
Estava ouvindo música no meu Britania Compact quando o Tempo pesou sobre mim. Ele estava à espreita, numa daquelas notícias soltas que os radialistas salpicam antes do intervalo. “A BBC de Londres fez uma experiência com um menino de 13 anos e lhe deu um walkman para ouvir música”. E eu esperei pelo resto, aguardando aonde estaria a surpresa que o tom da voz que saía do meu Britania anunciava. Não achava nada demais um menino dessa idade ouvir walkman. Será que eles também tinham proibido isso? Mas soube em seguida que o adolescente demorou três dias pra descobrir que podia virar a fita, a qual nunca tinha visto antes, e ouvir as faixas do outro lado. “Mas eu não sou tão velha”, pensei cá com meus LP´s. Parei um breve momento e me veio um flash back. Ontem eu e uma amiga lembrávamos de uma viagem que fizemos há dez anos atrás. Dez anos atrás é muito tempo. E quando você consegue pronunciar essa frase para dois ou mais eventos, tem a prova inegável de que o tempo está passando. Junto com essas lembranças, voltei ao walkman, às gravações e regravações das músicas da rádio, que sempre vinham com pedaços de propaganda junto, e aos nomes rabiscados e reescritos no adesivo das fitas. O botão Rec era quase uma mágica. Eu demorei à beça pra ter um diskman; ganhei inclusive um cd de presente sem ter onde escutar. Lembro que quando chegaram os mpvários, o redondinho ficou esquecido numa gaveta lá de casa. Acolhi-o como pude, mas ele engolia músicas sempre que o chão trepidava. Então vim pra cidade grande e descobri um aparelhinho made in Taiwan que só funcionava rádio, mas isso bastava para os bater pernas por aí. Custava 1,99 por semana, que era quando ele parava de funcionar. Depois de muitos anos, finalmente, comprei um mp3. Era um negócio extraordinário, fiquei extasiada. Foi na mesma época que meu irmão adquiriu um outro negócio mais extraordinário ainda e que até hoje eu não imagino como possa funcionar. É uma placa que carrega muitos, muitos mesmos, cds inteiros. Aí você acha uma estação em qualquer radico, mira, aperta uma tecla – e pronto! você ouve no rádio os cds armazenados na plaqueta. Fantástico, não? Mas o meu percurso tecnológico é bem mais modesto. Depois que fiquei algum tempo sem celular e ninguém mais me achava, ganhei um desses que pegava FM – acho que é a única vez que não estou defasada e confesso que está me sendo muito útil. Se bem que agora tem um tal de BlackBerry que parece ser o deus dos celulares. Eu achava que isso era nome de sorvete ou perfume, mas me disseram que é quase um computador. Esses dias descobri que meu celular tem também uma câmera, e que além disso pode funcionar como mp3. Talvez eu não seja tão velha, só ande com passos mais lentos.
foto: lu franco
5 comentários:
tecnologia é fogo. Lu sou a Belle filha/irma gemea da helena. se cuida.
Quê isso! Olha a família unida ae!!! É isso chuchu! o problema é que mp3745565 e nossas séries viciantes são de graça...bem já dizia Lacan. de graça é bom demais!!!!
Que honra recebê-las no meu humilde estabelecimento! Adorei as visitas!
Pois é, Lena, e "de graça" é o nosso sobrenome, né? rs
Dois beijos pra vcs, um pra cada uma!
A Família DeGraça é a maior do Brasil.
Ah, a Tecnologia... sabe, eu gosto. Gosto muito, mas ainda custa muito também e (aproveitando o papo de família) acabo por me apegar somente ao que posso baixar de graça na internet. Dá pra baixar um pouco a angústia, mas quando vejo em minhas revistas os iphones da vida, eu fico meio triste. Não pelo iphone, porque, pra mim, se tem algo que segura a periquita do desejo tecnológico é o cagaço moderno. Não quero iphone porque eu não quero compartilhá-lo com o sujeito que, seguramente, vai roubar de mim quando estiver na rua. Entretanto eu gosto de computadores, e como esse ainda fica em casa - por enquanto, eu o desejo.
Lu, você ainda pode ficar muito,mas muito velha, pois tem um bocado de juventude nesse rosto e nessa cabeça. Não se preocupe com isso. Ah, sim... mas estamos todos ficando mesmo...
Beijos saudosos
Isso é algo q me intriga tb, Lu!
me lembro qd era pequena, me chamavam para mexer no vídeo-cassete pq meus pais já não sabiam. Gravar filmes então, 'chama a Lívia!'. E eu nem lia o manual, era intuitivo. Deve existir uma relação entre juventude celular e tecnologia.
Até hj eu não entendo o q é a musica e os vísdeos nos MPvários.
Antigamente, a gnt sabia q na fita estava gravada a sequencia de imagens do Tom Cruise lá, dava pra tocar, puxar, era palpável. Se cortasse, já era. Com o cd eu já não entendia mto. Cadê o palpável, onde está a imagem, a carinha do Tom? Com esses MPvários então eu desisti de entender. Estamos na era do invisível.
São Tomé estaria lascado!
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