sábado, 11 de julho de 2009

Cálculos


Sofria de cálculos. Desde que o irmão mais novo nascera, aprendera a dividir tudo ao meio. Antes, era inteiro, todo, singular. Filho, sobrinho, neto, afilhado, o menino mais bonito da rua – só se sabia unitário. Mas esse mundo regido pela lei da multiplicação acabou por lhe subtrair o sossego. Primeiro, veio o irmão; logo em seguida o primo. E se com os de casa era preciso fracionar tudo em duas partes justas, com o primo a divisão era apenas por um e ele mesmo – não havia interseções. As visitas tinham o privilégio de um erro de cálculo, que a mãe tentava explicar relativizando conceitos que nunca havia entendido. E ao longo das insuficiências matemáticas da vida, aprendera a desenvolver uma paciência infinita. Resolveu fazer engenharia. Largou na quinta vez sucessiva em que repetiu em cálculo III. Foi ser contador, mas o saldo não foi dos melhores. Sua mulher jogava-lhe na cara todos os meses a função de um chefe de família, pois as contas sempre caíam no negativo. O que ela não via eram as derivações que ele ainda conseguia fazer do dinheiro que ganhava, para manter integralidade dos seus. Lembrou daqueles tempos dos primeiros numerais, onde lhe ensinaram que zero nada valia. E agora aguardava pelos zeros que o chefe fazia prometer e nunca apareciam no contra-cheque. Um dia, acordou para trabalhar e sentiu umas dores insuportáveis. Pensou que pelo menos assim poderia tirar um dia de folga dos números que o amaldiçoavam por anos. Mas a cada quarto de hora as pontadas se elevavam à décima potência. Foi preciso procurar um médico especialista em corpos rígidos. Fez uns exames e, depois da prova final, o doutor não tinha mais dúvida: estava com cálculo renal.

foto: lu franco

Um comentário:

Lu disse...

inspirado nos engenheiros da família (e em todos os outros) que sofrem desse mal! vale pra rir!