Morar sozinha foi uma conquista. Ou melhor – uma exigência, que foi se tornando cada vez mais inadiável ao longo os anos de apartamento compartilhado. Aprender a dividir o espaço é tarefa que recomendo a todos, pois se tira disso lições valiosíssimas. Mas chega uma hora que é preciso estudar em silêncio, sem outras vozes, sem a televisão ligada, sem os amigos dos amigos que estavam de visita. Um canto só seu, num certo momento da vida, é uma dádiva pela qual devemos agradecer. Mas é também preciso lidar com uma certa solidão, com o silêncio dos outros momentos em que uma conversa seria mais bem vinda que um livro. Ou com aqueles fatídicos dias de gripe-derruba-leão que não nos deixa chegar nem ao telefone pra pedir um remédio. Ou, ainda mais grave, os dias em que o apartamento ganha vida, se revolta e não há ninguém além de nós mesmos para resolver os “pepinos”. Esses dias são os piores. Mas felizmente eu tirei a sorte grande. Encontrei meu cantinho num prédio de porteiros com poderes mágicos, capazes de consertar o cano estourado da cozinha que inundou o andar inteiro ou de trocar os fios do chuveiro que pegaram fogo. Esses são os verdadeiros super-heróis do nosso dia-a-dia. E o mais curioso ainda está por vir: conhecer o pai da namorada pode até dar um frio na barriga, mas encarar a cara fechada dos porteiros é desafio maior. Esse fenômeno dos porteiros sem sorrisos só vi em duas ocasiões: o dia em que alguém deixou de cumprir o horário e o plantão dobrou e o dia em que passei na portaria de mãos dadas a outras mãos. O mínimo que poderia fazer era ter levado o moço pro Seu Antônio conhecer - foi mesmo uma falta de respeito. Na semana passada, fui visitar uma amiga, e o Seu Roberto, porteiro do prédio, falou: “leva mesmo ela pra sair, ela anda ficando muito dentro de casa”. Todo mundo tem uma história pra contar desses que acabam cuidando muito da gente, sem esquecer das clássicas, daqueles mal humorados que não gostam de abrir o portão, dos que dormem à noite e não acordam por nada nesse mundo, dos que sabem uns segredos que só as paredes ouviram. A esses que cuidam da gente das formas mais engraçadas, dedico esse texto e o meu muito obrigada.
Imagem: Google imagens
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