que me serviu por anos para fazer as lições de casa e guardar a coleção dos manuais Disney. Essa fiel escudeira me acompanhou em incontáveis mudanças, não apenas nas passagens de série ou na renovação dos títulos na prateleira, mas nas mudanças que de fato meu quarto sofria quase que semestralmente. Às vezes mensalmente, semanalmente ou ainda diariamente. Eu cansava quando as coisas ficavam muito tempo no mesmo lugar e decidia por uma nova arrumação. A escrivaninha andou por tantos cantos, paredes, posições, que num dia triste de móveis parados não resistiu e desmontou. Aí veio um armário maior, feito da tal madeira maciça, à prova dos meus intempestivos desejos de mudança. Mudar tudo era quase fazer um dia 1 de janeiro no meio da rotina de agosto. Era o frescor do novo, da possibilidade do novo, das percepções do novo. Pensar que as coisas eram de um jeito apenas porque as organizamos assim e, por isso mesmo, podíamos organizar de outro, era uma boa lembrança que essas experimentações me traziam. Depois vieram as tintas, que me economizaram o arrastar de escrivaninhas. Mas esse imperativo de mudança, quando acho que sossega, solta como quem não quer nada uma formiguinha para andar no meu pensamento. E lá vem outra vez um monte idéias a ficarem coçando na cabeça. Mas resta dessa história dois grandes desafios: ver o que há de novo no mesmo e  também viver a permanência das coisas. A cama e o guarda-roupa ainda estão por lá. 

foto: lu franco

domingo, 21 de março de 2010

Por nada

inspirado numa conversa de um dia cansado com a Lívia

Tem dias que são emperrados. Talvez o domingo tenha levado a fama por estar mais desatado dos compromissos da semana, deixando as horas à nossa própria programação. Se Deus descansou no sétimo dia, por que nós, pobres mortais que não vivem em São Paulo, haveríamos de trabalhar? Mas são nesses dias de agenda livre que se corre um grande perigo, o perigo tentador do ócio. Não o ócio por livre arbítrio ; às vezes é preciso decidir por não fazer nada - fazer nada e deixar vir um sono, fazer nada na frente da tv, fazer nada por cinco minutos. A vida anda tão cheia que às vezes temos que nos esvaziar. Mas o ócio que emperra o dia... esse sim é uma maldição. Tudo fica com começo e sem conclusão, os minutos passam como relâmpago e inacreditavelmente você continuou sem fazer nada. Uma manhã inteira ocupada por nada. Uma tarde inteira ocupada por nada. Uma frase inteira ocupada por nada. Nada. É claro que esse nada também é feito de algo, mas é o mesmo que achar sentido em discurso de político. Bom, nada por nada, pelo menos esse dia emperrado rendeu um post.
 
foto: lu franco

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mas é carnaval...

Paramos para esperar um caminhão abrir passagem na calçada quando, do outro lado, dois homens de chapéu colorido e imitando uma sirene aproveitaram o primeiro vão e atravessaram correndo. Como sabiamente observou uma amiga, se fosse num dia qualquer, continuariam esperando, inconformados, xingando baixinho o motorista e alargando o nó da gravata com um puxão nervoso. Mas naquele dia, meus caros, era carnaval. Lembro que, indo ver os fogos no reveillón, já ouvíamos o grupinho encervejado do fundo do ônibus cantando marchinhas de carnaval. É a festa mais esperada do ano e conhecida por de fato inaugurar os pecados do lado de baixo do equador. Sem querer puxar a coroa pro meu lado, mas carnaval como o do Rio de Janeiro nesse mundo não há. E nem me refiro aos desfiles na Marquês de Sapucaí, mas aos que acontecem nos marqueses menos famosos, nas praças, nas ruelas, nos encontros. As pessoas ficam mais acessíveis, para rir das coisas, puxar uma conversa qualquer, atravessar a calçada correndo imitando uma sirene. E, é claro, para ‘ser da maneira que você quiser’. A gente se permite um pouco mais, se permite ultrapassar umas barreiras invisíveis que nos distanciam do outro, abrindo um sorriso ou trocando uma palavra. Se permite vestir dos jeitos mais diversos, mais improváveis, mais criativos – ver a rua colorida de roupas e perucas e o chão pintado de confetes é paisagem das mais bonitas. É uma pena que amanhã tudo volte ao normal. Mas ano que vem tem de novo. Só faltam 11 meses. 

"Carnaval dá alegria".   Laura Noronha

 foto: lu franco

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A paixão segundo L.F.

Nunca tive medo de barata. Medo, daqueles de gritos histéricos e pulinhos na cadeira, nunca tive. Nojo sim, mas nada que me impedisse de continuar na calçada. Depois de um desvio quase respeitoso, cada uma continuava seguindo seu caminho, sem grandes estardalhaços. Foi então que o fatídico encontro aconteceu. Ultrapassando os limites permitidos pela tolerância social, uma barata entrou na minha casa. Mas, como diria Guimarães Rosa, mire veja: não se tratava de qualquer barata. Não era uma mera baratinha distraída, que talvez por um descuido tivesse tropeçado no parapeito e precipitado a janela; era, ao contrário, a  maior barata do mundo, com duas antenas de metros de altura, que sem nenhum respeito ou permissão adentrou meu imaculado lar. E o pior ainda estou por contar: ela voava! Se jaca não podia dar em árvore, barata tampouco podia voar – e foi blasfemando as incoerências da mãe Natureza que me dispus a encarar a maldita voadora. Ela perseguia a TV e as lâmpadas, e foi numa delas que resolveu descansar. Como sou a favor dos embates apenas quando necessário, apaguei todas as luzes, desimpedi a janela afastando a cortinas e me resguardei no banheiro. Pela primeira vez, senti medo de uma barata. Não sabia quantos minutos esperar – quantos minutos se espera para uma barata ir embora? Me senti uma refugiada pensando no que poderia ter levado para o banheiro para me distrair, talvez o livro que já estava no final. Saí de mansinho, protegida por uma parede de lençol erguida por mim mesma, mas a insolente não tinha entendido o recado. Continuava lá, tranquila, me olhando com a ousadia de uma barata com asas. Foi hora de pegar a vassoura. A cada aproximação, ela voava, e eu, desonrando a primeira frase desse texto, gritei. Estava realmente com medo de uma barata. Pensei em chamar o porteiro, ligar pra uma amiga, jogar água sanitária na lâmpada – me senti numa fragilidade quase insana, afinal de contas, era só uma barata. Mas eu não sabia o que fazer. Tenho uma amiga que diz que a dor lhe aproxima do que é mais humano; uma barata me fez experimentar essa fragilidade. Me senti num enredo de Clarice Lispector. Já quase vencida pelo cansaço, consumindo horas da madrugada, a invasora resolveu partir, me deixando com uma insônia e meia dúzia de questões existenciais. Novo dia, nova noite, novo início de madrugada, e quem resolveu aparecer para uma nova visita? Ela mesma, ou a sua irmã gêmea, pois continuava sendo a maior barata do mundo. Mas dessa vez (ela mal podia esperar), eu não estava só, e depois de um pisão número quarenta e um tudo estava resolvido. Gosto quando a vida pode ser simples assim, gosto de quem prova que ela pode ser. E que a gente pode ser forte diante de uma barata com asas. Mas nunca mais me faltará um Baigon Hight Ultra Protect No Invasion Any More no armário lá de casa. Só por precaução.

foto: Google imagens

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Duas cenas


Duas cenas de roubar palavras por dois grandes diretores. Um casebre de madeira, umas primeiras notas de caixinha de música, um lençol branco desprendido do varau revelando a poeira de um carro na estrada. A moça vai pra dentro de casa, o pai molha o rosto com grosseria, uma tensão aparece. De dentro do carro, um general de sorriso farto, de gentileza fina, de muitas delicadezas. E a conversa segue civilizadamente preocupante. O pai não faz um gesto além, não lhe sobra expressões. Apenas quando o pior acontece, e antes dele uma espera torturante, os olhos ficam rubros e transbordam de expressões e lágrimas. Somente os olhos. Se essa enorme cena tivesse nome, se chamaria angústia.
Os olhos deixaram de ver, ficaram tristeza. E no caminho da estrada, uma praia, uma parada, duas descidas – o menininho lhe guia pela mão até a chegada na areia. Nenhum dos dois conhecia aquele mar: o menino, mar nenhum conhecera antes, e ele, nunca experimentara como naquele momento o vento, a maresia, o barulho dos cachorros, as lembranças. Pipas voando, menino correndo, ele sentindo. E então não precisa de palavra – é sensação. É a cena mais bonita, se chama liberdade. 
Os filmes? Quais eram? E de quem? Nem preciso dizer. 

foto: Google imagens

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Not drama


Não poderia isentar o primeiro post de 2010 dos votos que nos fazemos ao despertar de cada ano. E como todo ano, também desejo a amigos e familiares, próximos e distantes, que recebam as bênçãos de muitas alegrias e boa saúde. Mas dessa vez decidi inaugurar o calendário com novos votos, sem deixar, é claro, de reforçar os antigos. Entre estes, estava boa parte da lista do que é tão importante e tanto carecemos nesses tempos: paz, compreensão, amor, gentileza, cuidado. Foi aí que resolvi esticar as linhas pensando no que mais poderia ser desejado. Quem sabe o mundo estivesse precisando de mais paixão. Não por suscitar os excessos ou desalinhar os freios. Mas para que as pessoas se sentissem mais implicadas no que fazem, no que acreditam, no que esperam de mudanças. Era isso – o mundo precisava de mais presença, de mais mãos-à-obra. Ou talvez não seria de mais olhar, de mais encontros? Temos nos tornado invisíveis ao outro, ou estamos fazendo dos outros invisíveis, você também não tem notado isso? Pensei em tantas outras coisas para atualizar minha lista de votos de ano novo... Todas concorreram com igual relevância para ocupar aqui seu lugar, mas para que não virassem mais uma palavra entre tantas, preferi eleger apenas uma. Meu desejo, então, é que esse ano novo seja de menos drama. Não falo das tristezas sinceras que, como todo ano, nos surpreendem sem que possamos esquivar. Essas precisam ser vividas, sentidas, pra que um dia sejam lembradas sem ferir demais. Me refiro aos dramas quase de novela, uns roteiros mal escritos que às vezes insistimos em atuar. As famosas picuinhas, as intrigas, as torres de babel feitas de isopor, erguidas sobre nada e exibindo uma falsa imponência. Isso, por incrível que pareça, exige grandes investimentos para serem mantidas e sempre acabam por desperdiçar um tempo e uma energia grande da vida. Então, para encerrar, aqui vão meu votos: em 2010, desejo a todos menos drama em suas vidas. E feliz ano novo!

foto: Google imagens