quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Passagem


A grande maioria dos meus amigos de faculdade veio morar no Rio depois do vestibular. Era época de festas, de descobrir a nova cidade, de conhecer os lugares daqui. Andávamos pelo Rio de Janeiro com os olhos atentos para a novidade e com os pés perdidos entre tantos nomes de ruas e letreiros de ônibus. Tudo era bom de se conhecer, e a madrugada se tornou uma grande companheira nos retornos pra casa. Hoje nossos olhos estão ainda mais atentos, e os pés já não podem ficar incertos sobre que caminhos seguir. Principalmente nas horas que pertencem à madrugada. É, é isso, infelizmente: estamos todos com medo. Ontem uma amiga contou que voltava para a casa quando dois meninos lhe alcançaram. Meninos de dez anos, ou onze para o mais velho. Estava com uma sacola de compras e viu que eles sussurravam alguma coisa. Retirou um pacote de pão, mas os meninos não pegaram. Só entendeu que era um assalto quando ouviu o que dizia o mais novo: “fura ela, fura ela!”. Ele repetia com raiva, com olhos de raiva. Fico muito assustada quando ouço essas histórias. O que levou uma criança de dez anos a desejar com tanto rancor que alguém sentisse essa dor, que ela fosse marcada na carne? Mas como poderia querer outra coisa, quando é só isso que tem? Os chutes e golpes de cacetete pra mudar de calçada, os olhares de indiferença e medo dos por ali passam, a cama e o banheiro na sujeira da rua. E quem se importa? E quem olha pra isso? Só o fazemos pra pedir mais segurança, para nós, para deixar as calçadas limpas, para nós – nós que temos ali um lugar de passagem. Passagem para o retorno pra casa. Hoje é o medo que se tornou o companheiro, tenho medo de andar nas ruas do Rio de Janeiro. Tenho medo do que estamos produzindo com esse esquecimento de quem teve que fazer da rua um lugar de morada, de quem teve que fazer a morada com papelão e resto de material, de quem virou o resto. De quem só é visto na radicalidade da violência. Precisaremos de muito pra mudar esse cenário. Muito mais que um pacote de pão.

foto: lu franco

3 comentários:

Mim disse...

Ai, que medo, que tristeza, que sensação de impotência, de desistência, de incompetência.
Nesta época de tantos gastos com comidas caras, presentes e viagens, como não pensar neles que nada de material têm...
bonito texto, amiga!

Vitor disse...

Porque somos naturalmente bons...
Hum.... olha, eu concordo com você que é uma questão maior do que a mera assistência ou higienismoo, que as soluções precisam vir de outro plano. Mas me ocorreu algo, agora, que é só metade referente ao seu post.
Não me refiro a esse ou aquele menino ou menina, faço uma espécie de generalização. A primeira coisa que nós (eu, você, a Lena e a rapeize lá do tablado) pensamos é "que merda de mundo que cria pessoas assim". Proponho apenas como exercício: de quem mais é a culpa, se é que há outro ator?

Thiago disse...

Algumas idéias esporádicas:

* Essa situação de impotência não é algo novo e nem é algo que vai mudar de uma hora pra outra
* Não acho que a situação seja tão catastrófica a ponto de perdermos fé no futuro
* Essa década que começará agora apontará grandes oportunidades para mudança