sábado, 8 de maio de 2010

Mesmo assim

Se maio é o mês das noivas, 2010 é o ano dos casamentos e chás de panela. O moço das lojas americanas, do departamento de cozinha, mesa e banho, já até me conhece pelo nome. Basta me ver de longe que já acena e pergunta qual o casal da vez para acessarmos a lista de presentes. E ainda que o orçamento reclame, meu coração se enche de felicidade ao ver amigas e amigos tão queridos juntando as escovas de dente. Inaugurar uma vida a dois não é coisa fácil (disso todos temos certeza), mas certamente há nisso muitas alegrias. O padre de um dos casórios, protagonizando a cerimônia mais incomum que já testemunhei, perguntou ao noivo por que ele tinha escolhido aquela mulher para estar com ele no altar. A resposta? “Porque eu sinto falta até das brigas dela”. E continuou listando alguns defeitos que ele já bem conhecia e ainda assim a queria para estar ao seu lado. Romantismo e suspiros femininos à parte, achei essa a mais corajosa das respostas. Saber sobre aquele com quem se dividirá alianças ou lençóis, conhecendo suas ‘segundas e sextas’, e ainda topar a parada, é a prova real que se faz no fim das contas. Depois o padre repetiu a pergunta para a noiva. Ela disse que admirava o futuro esposo porque ele estava sempre tentando ser uma pessoa melhor. Aí entendi que a mais corajosa das respostas ficava capenga sem isso. ‘Gostar do outro do jeito que ele é’ é regra fundamental para que uma união seja possível, mas é também preciso que cada um cuide para não estagnar naquilo que desagrada. Troço pra lá de complicado, que vai se fazendo nas pactuações e conversas do dia-a-dia, dividindo. Por enquanto, eu prefiro continuar admirando os casamentos da “platéia”, mas é nesse clima de declarações de amor (chegando, inclusive, a virar tema recorrente nos blogs que mais freqüento – viu, Lena, também sou sua leitora assídua, não é só o Vitor, não!) que encerro esse post. Encontrei um moço que mora a quilômetros de distância, que chama cerveja de “breja”, que jura que Rage aganist the machine é a melhor banda dos tempos e comete a blasfêmia de dizer Beatles é ruim, e ainda assim me fez gostar muito dele. Outro dia me deu de presente um cd de músicas brasileiras com versões instrumentais muito originais. Ok, me convenceu: já está procurando ser uma pessoa melhor. Mas pra gostar de Chico Buarque acho que ainda leva duas, três encarnações. Não tem problema, gosto muito dele, mesmo assim. 

foto: Lena Fialho

terça-feira, 20 de abril de 2010

Três (ou seis) reações adversas (e verídicas)!

pegando emprestado das conversas com Helena e Alininha


- Vai saindo do carro, isso é um assalto!!!
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- Moço, vocêtempenademim! Aindatôpagandoprestaçãodessecarro,numtemseguro,tôcomdoisfilhos
prapagarescola,agoracêimaginaeuficarsemcarro,comoéquevoulevarascriança,
eoquequemeumaridovaidizer,moço,cênãosabecomoéquemeumaridoé,ocasamento
játápelaspontas,aimeuDeus,meuproblemadecoração,aimeuDeus,tôtendopalpitação
denovo,achoqueuvoupassarmal,moço,tenhotantacoisaprapagar,moço...

- Aí, a senhora é cha-ta-pa-ca-ra-lho, hein...

E foi embora.
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- Olha só, pode até levar o carro, mas não vai levar minha carteira, não. Tem meus documentos aqui, e só isso, tá vendo?? Dinheiro nenhum!! Aproveita e some com esse carro daqui, leva pra bem longe, porque o seguro ainda vale mais que essa joça!

- Pra sumir com o carro é 100 reais...

- O quê?? Cê ta de sacanagem com a minha cara... 100 reais?!?! Acabei de te mostrar a carteira, não tenho dinheiro, tô dura, tá achando o quê?

- Que isso é um assalto, dona...

- Não tenho 100 reais!!!

Dois dias depois, o carro apareceu, na mesma rua.
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- Deixa eu só tirar as crianças!! João, sai do carro, sai do carro... Moço, você não deixa eu pelo menos eu levar essa bola da Copa? Nem preciso pegar as mochilas, é só a bola... Ele vai chorar até amanhã por causa dessa bola... Vem João, vem!

- Agiliza aí, agiliza aí!!! E deixa a bola!!

- Mas pelo menos anda devagar nessa rua, tem escola aqui, tá na hora da saída... E vai com Deus!!

Mais a frente, o vidro abriu e jogaram a bola. As mochilas? Apareceram no quintal do prédio, no dia seguinte.



imagem: www.sergueicartoons.com

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Coceira

Assim que fui emancipada do quarto coletivo, ganhei uma cama, de madeira maciça, e uma escrivaninha, de um material não tão nobre, mas que me serviu por anos para fazer as lições de casa e guardar a coleção dos manuais Disney. Essa fiel escudeira me acompanhou em incontáveis mudanças, não apenas nas passagens de série ou na renovação dos títulos na prateleira, mas nas mudanças que de fato meu quarto sofria quase que semestralmente. Às vezes mensalmente, semanalmente ou ainda diariamente. Eu cansava quando as coisas ficavam muito tempo no mesmo lugar e decidia por uma nova arrumação. A escrivaninha andou por tantos cantos, paredes, posições, que num dia triste de móveis parados não resistiu e desmontou. Aí veio um armário maior, feito da tal madeira maciça, à prova dos meus intempestivos desejos de mudança. Mudar tudo era quase fazer um dia 1 de janeiro no meio da rotina de agosto. Era o frescor do novo, da possibilidade do novo, das percepções do novo. Pensar que as coisas eram de um jeito apenas porque as organizamos assim e, por isso mesmo, podíamos organizar de outro, era uma boa lembrança que essas experimentações me traziam. Depois vieram as tintas, que me economizaram o arrastar de escrivaninhas. Mas esse imperativo de mudança, quando acho que sossega, solta como quem não quer nada uma formiguinha para andar no meu pensamento. E lá vem outra vez um monte idéias a ficarem coçando na cabeça. Mas resta dessa história dois grandes desafios: ver o que há de novo no mesmo e  também viver a permanência das coisas. A cama e o guarda-roupa ainda estão por lá. 

foto: lu franco

domingo, 21 de março de 2010

Por nada

inspirado numa conversa de um dia cansado com a Lívia

Tem dias que são emperrados. Talvez o domingo tenha levado a fama por estar mais desatado dos compromissos da semana, deixando as horas à nossa própria programação. Se Deus descansou no sétimo dia, por que nós, pobres mortais que não vivem em São Paulo, haveríamos de trabalhar? Mas são nesses dias de agenda livre que se corre um grande perigo, o perigo tentador do ócio. Não o ócio por livre arbítrio ; às vezes é preciso decidir por não fazer nada - fazer nada e deixar vir um sono, fazer nada na frente da tv, fazer nada por cinco minutos. A vida anda tão cheia que às vezes temos que nos esvaziar. Mas o ócio que emperra o dia... esse sim é uma maldição. Tudo fica com começo e sem conclusão, os minutos passam como relâmpago e inacreditavelmente você continuou sem fazer nada. Uma manhã inteira ocupada por nada. Uma tarde inteira ocupada por nada. Uma frase inteira ocupada por nada. Nada. É claro que esse nada também é feito de algo, mas é o mesmo que achar sentido em discurso de político. Bom, nada por nada, pelo menos esse dia emperrado rendeu um post.
 
foto: lu franco

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mas é carnaval...

Paramos para esperar um caminhão abrir passagem na calçada quando, do outro lado, dois homens de chapéu colorido e imitando uma sirene aproveitaram o primeiro vão e atravessaram correndo. Como sabiamente observou uma amiga, se fosse num dia qualquer, continuariam esperando, inconformados, xingando baixinho o motorista e alargando o nó da gravata com um puxão nervoso. Mas naquele dia, meus caros, era carnaval. Lembro que, indo ver os fogos no reveillón, já ouvíamos o grupinho encervejado do fundo do ônibus cantando marchinhas de carnaval. É a festa mais esperada do ano e conhecida por de fato inaugurar os pecados do lado de baixo do equador. Sem querer puxar a coroa pro meu lado, mas carnaval como o do Rio de Janeiro nesse mundo não há. E nem me refiro aos desfiles na Marquês de Sapucaí, mas aos que acontecem nos marqueses menos famosos, nas praças, nas ruelas, nos encontros. As pessoas ficam mais acessíveis, para rir das coisas, puxar uma conversa qualquer, atravessar a calçada correndo imitando uma sirene. E, é claro, para ‘ser da maneira que você quiser’. A gente se permite um pouco mais, se permite ultrapassar umas barreiras invisíveis que nos distanciam do outro, abrindo um sorriso ou trocando uma palavra. Se permite vestir dos jeitos mais diversos, mais improváveis, mais criativos – ver a rua colorida de roupas e perucas e o chão pintado de confetes é paisagem das mais bonitas. É uma pena que amanhã tudo volte ao normal. Mas ano que vem tem de novo. Só faltam 11 meses. 

"Carnaval dá alegria".   Laura Noronha

 foto: lu franco

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A paixão segundo L.F.

Nunca tive medo de barata. Medo, daqueles de gritos histéricos e pulinhos na cadeira, nunca tive. Nojo sim, mas nada que me impedisse de continuar na calçada. Depois de um desvio quase respeitoso, cada uma continuava seguindo seu caminho, sem grandes estardalhaços. Foi então que o fatídico encontro aconteceu. Ultrapassando os limites permitidos pela tolerância social, uma barata entrou na minha casa. Mas, como diria Guimarães Rosa, mire veja: não se tratava de qualquer barata. Não era uma mera baratinha distraída, que talvez por um descuido tivesse tropeçado no parapeito e precipitado a janela; era, ao contrário, a  maior barata do mundo, com duas antenas de metros de altura, que sem nenhum respeito ou permissão adentrou meu imaculado lar. E o pior ainda estou por contar: ela voava! Se jaca não podia dar em árvore, barata tampouco podia voar – e foi blasfemando as incoerências da mãe Natureza que me dispus a encarar a maldita voadora. Ela perseguia a TV e as lâmpadas, e foi numa delas que resolveu descansar. Como sou a favor dos embates apenas quando necessário, apaguei todas as luzes, desimpedi a janela afastando a cortinas e me resguardei no banheiro. Pela primeira vez, senti medo de uma barata. Não sabia quantos minutos esperar – quantos minutos se espera para uma barata ir embora? Me senti uma refugiada pensando no que poderia ter levado para o banheiro para me distrair, talvez o livro que já estava no final. Saí de mansinho, protegida por uma parede de lençol erguida por mim mesma, mas a insolente não tinha entendido o recado. Continuava lá, tranquila, me olhando com a ousadia de uma barata com asas. Foi hora de pegar a vassoura. A cada aproximação, ela voava, e eu, desonrando a primeira frase desse texto, gritei. Estava realmente com medo de uma barata. Pensei em chamar o porteiro, ligar pra uma amiga, jogar água sanitária na lâmpada – me senti numa fragilidade quase insana, afinal de contas, era só uma barata. Mas eu não sabia o que fazer. Tenho uma amiga que diz que a dor lhe aproxima do que é mais humano; uma barata me fez experimentar essa fragilidade. Me senti num enredo de Clarice Lispector. Já quase vencida pelo cansaço, consumindo horas da madrugada, a invasora resolveu partir, me deixando com uma insônia e meia dúzia de questões existenciais. Novo dia, nova noite, novo início de madrugada, e quem resolveu aparecer para uma nova visita? Ela mesma, ou a sua irmã gêmea, pois continuava sendo a maior barata do mundo. Mas dessa vez (ela mal podia esperar), eu não estava só, e depois de um pisão número quarenta e um tudo estava resolvido. Gosto quando a vida pode ser simples assim, gosto de quem prova que ela pode ser. E que a gente pode ser forte diante de uma barata com asas. Mas nunca mais me faltará um Baigon Hight Ultra Protect No Invasion Any More no armário lá de casa. Só por precaução.

foto: Google imagens

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Duas cenas


Duas cenas de roubar palavras por dois grandes diretores. Um casebre de madeira, umas primeiras notas de caixinha de música, um lençol branco desprendido do varau revelando a poeira de um carro na estrada. A moça vai pra dentro de casa, o pai molha o rosto com grosseria, uma tensão aparece. De dentro do carro, um general de sorriso farto, de gentileza fina, de muitas delicadezas. E a conversa segue civilizadamente preocupante. O pai não faz um gesto além, não lhe sobra expressões. Apenas quando o pior acontece, e antes dele uma espera torturante, os olhos ficam rubros e transbordam de expressões e lágrimas. Somente os olhos. Se essa enorme cena tivesse nome, se chamaria angústia.
Os olhos deixaram de ver, ficaram tristeza. E no caminho da estrada, uma praia, uma parada, duas descidas – o menininho lhe guia pela mão até a chegada na areia. Nenhum dos dois conhecia aquele mar: o menino, mar nenhum conhecera antes, e ele, nunca experimentara como naquele momento o vento, a maresia, o barulho dos cachorros, as lembranças. Pipas voando, menino correndo, ele sentindo. E então não precisa de palavra – é sensação. É a cena mais bonita, se chama liberdade. 
Os filmes? Quais eram? E de quem? Nem preciso dizer. 

foto: Google imagens

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Not drama


Não poderia isentar o primeiro post de 2010 dos votos que nos fazemos ao despertar de cada ano. E como todo ano, também desejo a amigos e familiares, próximos e distantes, que recebam as bênçãos de muitas alegrias e boa saúde. Mas dessa vez decidi inaugurar o calendário com novos votos, sem deixar, é claro, de reforçar os antigos. Entre estes, estava boa parte da lista do que é tão importante e tanto carecemos nesses tempos: paz, compreensão, amor, gentileza, cuidado. Foi aí que resolvi esticar as linhas pensando no que mais poderia ser desejado. Quem sabe o mundo estivesse precisando de mais paixão. Não por suscitar os excessos ou desalinhar os freios. Mas para que as pessoas se sentissem mais implicadas no que fazem, no que acreditam, no que esperam de mudanças. Era isso – o mundo precisava de mais presença, de mais mãos-à-obra. Ou talvez não seria de mais olhar, de mais encontros? Temos nos tornado invisíveis ao outro, ou estamos fazendo dos outros invisíveis, você também não tem notado isso? Pensei em tantas outras coisas para atualizar minha lista de votos de ano novo... Todas concorreram com igual relevância para ocupar aqui seu lugar, mas para que não virassem mais uma palavra entre tantas, preferi eleger apenas uma. Meu desejo, então, é que esse ano novo seja de menos drama. Não falo das tristezas sinceras que, como todo ano, nos surpreendem sem que possamos esquivar. Essas precisam ser vividas, sentidas, pra que um dia sejam lembradas sem ferir demais. Me refiro aos dramas quase de novela, uns roteiros mal escritos que às vezes insistimos em atuar. As famosas picuinhas, as intrigas, as torres de babel feitas de isopor, erguidas sobre nada e exibindo uma falsa imponência. Isso, por incrível que pareça, exige grandes investimentos para serem mantidas e sempre acabam por desperdiçar um tempo e uma energia grande da vida. Então, para encerrar, aqui vão meu votos: em 2010, desejo a todos menos drama em suas vidas. E feliz ano novo!

foto: Google imagens

sábado, 19 de dezembro de 2009

"Eu te amo"

Tenho muitas lembranças das nossas viagens de fim de ano. A programação das férias era passar o dia andando de bicicleta, chupando picolé, brincando na areia e comendo bolinho de aipim, com as  mesmas mãos de areia, no quiosque da Ritinha. Lembro que o dia de descer a serra começava cedo, quando a cor do céu ainda estava azul marinho. Enquanto a gente escovava-o-dente-mudava-de-roupa, meu pai ia arrumando espaço para as mil e uma malas que minha mãe tinha preparado, mas que ainda faltavam duas ou três. Lembro do carro descendo a rua e do dia amanhecendo – era a parte que eu mais gostava da viagem. Mas antes disso, esperávamos uns bons minutos no banco de trás até tudo ficar pronto, e o toca-fitas ia inaugurando a trilha sonora da estrada. Foi aí que conheci Chico Buarque de Hollanda, o moço de voz calma e meio engraçada, que embalava de volta nosso sono e cantava para o sol ir chegando. Lembro que a primeira música que soube de cor foi ‘A Rita’, que cometeu o disparate de deixar mudo um violão. Mas eu gostava mesmo era do vai-e-vem da melodia, ou talvez preferisse achar que a Rita também fazia os melhores bolinhos de aipim da Praia da Tartaruga, e por isso estava perdoada. Depois fui passando a ouvir com cuidado as letras das músicas, e o que era uma mera simpatia, se tornou um grande encantamento. Meu pai tinha uma enorme coleção de vinis e colocava os discos pra tocar enquanto acompanhávamos os versos na contra-capa. E eu me apaixonava ainda mais por Chico Buarque, por seu cuidado com as palavras, pelo trato em cada frase, pelo jogo de sentidos que só ele sabia fazer. E do vai-e-vem da melodia, fui sendo convidada a sentir. As músicas do Chico são músicas de sentir. Algumas me fazem arrepiar só de lembrar dos versos que mais gosto, eu confesso. Confesso também que gritei “eu te amo”, do alto da cadeira, como uma boa tiete, em pleno show no Canecão. Sabe-se lá quando ia poder ver o Chico de novo; me permiti a descompostura. Quando soube que a mulherada já tinha perdido a linha e estava subindo no palco até me achei humilde na demonstração de afeto. Somos muito, muitas amantes. O Veríssimo certa vez escreveu uma crônica em que um casal preparava o contrato nupcial quando começaram a discutir sobre a cláusula da fidelidade. O noivo ponderava uma certa flexibilidade para situações com “oportunidades imperdíveis”, como ficar preso num elevador por mais de vinte minutos com a Luana Piovani, ou as dançarinas do tchan, a Patrícia Pilar ou a Luma de Oliveira. A noiva concordou, contanto que a regra valesse pros dois, caso ela também ficasse presa no elevador com Maurício Matar, Antônio Fangundes,... E, indignado, ele vetou inúmeros nomes, até concordar com um, já sem argumentos: Chico Buarque. “Mas só com o Chico Buarque. E só se o socorro demorasse mais de uma hora!”. Não tem argumento, a admiração pelo Chico é unânime. E, continuando com o Veríssimo para encerrar esse post, “quando a nossa geração tiver que fazer um balanço dos seus merecimentos e misérias para ser julgada, poderemos todos usar esta credencial: fomos contemporâneos do Chico Buarque. E exigir tratamento especial.” É mesmo um privilégio.

foto: Google imagens

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Passagem


A grande maioria dos meus amigos de faculdade veio morar no Rio depois do vestibular. Era época de festas, de descobrir a nova cidade, de conhecer os lugares daqui. Andávamos pelo Rio de Janeiro com os olhos atentos para a novidade e com os pés perdidos entre tantos nomes de ruas e letreiros de ônibus. Tudo era bom de se conhecer, e a madrugada se tornou uma grande companheira nos retornos pra casa. Hoje nossos olhos estão ainda mais atentos, e os pés já não podem ficar incertos sobre que caminhos seguir. Principalmente nas horas que pertencem à madrugada. É, é isso, infelizmente: estamos todos com medo. Ontem uma amiga contou que voltava para a casa quando dois meninos lhe alcançaram. Meninos de dez anos, ou onze para o mais velho. Estava com uma sacola de compras e viu que eles sussurravam alguma coisa. Retirou um pacote de pão, mas os meninos não pegaram. Só entendeu que era um assalto quando ouviu o que dizia o mais novo: “fura ela, fura ela!”. Ele repetia com raiva, com olhos de raiva. Fico muito assustada quando ouço essas histórias. O que levou uma criança de dez anos a desejar com tanto rancor que alguém sentisse essa dor, que ela fosse marcada na carne? Mas como poderia querer outra coisa, quando é só isso que tem? Os chutes e golpes de cacetete pra mudar de calçada, os olhares de indiferença e medo dos por ali passam, a cama e o banheiro na sujeira da rua. E quem se importa? E quem olha pra isso? Só o fazemos pra pedir mais segurança, para nós, para deixar as calçadas limpas, para nós – nós que temos ali um lugar de passagem. Passagem para o retorno pra casa. Hoje é o medo que se tornou o companheiro, tenho medo de andar nas ruas do Rio de Janeiro. Tenho medo do que estamos produzindo com esse esquecimento de quem teve que fazer da rua um lugar de morada, de quem teve que fazer a morada com papelão e resto de material, de quem virou o resto. De quem só é visto na radicalidade da violência. Precisaremos de muito pra mudar esse cenário. Muito mais que um pacote de pão.

foto: lu franco

domingo, 13 de dezembro de 2009

Bandeira branca



Antônio jamais iniciava a leitura de um romance sem que antes já soubesse o final. Depois dos três enfartos e duas pontes de safena, ele desistira de viver grandes emoções. Preferia manter a segurança longe dos segredos que os autores insistiam em lhe esconder. Era um homem realista e sabia que a precaução não garantia o controle absoluto, mas sem dúvida seria poupado das angústias que só sentem os desavisados. Se algo surgisse sem que estivesse esperando, seria um susto só e, já recuperado o fôlego, não desacreditaria de sua estratégia, ao contrário, imaginaria como teria sido sem ela, a esperar a todo tempo sobressaltos como aquele.
Investigava com rigoroso cuidado cada indicação que chegava a seus ouvidos, repetindo um procedimento que lhe assegurava a confiabilidade do método. Tomava nota, em entrevista aos sujeitos que nomeava de “Indicadores”, do título e das surpresas escondidas no enredo; pesquisava obra e autor em sites especializados, que faziam um resumo dos principais pontos do romance, e, finalmente, olhava as últimas páginas da história. Não que fizessem algum sentido naquele momento, mas tinha certeza de que, em breve, aquelas linhas revelariam boa parte do mistério e poupariam mais alguns anos para seu pontificado coração.
Num dos eventos literários da cidade, foi apresentado a Riobaldo Cícero, o mais famoso escritor de best-sellers do momento. Não que fosse fã desses livros, ao contrário; talvez fossem os únicos que não lhe causavam simpatia. Mas era sobre os quais todos cochichavam, pelos cantos, nas filas de banco, em poltronas de livraria. E isso lhe matava: ouvir os trechos, saber dos personagens, vê-lo exposto nas vitrines e não ter lido o livro. Aí a ansiedade, que tanto repugnava, que tanto lutava para não sentir, tirava-lhe o sono a imaginar o enredo da maldita obra.
A aparição de R. Cícero foi inesperada, o que o fazia merecedor de um repúdio ainda maior. Não estava na programação do evento, apareceu de última hora, provavelmente a mando da editora. Riobaldo, nome de um personagem de Guimarães Rosa, escolhido possivelmente por uma mãe que apostava no filho o futuro de um bom escritor. E ele publicando esses livrecos – aquele coração não deve ter resistido, infarto com certeza. Mas não era pra isso que tinha deixado de ir ao sarau no Castelinho do flamengo. Se soubesse, tinha ido embora logo depois da primeira palestra, mas levantar da cadeira no meio de uma exposição não fazia seu estilo.
Agüentou firme, suportou como um herói os exatos 47 minutos que o traidor de Guimarães Rosa falava com pompa dos milhões de exemplares vendidos. A cada frase, que lhe furava os ouvidos com trechos que não entendia, porque não tinha lido o livro, se contorcia discretamente na cadeira. A ponto do colega ao lado se compadecer, dando-lhe um tapinha nas costas, piscando de um olho e dizendo: “gases, né?”. Por fim, levantou a bandeira branca, pegou um dos livros que tomavam toda a estante e foi pra fila de autógrafos. Chegando sua vez, pediu uma assinatura e uma dedicatória: a Antônio, aquele que foi vencido pelo cansaço. “Não tenho mais idade pra isso, filho”.


fotos: lu franco

domingo, 29 de novembro de 2009

Coisa boa


Deslumbramento, Cochichando, Cuidado violão, Devagar e sempre, Lamentos, Paciente, Receita de samba, Genioso, Um a zero, Quem é bom já nasce feito, Carinhoso, Flor de abacate, Andre de sapato novo, Fala baxinho, Já te digo, Ingênuo, De coração a coração, Ternura, Jamais, Inimigo da Onça, Saliente, Direitinho, Deixe o breque pra mim, O disco enguiçou, Cabecinha no ombro, O canário e a tuba, Castiguei, Barril de Chope, Naquele tempo, Os oito batutas, Sinuosa, Degraus na vida, O trombonista romântico, A César o que é de César, Doce de Coco, Enigmático, Pedacinhos do céu, Sonoroso.
Chorinho é tão bom que até os títulos das músicas soam bem...

foto: lu franco

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Pense nisso

Têm muitas coisas que me assustam nesse Brasil. Os atos de violência que beiram a perversidade, a miséria que infringe os direitos mais fundamentais da vida, a ganância que atropela milhões de pessoas para esvaziar outros milhões dos cofres públicos. E creio que isso assuste a todos, não só a mim. Contra essas terríveis evidências, formamos facilmente um grande grupo. Mas há ainda muito mais com o que se preocupar. Por trás dessas práticas chocantes, existem discursos perigosíssimos, disfarçados em boas palavras e muito mais fáceis de enganar. E com eles é preciso ter atenção em dobro.

Estava trocando de canais agora pela manhã quando vi na TV senado uma discussão sobre o projeto de lei que defende que a discriminação contra homossexuais (PLC 122/06) seja entendida como crime. O senador Magno Malta (PR-ES) se posicionava em nome de outros tantos contra o projeto, alegando que teria que rasgar a Bíblia se concordasse com aquilo, pois estaria indo contra as palavras de Cristo. Disse que todos merecem respeito, as crianças pelas quais tanto luta, os nordestinos em São Paulo que sofrem discriminação, os homossexuais inclusive, apesar de não concordar com esta orientação. Mas que falava em nome de toda a sua banca: estavam de cabeça feita e iriam derrotar o projeto. Não entendi. O projeto não é sobre homossexualismo, mas sobre discriminação – justamente aquela que ele condenou. Usar um Deus que se crê soberanamente bom e justo como argumento é ainda mais contraditório – mas deixemos essa polêmica para outra ocasião. A senadora Fátima Cleide (PT-RO), que apresentou um substitutivo do projeto com algumas modificações, pediu a palavra, mas o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Cristóvam Buarque (PDT-DF), adiou a discussão para conseguir aprovação de outro importante projeto, ‘já que estava sendo muito difícil conseguir quórum para votação’. Foi lamentável vê-lo pedindo encarecidamente ao senador Mão Santa (PSC-PI) que não fosse embora, receando perder o número mínimo de senadores. Ele foi. Mais coisas que me assustam. Depois, a senadora Fátima lembrou das inúmeras mortes motivadas por pura discriminação, e reafirmou que o projeto estendia a punição ao preconceito contra outras minorias. E por preconceito entende-se a privação daqueles mesmos direitos oferecidos a outras pessoas, como passar num processo seletivo, ter acesso aos diversos estabelecimentos, demonstrar afeto em público. É uma questão de respeito aos direitos humanos. Título, inclusive, que dava nome àquela comissão. Por ironia do acaso, deve ter sido.


foto: Google imagens

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Até


Eu sempre fico triste quando preciso me despedir. Não nas despedidas corriqueiras, nos “até logos”, porque nestes ‘o tempo se conta em dias, não em anos’. Mas quando o tempo anuncia que a tarde será uma longa estação de espera, aí sinto meu coração apertar. Ainda não descobri como se faz isso – dizer adeus sempre me convoca a uma certa descompostura, a uma desmedida que a cada vez tento dosar melhor. Mas não é algo que seja fácil de se fazer, isso não é mesmo. Saber que algo se encerra, ter que escutar a ausência são tarefas árduas, mas que de alguma forma precisamos dar conta. A minha conta costuma ser uma integral das mais complicadas, onde se faz e refaz os cálculos, discute-se os resultados controversos, inventa-se uma outra teoria. É um processo que leva tempo, aquele tempo doído que deixa as tardes longas. Mas se é assim tão difícil perder, é porque os encontros foram bons, produziram bons afetos, deixarão boas lembranças. Vai ver que esta é a lição me cabe: senti-los como presença, não como falta. Finais definitivamente nunca foram a minha especialidade. Quem sabe um dia eu até



"Despedir dá febre".    Guimarães Rosa

foto: lu franco

terça-feira, 10 de novembro de 2009

,


Deixou correr o dedo entre os livros da estante e destacou um deles para fora da prateleira, fazendo-o equilibrar-se num de seus vértices. Hesitou por um instante em retirar dali o punhado de folhas envolto pela capa de cores indefinidas – talvez não quisesse ler. Mas precisava ocupar-se de algo e encontrou nas cores da capa as mesmas indefinições que a faziam sofrer. Passou com indiferença pelo que diziam da publicação, do livro, da autora, do que diziam sobre o que diziam, e encontrou no início da história uma vírgula. A história começava com uma vírgula. Pensou que estava assim, vírgula. Depois de tantos pontos curiosos, risonhos, enfáticos, acentos, estava assim - vírgula. Avançou linhas à frente, mas todas diziam do que não queria saber. Parecia que o mundo não tinha outro assunto. Retornou a histórias antigas e ainda nelas encontrou o mesmo enredo. Esforçava-se por vasculhar nas palavras alguma que pudesse dar um ponto final. Mas não tinha palavras, era vírgula. Era pausa, era silêncio, era lágrima. Então era isso, então...

"...faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos (...) faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta..."
                                                                                                       Clarice Lispector

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ali



Ainda faltavam dias para chegarmos, mas parecia que eu já havia estado lá. Eram tantas fotos, histórias e expectativas sobre aquele lugar que ele me era quase familiar. Mas ver ao vivo os primeiros raios de sol cortando as nuvens e iluminando Macchu Pichu foi uma experiência que me deixou nua de palavras, e certamente superou tudo aquilo que eu podia imaginar. Passamos um dia percorrendo os corredores de grama verde e as impressões que ainda estavam tão vivas da civilização Inca. E, num intervalo entre tantos encantamentos, me distraí com dois meninos que brincavam por ali. Eles concorriam quem seria capaz do salto mais alto, pulando num dos imensos degraus que contornavam a cidade. Iam e voltavam, repetindo a cada vez com maior ousadia. Não estavam preocupados com as explicações dos guias que se ramificavam nos mil patamares, não carregavam o peso de história nenhuma. Eles brincavam, desdenhando das tantas expectativas com que eu havia chegado ou da responsabilidade de estar visitando umas das maravilhas desse mundo. Na ânsia de aproveitar o máximo, eu carregava também a possibilidade de não fazê-lo – e os passos e olhares ficavam permeados pelo tanto que significava pisar ali. Os meninos pouco se importavam com tudo aquilo, apenas aproveitavam.
Lembrei disso quando conversava com uma amiga sobre o passar dos anos que já começa a nos preocupar. Principalmente nessas épocas de aniversários, o assunto se torna quase inevitável. Ela me contava de quando era criança e andava pelas pedras da cachoeira, saltando de uma a outra sem nenhum receio, e não entendia por que a mãe se desequilibrava tanto para fazer o mesmo caminho. Hoje não tem mais essa certeza nos pés, não se lança com tanta facilidade. E então chegamos a uma conclusão de domingo de tarde em bar de esquina: ficar velho é ter medo de se lançar. Claro que os anos vão trazendo um conhecimento que só ele é possível trazer – e também há aí importantes conquistas. Mas certamente os passos vão ficando mais cuidadosos e as experiências mais cheias de receios. A gente pensa tanto que vai deixando de vivê-las, de sentir suas intensidades, de se entregar um pouco ao que está acontecendo. Ficar vendo criança brincar é ótimo para nos lembrar disso – parece que o mundo pára pra brincadeira acontecer. Cada reinicío é como se fosse a primeira vez, é sempre uma novidade. E aqueles dois meninos me fizeram deixar a bagagem que eu carregava sobre Macchu Pichu para levar apenas o que importava dali, a meu próprio modo. Resgatar o frescor das experiências é tarefa que se deve exercitar a todo instante. Mas também é certo que cada experiência traz grandes responsabilidades e... opa, eu e meus pensamentos de novo...

foto: lu franco

sábado, 31 de outubro de 2009

Coração sofredor


Eu estava de passagem pelo Largo do Machado quando fui parada por uma frase. "Foi muito, muito sofrimento..." Até aí não imaginava o que poderia ter deixado aquele senhor de expressão tão triste, com a postura recolhida que carregava o peso do dito sofrimento. Quase cedi um gentil abraço, sem me preocupar se não nos conhecíamos. Mas depois vi que ele já estava sendo acolhido pelos amigos de praça, que descansavam nas mesinhas de pedra com um radinho de pilha grudado no ouvido. "Foi sim, muito sofrimento...". Achei que seria gentileza demais abraçar a todos e recuei no impulso fraternal. Mas maldisse em pensamento aquele que estaria penitenciando os singelos velhinhos. Que crueldade, meu Deus! E quando comecei a me questionar “em que mundo nós estamos”, fui percebendo que o causador de tamanho sofrimento não era um, mas onze. Dezoito, na verdade, contando com o banco de reservas. E mais um técnico que recebe uma fortuna pra fazer um trabalho de merda – palavras do velhinho. Eles falavam de futebol, e eu me indignaria por minutos atrás ter compartilhado daquela dor se ela não fosse tão verdadeira. O senhor estava tomado por um sofrimento sincero e cansado, de um coração calejado de fiel torcedor. Algo que talvez eu nunca vá entender. Como pode alguém torcer por um time, se ele é formado por jogadores que nunca vestem a mesma camisa por mais de um ano? E se aquele jogador do time rival que você tanto enche de injúrias, pode estar no seu time amanhã? Já entendi, apesar de não concordar, a regra do impedimento, mas esse amor que faz o velhinho sofrer, às quartas e domingos – não, isso não entendo. Pelo menos, na minha ingênua ignorância, o futebol me rende boas risadas, de segunda a sexta, às 12 horas, no RockBola.

foto: lu franco

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Absurdina


Confesso que não gosto de assistir jornal. Algo que não recomendo, nem espero que ninguém tome como exemplo, afinal, é fundamental estar ciente do que se passa no país e no mundo. O conhecimento e a crítica são duas grandes ferramentas para melhorar o que quer que seja e, mais importante, não devem jamais andar em caminhos separados. Mas é justo essa questão que me desagrada: as notícias são relatadas com pouquíssima reflexão. O que os noticiários geralmente conseguem despertar é uma grande sensação de impotência e um certo conformismo perante aos escândalos que nos chegam todos os dias. Ouvi um diálogo na novela das seis que lembrava uma frase do Lima Barreto muito boa para nos cutucar: “O Brasil não tem povo, tem público”. Parece que a novela, por mais absurdo que pareça, está mais crítica que o Jornal Nacional. Mas os absurdos são tantos e tão escrachados que, de todos, esse ainda é o menor. Trocando canais, cheguei ontem onde até Deus talvez duvidasse: estava Sarney fazendo um discurso sobre como hoje em dia não se tem mais direito à privacidade. E, indignado por terem investigado sua vida e descoberto apartamentos sem declaração, acordos para colocar parentes no poder, transições ilegais pela empresa do filho, declarou: “O que devemos fazer?”. Eu respondo: essa é uma ótima pergunta.
Aproveitando a indicação, recebi pela internet um email convocando todos a protestarem, da forma que puderem, no dia 7 de setembro, às 17:00, contra tanta corrupção. É um primeiro movimento (chamado de “Esta é a hora”). Ou será iremos assistir mais uma vez sentados na poltrona e, só depois que o espetáculo terminar, dizer que estávamos achando tudo uma merda?

foto: www.animatunes.com.br

domingo, 16 de agosto de 2009

Sem lágrimas


Sábado de manhã, despertador sem soneca,
olheira de 6:15, blusa preferida com mancha
de café, xampu próprio para outro cabelo,
bolsa cheia de esquecimentos, instrumento
na casa da amiga, dois ônibus perdidos,
motorista fazendo hora, pernas contando
minutos, o ponto mais longe do mundo,
trocador mau-humorado, passos corridos,
atrasada no primeiro dia, inscrita na turma
errada. Mas nada era motivo para choro.
Só se fosse em dó maior. Estava no jardim
florido da Escola Portátil de Música.

foto: lu franco

domingo, 2 de agosto de 2009

Na rua


O sono demorou a chegar e deixei a tv baixinha para não espantá-lo. Já estava me aconchegando nos braços de Morfeu quando fui despertada por uma frase muito curiosa – “a gente trabalha vendendo cenas”, com direito a escolhê-las pelas opções de um cardápio e a preços acessíveis. Era o grupo de teatro Santa Víscera, que circula por feiras e outros espaços da grande São Paulo. O cenário são quatro tapetinhos para demarcar o palco e uma placa oferecendo o trabalho. Basta aos interessados fazer o pedido e aguardar o espetáculo, e parece que até hoje ninguém se queixou da qualidade do serviço. Um dos clientes mais assíduos era um engraxate que trabalhava na rua ao lado. Todo dinheiro que ele recebia era convertido em cenas, poucas foram as não vistas. Tenho um outro exemplo mais próximo, de uma amiga que sai por esse Brasil apresentando nas ruas das cidades a famosa peça de Cervantes, “Dom Quixote”. As intervenções do público nos tantos anos de estrada lhe renderam muito o que contar. E se formos mais a fundo, os casos não param. Assisti uma vez a história de um sujeito que encontrou um canto nas calçadas de Nova York, instalou uma mesa, cadeira, máquina de escrever, e ali passou a vender poemas, criados na hora e sob encomenda. Então, quem quisesse presentear um amigo, um amor ou o aniversariante do dia, podia requisitar seus serviços e suas inspirações. Achei muito criativas as alternativas que essas pessoas inventaram de fazer a arte rentável (afinal, viver tem um custo), de fazê-la junto com o público e de deixar a vida de quem cruza seus caminhos mais cheia de poesia. E para encerrar esse post, uma última nota de jornal: a artista plástica Ana Teixeira percorreu praças em todo o mundo com duas cadeiras, um novelo de lã enrolado em agulhas de tricô e o cartaz anunciando: “escuto histórias de amor”. Disse que nunca ouviu nenhuma história recontada. Todo mundo tem sua própria versão das coisas, e com certo trato, poderia resultar numa bela arte. Quem sabe num poema, quem sabe numa cena de teatro.

foto: Arteven.com

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Emails


Nem sei quando os emails se tornaram um mal necessário, mas desses novos recursos, é o que mais me agrada. Lembro das cartas escritas à máquina que eu e minha prima trocávamos, da folha datilografada de preto e vermelho, do tempo que levava pra chegar e que chegava quando menos esperávamos. Não tem coisa melhor que carta de correio. Mas confesso que me rendi aos encantos da modernidade e sua pressa de coelho da Alice. Mandar um recado escrito para terras distantes e ter resposta no mesmo dia foi um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade. Depois que o email foi libertado das assinaturas e democratizado, se tornou uma ferramenta indispensável. Eu não fui fiel a meu primeiro endereço, mas estou com o mesmo (e só com ele) já faz alguns anos, o que significa que ele guarda muitas relíquias.com. Tive uma boa surpresa esses dias quando abri minha conta e descobri que agora posso organizar tudo em pastas. Já era hora do programador me ajudar a dar uma arrumadinha em tantos recados, textos, notícias, piadas, afetos e um mundo de coisas que passou por ali. Essa sim foi uma grande viagem pelo passado, e toda ela documentada. Encontrei histórias riquíssimas, algumas que minha memória já tinha enxugado. O mais interessante é que cada uma era contada em primeira pessoa, estava escrita pelos próprios personagens que as viveram, falavam daquele momento. As viagens, as mudanças, os eventos, os encontros, o que já passou, o que era tão vivo, as discussões, as descobertas. Foi como abrir um baú com mil pedaços de lembrança. É claro que depois muitas horas revisitando o passado ele foi ficando chato, cansativo, fui atravessando frases sem dar muita conta do que estava escrito. Era hora de voltar à caixa de entrada e ver as mensagens novas que tinham chegado.

foto: Google imagens

terça-feira, 28 de julho de 2009

Culinária moderna


Ao contrário do que as tradições sociais cultuam, não fui eu a iluminada pelos dotes culinários na família. Meu irmão do meio já foi responsável por uma de nossas ceias de natal, meu primo sabe preparar uma sobremesa cujo nome nem sei escrever, meu pai assumiu os almoços lá de casa desde que se aposentou, e eu... bom, eu aprendi a fazer bolo de caixinha. Sob supervisão. Tenho uma certa incompatibilidade com a cozinha, agravada por um jeito meio sem jeito e muito distraído, que tudo derruba ou faz passar do ponto. Mas ainda não entreguei os talheres, estamos trabalhando a questão. Se não me afino com os modos de preparo comuns, pelo menos desenvolvi uma habilidade ao longo desses anos muito útil em matéria de alimentação. Quem já aprendeu que a dispensa não enche sozinha, sabe do que estou falando. E nesses tempos de bolso furado, os mantimentos precisam ser seletamente escolhidos e torce-se para que sejam também duradouros. Mas quantas vezes você chegou em casa com aquela lacuna no estômago e descobriu que o armário sofria no mesmo mal, nas prateleiras. A geladeira com mais ímãs que comida e o supermercado distante demais. Mas no fim sempre sobra uma coisa ou outra que aparentemente não combinam, mas eu nunca fui de respeitar a moda mesmo. Ovo mexido com mel foi a melhor invenção desses tempos. A azeitona também é sempre uma boa aliada. Além de dar gosto em tudo e servir como ingrediente a diversas invenções, pode ser consumida como petisco, como, aliás, acontece nos melhores bares da cidade. Sinta-se privilegiado. Outros chefes que vivem sob a mesma filosofia já me proporcionaram ensinamentos valiosíssimos, como aproveitar os envelopinhos de ketchup acumulados para fazer estrogonoff. E assim a técnica vai se aprimorando, mas o segredo está na improvisação. E pra isso, não tem receita.

foto: lu franco

domingo, 26 de julho de 2009

Caipirando


Todo ano, a turma que começou na faculdade e cresceu se reúne para fazer festa. Algumas são abrilinas, outras setembrinas, e por aí se vão tantas, mas a mais tradicional, como manda o figurino, é a festa junina no sítio do Cris. Que às vezes cai em julho ou agosto, mas apesar dos meses, o que importa é o encontro. E como não podia deixar ser, esse ano voltamos aos confins de Silva´s Garden para mais uma festa à moda caipira. Pouca coisa saiu como o planejado, mas como sempre, no fim, tudo deu certo. A previsão do tempo foi tão confiável quanto aquelas promessas de panfleto que garantem o amor de volta em cinco dias. Todo mundo cheio de casaco na mochila, para o frio intenso, e aqueles mais zoados porque levaram roupa de banho foram os que aproveitaram o pulo na piscina. Por duas semanas estivemos organizando uma lista com as melhores músicas, páreo para DJ Tati da Vila, e o som do mp3 ficou baixo demais. Aí surgiram os bons e velhos cds salvadores que me fizeram distender a perna de tanto dançar. Quase todo mundo precisaria ir de ônibus e encarar a ruim e velha baldeação, mas depois quase todo mundo conseguiu uma vaguinha de carona. Quem não foi preparado, inventou um traje a caráter. Quem tava duro, rachou as despesas. E mais uma vez fizemos um encontro de deixar histórias. Comida, bebida, estalinho, risadas, conversas, danças, recordações dos melhores momentos desses sete anos. Estar entre amigos é uma das melhores coisas da vida. Gosdimaisdessagente!

foto: cris rocha

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Logo ao lado

Quem pensa que a individualidade dos apartamentos prejudicou a proximidade entre os vizinhos, precisa passar uns dias no meu prédio. Pelo menos por aqui, a gente sempre acaba, de uma forma ou de outra, compartilhando muito da vida com os outros moradores. Assim que me mudei, conheci duas senhorinhas, das quais, aliás, eu não tinha como passar despercebida. Elas tinham o costume muito curioso de deixar a porta aberta. Toda vez que eu passava no corredor, as cumprimentava e, no terceiro dia, já estava sentada na antesala do conjugado, tomando café e ouvindo uma falar mal da outra. Ou falar das aventuras da mocidade, com um sorriso solto, ou dos versículos da Bíblia, com um olhar punitivo, ou do apoio mútuo, com um certo ar de resignação. Hoje elas não estão mais por aqui e agora as portas vivem fechadas. Logo ao lado morava uma outra senhora que tinha nome de flor. Eu adorava chamá-la pelo nome, mas ela quase nunca me ouvia. Na verdade, ela quase não ouvia nada, nem ninguém. Talvez por isso o sobrinho falasse tão alto. Aí era comigo, três apartamentos depois, que ele dividia a conversa. Escutar conversas, a propósito, é algo muito rotineiro. Não que eu seja chegada a essas coisas, longe de mim, mas diante das circunstâncias você se torna um mero refém. Quando você, que não é chegado a essas coisas, menos espera, está preso num enredo de alta complexidade e precisa continuar escutando para saber o desfecho do caso. E por aí a gente descobre que a cozinha não é apenas um lugar de lavar louça suja, mas de passar a vida a limpo. Esses dias, estava eu pesquisando para aonde foram as comidas que um dia estiveram na minha geladeira, quando ouvi os soluços e mais um capítulo da novela mexicana “Ele voltou pra namorada”. Henrique Augusto esteve se encontrando com Victoria Letícia, seu antigo amor. Mas não contou a Elisa Carolina, que mora no andar em cima do meu. Eleonora Gabriela, sua melhor amiga, descobriu toda a verdade e o desmascarou. Quase fui no 904 dar uns conselhos praquelas meninas, dizer que desilusão amorosa todo mundo tem e esta não seria a última, mas que um dia tudo passa. Há ainda um outro cômodo, cuja recepção sonora é mais limpa, que renderiam altas manchetes para a revista ti-ti-ti se eu morasse no leblon. Mas tudo tem limite. O banheiro é especialmente dedicado ao relaxamento e à intimidade, não dá pra ficar se atualizando sobre a vida alheia nesses momentos. Se bem que, vez ou outra, a gente também acaba participando da intimidade dos outros. Quando Serginho Groismam está terminando o programa, ainda tem muita gente de olho aberto. Meu vizinho da direita, por exemplo, dá umas festas de causar inveja. Só música boa. Esse cara definitivamente sabe se divertir, pena que eu gosto muito de dormir de madrugada. Assim a gente vai conhecendo um pouquinho de cada um. É claro que a gente faz piada com essas particularidades que entram pelo basculante, mas sempre que se precisa de ajuda, há alguém por perto para ajudar. E também assim ficamos disponíveis, e preocupados com a saúde da senhora, e trocando opiniões na conversa de elevador, e dividindo sacolas quando elas são muitas. Quando a gente sai debaixo da asa da família, vai construindo outra rede nos novos lugares por que passa. Mas a pergunta que agora não sai da minha cabeça é: se eu ouço tudo isso, o que será que eles não ouvem?

foto: lu franco

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Caralâmpia


Comprar livro é ótimo; ganhar é melhor ainda. E quando o livro, além de ser presente, é muito bom, agradeça em dobro. Eu sou duplamente grata por essa gentileza que uma grande amiga me fez. Terminei a última página em poucos dias,  não conseguia  ler outra coisa. Era uma reunião de entrevistas da coleção Encontros(Azougue Editorial) com a psiquiatra Nise da Silveira. Nascida em Maceió, se formou em medicina e veio para o Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar em hospitais psiquiátricos e liderou uma das revoluções mais bonitas de que já ouvi falar. A vida de Nise foi desenhada por seu jeito impetuoso e delicado, que a levou muito além do que talvez imaginasse. Numa época de torturas e intransigências, que tinham repercussões em todos os aspectos da sociedade, ela conseguiu abrir uma brecha e inventar um novo entendimento sobre a loucura. Quando o que havia de mais avançado era o tratamento através de eletrochoque, choque insulínico, lobotomia, ela disse ser possível uma outra forma de abordagem, veiculada pela arte. “É muito curioso esse fenômeno de procurar trazer o indivíduo à razão pela violência” – foi uma de suas frases que me ficou. Nise foi uma grande referência no movimento da Reforma Psiquiátrica e suas iniciativas renderam projetos que têm hoje grande reconhecimento. Há inúmeros episódios relatados no livro que valeriam ser contados, mas como não é possível fazê-lo com todos, escolhi apenas um, que achei muito interessante. Uma vez, um paciente entrou muito agitado na sala dos médicos, revirando tudo e falando em completa desordem. A resposta da maioria dos doutores seria medicá-lo imediatamente, contê-lo ou pedir a alguma enfermeira que o retirasse dali. Nise tirou um livro da estante e disse: “Raimundo, me emprestaram esse livro, mas eu tenho que devolver. Eu gostaria que você o copiasse pra mim”. Ele sentou numa mesa, encheu páginas e páginas de rabiscos, até se cansar. Quem acredita que grandes revoluções só são possíveis com armas e mortes, devia procurar saber mais sobre esses exemplos.

foto: lu franco

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pé na estrada


Adoro as histórias dessa gente que arrumou a mala e saiu por aí. Na época em que fiz aulas de dança em tecido, conheci uma moça que fazia parte desse grupo. Ela trabalhava num circo que estava de visita ao Rio e ia partir em breve. Já comecei a gostar dessa história aí, mas ficaria ainda melhor. A moça contou que morava numa cidade do nordeste e, como de costume, um dia um circo passou por lá. Foi assistir o espetáculo e caiu de amores pelo trapezista. Infelizmente o flerte teria que acabar tão logo que desmontassem a lona. Ela então resolver largar tudo – a casa, o trabalho, a família, os amigos – para seguir com ele. No começo, ajudava nos bastidores, arrumando os cenários, fazendo a comida. Depois também começou a treinar trapézio e se tornou uma das melhores. O circo já havia sido armado em tantas cidades diferentes que não soube me dizer ao certo e agora estava de novo com outro roteiro. O casal estava junto há seis anos, e há seis anos atravessando estradas por aí. E ontem fui mais uma vez espectadora dessas histórias que me encantam. Assisti o primeiro de um novo programa do Multishow que já entrou para minha lista de compromissos. “Nalu pelo mundo” mostra a vida de um outro casal, um surfista e uma cinegrafista (que morava em São Paulo e se mudou pra casa do namorado – todas as outras cidades), que saiu em busca das imagens mais belas e da onda perfeita. No meio do caminho, a barriga começou a crescer com a Isabele Nalu lá dentro. As viagens continuaram com a mais nova (literalmente) mochileira, que já nasceu cheia de coisa pra contar. Conhecer esse mundo com as próprias pernas é mesmo um privilégio a que todos temos que nos permitir, de alguma forma. Eu já inaugurei uns orgulhosos quilômetros, e essas humildes jornadas me renderam histórias de ouro. E há outras à caminho. É claro que histórias para contar a gente sempre têm, até mesmo de um dia chuvoso, solitário, dentro de casa. Mas sem dúvida o mundo traz muitas interferências riquíssimas nessas narrativas, que faz a gente relatar com sorriso no rosto e vontade de viver de novo. Não é disso que é feita a vida, afinal, das histórias que a gente conta? Que tenhamos então as melhores para contar.

foto: lu franco

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sair do lugar


Toda vez que vou ao teatro me pergunto por que estive tanto tempo sem ir. Sempre saio com uma inspiração, um incômodo, uma reflexão, alguma coisa fora do lugar. Acho que precisamos disso de tempos em tempos ou o tempo todo: precisamos reaprender a estar disponíveis, e a arte ajuda muito. O que acontece é que ao longo da vida a gente vai desaprendendo a perceber. Chegam notícias prontas, repetidas, preconceitos, olhares aprisionantes, distribuição maciça de frases, de gestos, de achos. E a gente vai usando isso, acreditando naquilo, reproduzindo o dito, comendo sem gosto, deixando de rebubinar. Aí a vida vai ficando comum, e a gente também. A arte, em todas as suas formas, dá uma outra arrumação para o de sempre e deixa a sensibilidade mais exposta. O mundo está precisando disso.

foto: lu franco

domingo, 19 de julho de 2009

Mas já?

Já acabou o domingo?

sábado, 18 de julho de 2009

Sorte


Eu ouvi uma história que, se não fosse pela grande credibilidade da fonte, nunca iria acreditar. Um cara estava indo trocar um ventilador que havia comprado no shopping, quando foi abordado por uma câmera, um microfone e um sujeito fazendo as seguintes perguntas: “você tem uma nota fiscal com valor acima de cinqüenta reais?”, e, diante da reposta positiva, “você gostaria de ir para Nova York agora?”. O shopping estava fazendo aniversário e lançou essa promoção: cobriria a viagem para quem atendesse ao critério da nota e topasse a proposta. Ele teve direito a comprar algumas roupas, dar um telefonema, e, direto do segundo andar, perto da praça de alimentação, seguiu para os Estados Unidos. Com tudo pago, para passar o final de semana. E essa não era a primeira vez que ele ganhava algo. Na verdade, era uma entre tantas. Ingressos, brindes, eletrônicos, a nécessaire do sorteio da excursão. Diante desse fenômeno de quatro folhas, a conclusão a que se chega é inevitável e unânime: ele é um cara de sorte. Mas a sorte não é tão chegada ao acaso quanto a gente pensa. O que ele fazia era se inscrever em tudo que era promoção, ou seja, convidava a sorte a entrar. Às vezes, ela até fazia visitas surpresa, como aconteceu no shopping. Mas em outras, em muitas outras, tinha mesmo que agradecer aos cupons, às embalagens reunidas, aos selos, às inscrições. Ele investia nas possibilidades, e é nesse plano que as coisas acontecem. Dão certo, não dão, fica pra próxima, tá aprovado – as respostas são muitas, mas uma delas pode ser a que se espera. A gente se arrisca muito pouco; talvez por isso, ganhe pouco também. Meu pai sempre conta a historinha de um senhor que, assim que chegou no céu, foi fazer uma reclamação a Deus. Disse que tinha sido um bom homem a vida inteira e que durante toda ela fez um único pedido, o qual nunca havia sido atendido. “Eu queria ter ganhado na loteria; isso teria ajudado muito minha família”. E então Deus, reconhecendo o merecimento do homem, respondeu: “Não há dúvidas quanto a isso. Mas você nunca jogou”.

foto: (por Danny Rossi) Google imagens

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Vênus e Marte


O metrô é um lugar florido de boas histórias para crônicas. Vou contar apenas uma, que não terá o merecido espaço nesse blog, posto que posto linhas breves, mas certamente não poderia passar à tangente. Tenho duas amigas especialmente queridas, engraçadas e com um timbre de voz alto e com bom som. Algo que me provoca uma certa inveja, confesso, pois quase tudo que eu digo num ambiente acima de 10 decibéis, preciso repetir. Mas no metrô, quando chegam as horas da noite, parece que só os trilhos fazem barulho. As pessoas costumam estar solitárias e quietas, com a cabeça pesada de preocupações do trabalho, distraídas em leituras que sempre me interessam, cantando internamente as músicas do mp3. Tudo muito individual. Mas quando entram um grupo de pessoas ou uma dupla de mulheres, o papo rola solto e as cadeiras próximas acabam compartilhando da conversa. Nós éramos três, com duas vozes significativas, e a nossa conversa, como era de se esperar, chegou aos arredores. Falamos o que para nós não passava de um papo corriqueiro, mas que talvez, para os homens, era tudo aquilo que eles gostariam de ouvir, perguntar, ou de estar próximo aos assentos verdes daquele vagão para bisbilhotar com consentimento o universo feminino. Um dia dedico um post apenas à nossa conversa corriqueira, que também daria muitas outras histórias. Mas toda boa prosa também tem seu fim e chegamos a uma das estações. Eu ainda ficaria por mais duas, e quando achei que iria voltar ao silêncio individual dos metrôs, o vento mudou a direção e me trouxe conversas de lá. Os dois passageiros do banco de trás, que não se conheciam e talvez nunca viessem a se falar em outra ocasião, entre risadinhas e interjeições se tornaram cúmplices naquele exato e privilegiado momento:
“ - Elas são engraçadas, né"
“- Muito! É bom poder ouvir essas coisas“
"- Imagine o que elas não falam no banheiro”
“- É, só assim mesmo pra saber o que elas pensam”
“- Vou descer agora. Boa noite pra você, amigo”
“- Boa noite pra você também”.

foto: lu franco

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pois é...


Às vezes gastamos horas tentando achar a palavra. Montamos discursos inteiros, desfiamos longas conversas, trocamos idéias em papos de esquina, e nada. Então ligamos pras amigas próximas, as do serviço auditivo gratuito 24 horas, e pedimos conselhos. Mas antes deles, falamos, falamos muito, falamos mais. E debaixo do chuveiro chegamos a algumas conclusões, mas sempre inconclusivas, é claro. Num dia de má sorte em que amiga não está em casa, ninguém atende o celular, nenhuma visita lhe aparece, acumulamos palavras que encheriam um dicionário. Aí escrevemos longas respostas, refletimos sobre cada detalhe, vez ou outra nos permitimos até falar em voz alta. Mas por fim elas acabam transbordando o pensamento solitário e é quando precisamos com urgência de um interlocutor de tarja preta. Como paliativo, vale até o vizinho de elevador, só para dizer alguma coisa, que o tempo está doido, reclamar da chuva ou do calor, mas ouvir outra voz. E esperar que ele pergunte se está tudo bem, para então continuarmos a falar daquilo que ficou entupido na cabeça e não sai. Então, creio eu que para ter um pouco mais silêncio na Terra, Deus manda lá de cima a palavra. Que nem sempre é uma palavra, mas não chega a ultrapassar uma frase. Pronto, era isso. Dá até um alívio do peito. E depois de tantos ditos por não ditos, às vezes o melhor mesmo é não dizer nada.

foto: lu franco

quarta-feira, 15 de julho de 2009

No chuveiro


Já tentei encontrar outros lugares. Tirei a sorte grande de morar numa cidade que é repleta deles. Horizonte de mar, pôr-do-sol num céu azul, banco de praça pra ver as pessoas passando - tem muitos cantos do Rio que são ideias pra se estar e pensar na vida. Eu também gosto desses, gosto muito. Mas pra eu pensar na minha vida ainda não descobri lugar melhor que o box do banheiro. É assim desde a época de escola. Lembro de minha mãe sempre reclamar dos minutos exagerados debaixo do chuveiro, e toda vez me perguntava se eu não podia arrumar um jeito mais econômico de refletir sobre a vida. E ela tinha razão. Não dá mesmo pra ficar desperdiçando água por capricho, não mais. Mas confesso que isso pra mim isso ainda é um grande esforço. Eu não sei que mágica tem um bom banho quente que num passe de vinte e oito minutos acaba com todos os seus problemas. Com trilha sonora então, dá pra terminar de ouvir um cd. Aquela desavença que lhe tirou o sono, aquele trabalho que lhe roubou a madrugada, aquela idéia que não aparecia até agora, aparece, e tudo ganha rumo no enrolar da toalha. Eu devo ter um anjo de guarda meio safado, que adora entrar no chuveiro comigo. Mas nós estamos negociando para os conselhos chegarem em no máximo quinze minutos – precisamos enxugar os devaneios longos. Uma vez, meu chuveiro queimou e me deixou uns dias em trabalho de economia forçada. Foi a única vez que cheguei à marca recorde de cinco minutos. Mas aí só dava mesmo pra tomar banho. Ainda estou investigando outros lugares que não causem tantos prejuízos e esperando que meu anjo higiênico me acompanhe. Abriram uma casa de tortas aqui perto, bem aconchegante mesmo, acho ele vai gostar. E tenho certeza que lá não vou desperdiçar nada.

foto: lu franco

terça-feira, 14 de julho de 2009

Modernidade


Estava ouvindo música no meu Britania Compact quando o Tempo pesou sobre mim. Ele estava à espreita, numa daquelas notícias soltas que os radialistas salpicam antes do intervalo. “A BBC de Londres fez uma experiência com um menino de 13 anos e lhe deu um walkman para ouvir música”. E eu esperei pelo resto, aguardando aonde estaria a surpresa que o tom da voz que saía do meu Britania anunciava. Não achava nada demais um menino dessa idade ouvir walkman. Será que eles também tinham proibido isso? Mas soube em seguida que o adolescente demorou três dias pra descobrir que podia virar a fita, a qual nunca tinha visto antes, e ouvir as faixas do outro lado. “Mas eu não sou tão velha”, pensei cá com meus LP´s. Parei um breve momento e me veio um flash back. Ontem eu e uma amiga lembrávamos de uma viagem que fizemos há dez anos atrás. Dez anos atrás é muito tempo. E quando você consegue pronunciar essa frase para dois ou mais eventos, tem a prova inegável de que o tempo está passando. Junto com essas lembranças, voltei ao walkman, às gravações e regravações das músicas da rádio, que sempre vinham com pedaços de propaganda junto, e aos nomes rabiscados e reescritos no adesivo das fitas. O botão Rec era quase uma mágica. Eu demorei à beça pra ter um diskman; ganhei inclusive um cd de presente sem ter onde escutar. Lembro que quando chegaram os mpvários, o redondinho ficou esquecido numa gaveta lá de casa. Acolhi-o como pude, mas ele engolia músicas sempre que o chão trepidava. Então vim pra cidade grande e descobri um aparelhinho made in Taiwan que só funcionava rádio, mas isso bastava para os bater pernas por aí. Custava 1,99 por semana, que era quando ele parava de funcionar. Depois de muitos anos, finalmente, comprei um mp3. Era um negócio extraordinário, fiquei extasiada. Foi na mesma época que meu irmão adquiriu um outro negócio mais extraordinário ainda e que até hoje eu não imagino como possa funcionar. É uma placa que carrega muitos, muitos mesmos, cds inteiros. Aí você acha uma estação em qualquer radico, mira, aperta uma tecla – e pronto! você ouve no rádio os cds armazenados na plaqueta. Fantástico, não? Mas o meu percurso tecnológico é bem mais modesto. Depois que fiquei algum tempo sem celular e ninguém mais me achava, ganhei um desses que pegava FM – acho que é a única vez que não estou defasada e confesso que está me sendo muito útil. Se bem que agora tem um tal de BlackBerry que parece ser o deus dos celulares. Eu achava que isso era nome de sorvete ou perfume, mas me disseram que é quase um computador. Esses dias descobri que meu celular tem também uma câmera, e que além disso pode funcionar como mp3. Talvez eu não seja tão velha, só ande com passos mais lentos.

foto: lu franco

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Vício


Meu nome é Luciana e eu estou a dois dias sem assistir House. Não está sendo fácil, mas sei que já tive muitos prejuízos na minha vida por causa disso. Primeiro, comecei com Lost, foi um amigo que me apresentou. Depois da segunda temporada, não consegui mais parar. Cheguei a assistir cinco episódios numa mesma noite. Eu queria mais. Tentei entender o que estava acontecendo, mas tudo continuava sem sentido. Comecei a delirar, inventei mil teorias para explicar o porque dos números malditos e cheguei a pensar que todos nós estávamos presos numa grande ilha. Me esforcei, quase consegui largar, mas continuei assistindo socialmente, apenas nos finais de semana. Foi quando apareceu Heroes. Fazia parte da recuperação não perder mais dinheiro na locadora. Mas a net combo colocou a universal channel dentro da minha própria casa. Tive outra recaída. Via episódios inéditos e antigos, e acabei ficando desorientada no tempo e no espaço. Eles morriam, destruíam o mundo, vinham do futuro, mudavam as coisas, viviam de novo. Quando vi um episódio em que o Sylar era bonzinho, pensei que estava perdendo o contato com a realidade. Achei melhor descansar um pouco. Esqueci a TV ligada. Abri os olhos e estava passando Brothers and Sisthers. Ia visitar amigos pra mudar de assunto, mas eles tinham o mesmo vício e sempre me apresentavam uma coisa nova. Grey´s Anatomy, Veronica Mars, Kyle – uma mais pesada que a outra. Um dia, a irmã de uma amiga chegou com umas caixas estranhas. Eram os Box de todas as temporadas de Sex and the City. E a cada seriado, mais uma hora do meu dia ficava pra trás. Deixei de ir ao samba, voltava mais cedo pra casa, interrompia conversa com os amigos porque não podia ficar muito tempo sem. Estou trabalhando na minha melhora, hoje fui na rua e cheguei a pegar um sol. Acho que estou progredinho. Mas nada, até hoje, chegou perto da primeira vez que experimentei. Friends foi imbatível.

foto: (por portalséries) Google imagens

domingo, 12 de julho de 2009

Detalhes


Eu tenho uma amiga que gosta de homens mais cheinhos. Parrudinhos, é a palavra que ela usa. Outra, que presta atenção nas mãos – é o comentário que mais ouço sobre seus flertes, que o escolhido tem as mãos bonitas. Mas o que esta acha horrível, terrível, repugnante, quase uma falha de princípios, é homem que faz sobrancelha. Isso é imperdoável. Ela é um detector à distância de sobrancelhas masculinas que acabaram de sair do salão. Eu acho isso incrível, porque nunca percebo. Já vi algumas se derretendo por quem fala bem, que faz pensar, que sabe o que fala. Homens inteligentes têm um charme que eles desconhecem. Mas é preciso prudência: se não tiver senso de humor, fica chato. Já testemunhei inclusive os chatos serem alvos de olhares desejosos, os quais certamente viram algo que eu não vi. Nariz grande, canela fina, dentinho torto, sardinha, óculos – cada um tem seus encantos. Ah, e os barbudos... Descobrimos uma comunidade no orkut que é quase um fã clube: “Barbudetes”. Por incrível que pareça, tenho um outro grupo de amigas que acham os barbudinhos sujos. Elas gostam dos limpos, seja lá o que for isso. Mas se é para provocar polêmica, nada melhor que falar de dread. Ou de piercing, ou de tatuagem. Adoro todos, mas dependem de certas condições. Tudo é muito relativo. É claro que existem os unânimes, mas ainda assim dividem concorrência. Numa mesma conversa de bar, usamos o adjetivo “o homem mais bonito do mundo” três vezes, para três bonitos. E é bem provável que eles nem imaginem isso. As belezas estão no plural. E nos detalhes. E talvez naquilo que não gostamos. Há sempre muitos olhares diferentes sobre nós.

foto: lu franco

sábado, 11 de julho de 2009

Cálculos


Sofria de cálculos. Desde que o irmão mais novo nascera, aprendera a dividir tudo ao meio. Antes, era inteiro, todo, singular. Filho, sobrinho, neto, afilhado, o menino mais bonito da rua – só se sabia unitário. Mas esse mundo regido pela lei da multiplicação acabou por lhe subtrair o sossego. Primeiro, veio o irmão; logo em seguida o primo. E se com os de casa era preciso fracionar tudo em duas partes justas, com o primo a divisão era apenas por um e ele mesmo – não havia interseções. As visitas tinham o privilégio de um erro de cálculo, que a mãe tentava explicar relativizando conceitos que nunca havia entendido. E ao longo das insuficiências matemáticas da vida, aprendera a desenvolver uma paciência infinita. Resolveu fazer engenharia. Largou na quinta vez sucessiva em que repetiu em cálculo III. Foi ser contador, mas o saldo não foi dos melhores. Sua mulher jogava-lhe na cara todos os meses a função de um chefe de família, pois as contas sempre caíam no negativo. O que ela não via eram as derivações que ele ainda conseguia fazer do dinheiro que ganhava, para manter integralidade dos seus. Lembrou daqueles tempos dos primeiros numerais, onde lhe ensinaram que zero nada valia. E agora aguardava pelos zeros que o chefe fazia prometer e nunca apareciam no contra-cheque. Um dia, acordou para trabalhar e sentiu umas dores insuportáveis. Pensou que pelo menos assim poderia tirar um dia de folga dos números que o amaldiçoavam por anos. Mas a cada quarto de hora as pontadas se elevavam à décima potência. Foi preciso procurar um médico especialista em corpos rígidos. Fez uns exames e, depois da prova final, o doutor não tinha mais dúvida: estava com cálculo renal.

foto: lu franco

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Coisa de velho


Me distraí no espelho do elevador, ajeitando a franja e alguns pensamentos, quando paramos no sétimo andar. Dali entrou um senhor segurando um cigarro e já pedindo desculpas. Ainda imaginei que grande indelicadeza seria compartilhar, naquele quadrado sem janelas, a fumaça de um cigarro, mas vendo que estava apagado, entre os dedos daquele senhor, mais como um adereço que como um vício, não pude imaginar do que se desculpava. “... pelos meus olhos molhados”, respondeu, como se ouvisse minha interrogação. Continuou explicando que era assim toda vez que ouvia a 9a. sinfonia de Bethoveen, e que agora enxugava com o lenço o pouco que havia restado de um choro de verdade. Dizia que não se importava com o que os outros achavam sobre se emocionar desse jeito, apenas lhe incomodava ser chamado de velho; mas coisa de velho ou não, música clássica era sua paixão. Achei tão bonito esse transbordamento que tentei não estragá-lo com qualquer palavra cinza que pudesse me escapar. Cuidei de pequenos comentários apenas para render a conversa. Foi quando me confessou outra grande emoção. “Sou cineasta e já tive na trilha sonora de meus filmes pérolas belíssimas. Imagina o que é ver Chico Buarque cantando Mil Perdões no estúdio, feito sob encomenda para um filme seu?”. E foi aí que me descompus na economia de palavras e desperdicei longas frases sobre como ele, ele sim, Chico Buarque de Hollanda, fazia os meus olhos ficarem molhados depois de chorar de emoção. Chegamos à esquina e tivemos que nos despedir para cada um seguir seu lado. “Foi um grande prazer conhecer o senhor”, eu disse, encontrando meu mais respeitoso cumprimento. Mas logo percebi seu desagrado e me dei conta que essa última palavra tinha o peso daquelas que tanto tentei evitar. Que tropeço! Dessa vez as desculpas teriam que ser minhas: mil perdões.

foto: lu franco

sexta-feira, 6 de março de 2009

À sete chaves


Minha mãe tinha uma Olympus Trip 35 que ela que escondia a sete chaves, um cadeado e um segredo que devia guardar a origem do mundo. A primeira vez que encontrei aquela relíquia foi quando nos mudávamos para a General Osório, 121, e na bagunça das caixas, roupas e outros pertences que se perdiam de seus donos, pus os olhos numa caixinha preta com uma enorme lente redonda e segurei-a como um troféu de primeiro lugar. Claro que seria arriscado demais revelar o achado para os novos moradores do 101. Precisei trair a confiança da Família Franco buscando instruções de uso na garotada recém-amiga, mas de boa reputação, do prédio. Alguém me passou a valiosa informação de que a irmã mais velha de uns dos meninos ganhara uma máquina de aniversário e talvez fosse ela a pessoa que eu procurava. Mas os avanços tecnológicos, que desde aquela época já trocavam os botões de lugar, nos deu uma rasteira fatal: acabamos abrindo a tampa onde estava o filme fotográfico e eu fiquei duas semanas de castigo por ter queimado o que viria a ser a última imagem do meu avô.
Depois veio a Olympus automática, e, como uma consumidora fiel, minha mãe manteve o respeito à marca cedendo apenas às novidades da década seguinte. Flash embutido, novo design e, a cada duas semanas, novo esconderijo, que nunca me fazia desistir de achar a máquina. E por essas peças que o destino nos prega (no caso, à minha mãe), eu sempre acabava a encontrando e isso me rendia boas imagens por algumas semanas, até ser descoberta. Tiveram vezes em que a Olympus viajou cidades, e mesmo estados, alguns que minha própria mãe nunca havia pisado, e eu me orgulhava de cada click.
Então veio o primeiro salário e pude realizar finalmente o sonho da máquina própria - foi quando chegou a Sony Cybershot. A modernidade, dessa vez a meu favor, me trazia imagens com revelação gratuita que surgiam por um cabinho plugado no computador, e assim eu batia tantas fotos que devo ter deixado a memória do pc mais lenta. Mas por essas peças que o destino nos estraga (no caso, da máquina), fiquei com imagens do escuro e um orçamento mais caro que uma digital nova. E foi aí que veio a luz no fim do túnel, com a ajuda daquela a quem tanto enganei. Talvez por querer livrar a sua nova Cannon (presente do meu irmão) das minhas garras, talvez porque no fundo ela gostasse da ousadia a qual nunca se permitiria – tirar sua máquina da gaveta -, minha mãe mexeu em algo ainda mais difícil para ela e me deu dinheiro para a sonhada aquisição. Honrei o pesar de tantos sacrifícios e fiz as imagens mais lindas que consegui. Não saía sem minha Panasonic Lumix na bolsa e pude recortar gestos do cotidiano que ganhavam elogios de me deixar ainda mais orgulhosa. Pronto, agora tinha mais uma paixão em minha vida. Mas como o destino não esquece os pregos (no caso, pra mim), levaram minha Lumix numa das esquinas do carnaval e mais uma vez fiquei sem os clicks e com o coração partido. Ouvi um bocado da minha mãe, que lembrava a importância da proteção de uma gaveta, mas os retratos que hoje guardo ficarão por toda a vida e não pretendo parar por aqui. Agora só falta descobrir onde será que ela escondeu a máquina dessa vez.

foto: lu franco (foto no mural: thiago franco)